quarta-feira, 28 de julho de 2010

Do céu ao inferno na Guatemala

Seguindo a temática dos “contos” de viagens, aproveito para postar um (nem tão) breve relato sobre minha última passagem pela Guatemala, que apesar de ter ocorrido cronologicamente anterior à da Bolívia, ficou para ser “publicada” só agora, antes que a inspiração (e o tempo livre) para escrever se esgotassem novamente.


O texto é mais curto do que o anterior (ufa!), até porque estamos falando de uma viagem de cerca de três dias (curta, mas intensa). Mas como de costume, o grau de “inusitabilidade” de alguns fatos faz com que seja justificável o seu relato.


Chegamos à cidade da Guatemala num sábado à noite (via aérea, depois de uma semana na Costa Rica), sendo que na manhã seguinte deveríamos nos dirigir para outra cidade que fica a cerca de 300 km dali. A idéia inicial era que nosso cliente(distribuidor) enviasse um de seus empregados para nos buscar, porém, a pessoa que me acompanhava (como de praxe, nosso gerente local), em meio a um acesso de amabilidade, declinou a oferta em nome do desgaste que isto causaria a quem quer que fosse nos apanhar, pois estávamos falando de um “bate-volta” de aproximadamente 600 km (contanto ida e volta). Ao invés disso, ele sugeriu que fôssemos por conta própria, já que o mesmo cliente é proprietário da maior empresa de ônibus da região, e poderia nos designar um de seus veículos, sem que sequer precisássemos pagar pela viagem (como se esse fosse o problema...). Afinal, não precisaríamos nos preocupar com nada, já que o ônibus supostamente era “bom”, e iríamos “tranquilos”.GRANDE erro...

Às 5 da manhã do dia seguinte, já estávamos no terminal rodoviário aguardando nosso transporte, e aqui cabe comentar que o grau de “beleza” do lugar e das pessoas ali presentes é proporcionalmente igual ao de qualquer terminal rodoviário do Brasil, de modo que considerando que estávamos na Guatemala, deixo a cargo da imaginação do leitor a visualização da cena. Enquanto eu varria todo o pátio com os olhos em busca de nosso “ônibus bom” e não o encontrava, meu guia, que estava a alguns metros, conversava com um suposto funcionário do lugar, que apontou para um dos veículos que estava estacionado atrás de mim. Voltei-me para o mesmo, e pensei que a única maneira daquilo ser um bom sinal, seria se a pessoa estivesse dizendo algo como:

- “Ah claro, não precisa se preocupar, pois o ônibus de vocês é bom sim..Não é como aquela lata-velha ali atrás, ó...”. Mas infelizmente, o diálogo não foi bem esse...
Montamos no velho coletivo de cor prata, que pelos meus cálculos datava de meados para o fim da década de 70. No dia seguinte, quando me perguntaram se o ônibus “era bom”, eu me vi obrigado a responder que sim, ERA bom...Há uns 30 anos, era... Ao sentar-me, constatei que seria difícil passar as próximas 5 horas ali (duração prevista da viagem), pois eu estava tendo dificuldades em identificar o que me doía mais: as costas, pela dureza do assento, ou o joelho, pela compressão inevitável do encosto da frente.

Iniciada a viagem, pensei em tentar dormir, com a esperança de que as 4 horas de sono da noite anterior superassem quaisquer limitações de conforto físico...Pois quando eu finalmente encontrara uma posição semi-confortável, ou seja, uma angulação mais adequada entre cabeça, costas e pernas (algo que me deixava numa espécie de posição em “Z”), e estava fechando os olhos, pronto para entrar no chamado sono REM (rapid eyes movement, fase mais profunda do sono), eis que cerca de meia poltrona a minha frente (nem sequer uma), no corredor surge (literalmente, pois não vi de onde ele se levantou), um CRENTE daqueles com bíblia em baixo do braço, e começa a berrar sua pregação... É impressionante como independentemente do país e do idioma, a entonação e a oratória desses caras é idêntica. Ele poderia estar pregando em mandarim, e seria possível saber do que se tratava... O interessante é que no meio do sermão, ele começou a bendizer o ônibus e seus componentes...Era algo assim (as letras maiúsculas servem para evidenciar o aumento de intensidade que era dado em algumas sílabas tônicas):

- “Que Deus abençoe este veÍculo para que tenhamos uma viagem tranquila... Que abençoe os pnEUs; Que abençoe o FREio; Que abençoe a embreAgem; Que abençoe o motoRIsta”...

E assim sucessivamente. Confesso que algumas das partes (ou peças) abençoadas eu desconhecia. Mas enfim, pelo menos eu tinha a certeza de que nossa viagem seria segura...Afinal, nosso transporte estava bento dos pneus ao escapamento...Bom, este foi o pensamento otimista, né...Há quem pudesse pensar o contrário, ou seja, que já estávamos purificados e prontinhos para adentrar ao céu de busão e tudo... Mas não foi o caso...

Enfim, tendo terminado sua pregação e coletado seus dízimos, o “irmão” desceu na próxima parada (e aqui cabe ressaltar que foram MUITAS, pois estávamos em sistema “pinga-pinga”, e por isso a viagem demorava tanto), seguimos adiante, e por algum tempo, sem maiores contratempos. Falando nas paradas, estas eram um show à parte, pois a cada vez que encostávamos em algum “pueblo” para pegar gente, éramos cercados por uma infinidade de vendedores de todos os tipos de artigos, desde jornais até os mais variados alimentos, como empanadas (cujos sabores eu não conseguia identificar, pois eram termos novos para mim, como por exemplo, “loroco”, que posteriormente eu descobri tratar-se de um vegetal), frutas PPU (prontas para o uso), ou seja, já picadas em saquinhos plástico, bolos, churrasquinhos de sabe Deus que bicho, e por aí vai... Alguns deles até conseguiam subir no ônibus (não entendi bem o critério desta permissão...Talvez alguns tivessem a sorte de pegar um motorista que fosse fã de loroco e lhe davam um “agrado”), mas a maioria ficava do lado de fora, levantando seus produtos na altura das janelas e ofertando-os aos gritos.

Mais adiante, a nova tentativa de pregar os olhos foi frustrada por uma nova intervenção... Mas desta vez não religiosa, mas sim “científica”. Um homem relativamente bem vestido, de óculos, com uma bolsa a tira-colo similar a estas usadas por propagandistas médicos, só que bem “surrada”, sacou dela um pequeno frasco plástico vermelho que continha pílulas brancas, começou a falar:

- “Talvez isto já tenha acontecido com vocês...Se você se abaixa para fazer algo, levanta-se rápido demais e surgem alguns pontinhos luminosos em sua visão...Isto é falta de vitaminas no cérebro!!”
- “Se você manda seu filho até a venda buscar um saco de farinha e ele volta com um saco de feijão, não bata nele...Isso é falta de vitaminas!!!”
- “ Se você chega em casa, sua esposa tira as suas calças e você adormece...Isso é falta de vitaminas!!!”

E após desferir mais algumas revelações da medicina moderna, começou a oferecer sua solução para todos estes males...Um complexo “vitamínico”, feito a base de compostos “naturais”, com resultados “comprovados”. O mais interessante é que suas técnicas de vendas não eram das piores...Enquanto ele falava, ia distribuindo frascos para que as pessoas os pegassem, manipulassem, vissem de perto...Isso é comprovadamente eficaz (aguçar os sentidos do potencial comprador)...E não é que ao final ele vendeu seus 6 ou 7 frasquinhos?? Até comentei com nosso gerente local, que deveríamos tirar uma lição deste caso, já que ele vendeu mais do que vendem alguns dos membros da equipe do nosso distribuidor... Quem sabe não seria uma boa idéia propormos um ciclo de palestras técnicas dentro do busão durante minha próxima visita...? Aparentemente ele gostou da idéia...A moça que estava do meu lado (do outro lado do corredor) comprou um frasco e depois ficou lá, lendo o rótulo... Fiquei imaginando qual seria o seu problema...Um filho burro, ou um marido brocha...?

Já no trecho final da viagem, resolvi fazer mais uma tentativa de relaxamento, afinal, teríamos um dia cheio pela frente, no qual constava dentre uma das muitas atividades, assistir ao jogo da Argentina x México (pois estávamos em plena Copa do Mundo). Na última parada, eu havia notado que subira uma mocinha que devia ter lá seus 19 anos, e que até era jeitosinha..Magrinha, com uma cara nem tão de índio...Falar que era “bonita” seria forçar demais a barra...Mas em termos relativos, até que não era má....Pois bem...Eis que no exato mesmo ponto em que fizera o anterior, ela se posiciona com sua bíblia na mão, e começa a disparar seu sermão...Eu desacreditei...Aquele ponto, bem ao lado (um pouco à frente) de MINHA poltrona, devia ser o altar do ônibus...De novo ali?? Ela era uma daquelas crentes agressivas, e fazia uma cara de brava que dava medo, sem contar que seu script soava muito mais repreensivo do que o do anterior...Enquanto o outro nos abençoava, o discurso desta era mais do tipo “os pecadores vão para a fogueira” (teria ela lido meus pensamentos quando entrou no ônibus?). E para piorar, o sermão dela era daqueles transmitidos em estéreo... Ou seja, enquanto ela gritava na frente, havia uma espécie de “coadjuvante”, ou “elenco de apoio” lá no fundão, que repetia algumas palavras-chave, ou então falava outras que corroboravam ou reforçavam a idéia principal do texto. Algo como:

-“Aqueles que não seguirem a palavra, sofrerão as consequências!” “(Consequências!!!)”
- “Venham e sigam a palavra!” “(Ainda há tempo!!)”

Que paradoxal, não? Inicialmente abençoados, e no final amaldiçoados...Literalmente, do céu ao inferno em poucos quilômetros.

Cerca de cinco horas após termos saído, chegamos ao ponto final...Um complexo formado por posto de gasolina, restaurante, hotel e loja agropecuária que também pertencem a nosso cliente. Fomos tomar café-da-manhã (típico da América Central: arroz, feijão preto, ovos, carne moída e café-com-leite), enquanto aguardávamos nosso comitê de recepção chegar para nos apanhar.
Antes de descrever sua chegada, convém uma breve introdução sobre alguns aspectos sócio-culturais da Guatemala. Trata-se de um país que sofre muito com a falta de segurança pública. A receita é simples e desastrosa: riqueza polarizada (ou seja, uma maioria MUITO pobre e uma minoria MUITO rica)+ falta de segurança (polícia despreparada e corrupta)+desemprego+acesso ridiculamente fácil a armas de fogo. Resultado: Terra de ninguém. E a minoria muito rica “sofre” com os altos índices de sequestros (principalmente) e assaltos.

Posto isso, eis que chega a nossa “caravana”... Um comboio de três caminhonetes Toyota Hilux brancas, em alta velocidade cruzaram o posto de gasolina até o restaurante onde estávamos. Delas desceram cerca de 8 pessoas, dentre as quais, duas eram nossos clientes (o distribuidor e seu irmão, sendo suas idades 26 e 17 respectivamente), e os demais, seguranças armados com pistolas, que rapidamente se espalham pelo perímetro do lugar, e muito simpáticos e prestativos, já pegaram nossas malas e trataram de carregá-las até os carros, enquanto cumpríamos os usuais rituais de saudação. E se você está imaginando “seguranças” mais ou menos como o Kevin Costner em “O Guarda-Costas”, pode desencanar, ,e imaginar uns caras mau encarados, com camisas xadrez, botina e chapéu. Ao entrar no carro para seguir viagem, já notei algo diferente...O peso e a espessura das portas indicavam que estávamos envoltos por uma blindagem Nível 5, ou seja, uma das mais fortes do mercado, daquelas que seguram até granadas e minas terrestres. Íamos meu guia e eu no banco traseiro, e no dianteiro, nossos clientes. Entre eles, próximo de onde se engatam os cintos de segurança, havia duas pistolas Glock calibre .40 (uma de cada um deles), alocadas em uma espécie de suporte próprio para este fim. Éramos o carro do meio no comboio, indo sempre um na frente e outro atrás. Inicialmente, toda esta movimentação pode parecer estranha, mas depois nos acostumamos...

Todo o restante da viagem ocorreu seguindo a mesma dinâmica, ou seja, em cada lugar onde parávamos, desciam antes os “jagunços” que se distribuíam pelo local, sendo que no mínimo dois deles sempre ficavam próximos a nós... Otimista e bem humorado por natureza, preferi pensar que tudo isso seria um bom treinamento para que eu já fosse me acostumando com uma futura vida no universo dos ricos e famosos...

Como eu disse, com o passar dos dias fomos nos acostumando a esta rotina...Até fiz “amizade” com a maioria dos seguranças, o que era inevitável, pois eles não nos deixavam por um minuto sequer...Foram três dias indo para cima e para baixo com os caras, comendo juntos, ficando nos mesmos hotéis, etc. Como entusiasta das armas que sou, já conversávamos livremente sobre o tema, e eles até me deixavam manusear seus pequenos arsenais (o que me causaria certa preocupação com impressões digitais nas armas e munições no caso de um eventual assassinato, não fosse o fato de estarmos num país sem lei). Foi numa destas conversas que me explicaram algo sobre como funciona a política de armas naquele país. Ao contrário do que eu esperava encontrar (baseado no que me disseram pessoas que já haviam estado lá), eles praticamente só portavam pistolas, sendo 90% delas calibre 40... Isso porque recentemente houve uma mudança na legislação no que se refere ao porte de armas (como eles são civilizados...) de maneira que o porte propriamente dito (ou seja, carregar consigo nas ruas, no carro, etc) só é permitido para armas “de mão”. Ou seja, nada mais de fuzis, escopetas ou submetralhadoras...Estas agora só são permitidas dentro de casa ou de estabelecimentos comerciais (isso explica eu ter visto uma ou outra calibre 12 atrás de portas e embaixo de balcões de lojas). Por isso, nas ruas, carros e cinturões, só pistolas ou revólveres (raros). As armas são vendidas em lojas convencionais mesmo..Nada de grandes estabelecimentos específicos e controlados, mas sim lojinhas de rua...São muito comuns as placas de “Armeria” em toda parte. Nelas, você pode comprar a arma apresentando um documento de identificação (mesmo sendo estrangeiro), e na própria loja já fazer NA HORA, sua licença para portá-la. Mas calma lá que nem tudo é tão bagunçado assim! Existe certa organização...Há um limite. Cada pessoa pode portar até no máximo 3 pistolas, e comprar MENSALMENTE “apenas” 250 cartuchos ou balas. Diferentemente do que acontecia há até uns 2 anos atrás, quando era tudo liberado...Fuzis e armamento pesado nas ruas, sem limite de munições (exceto o limite financeiro de cada um).

Pois bem, em meio a este velho-oeste centro-americano, confesso que tivemos apenas dois momentos de maior tensão (afinal, como eu disse, por mais estranho que possa parecer, em meio a tanta proteção acabávamos por nos sentir “seguros”...A não ser é claro, em caso de um eventual fogo cruzado, no qual uma falta de sorte poderia fazer com que sobrasse algo para nosso lado). Um destes momentos foi até engraçado (depois que passou, claro). Estávamos abastecendo o comboio num posto de gasolina em um povoado considerado “perigoso” (sim, o país todo é, mas para que eles próprios falassem assim já dá para imaginar, né...). Território dos “Zetas”, grupo delinquente de origem mexicana com presença em outros países, que está envolvido em praticamente tudo o que é de ruim na região (sequestros, assaltos, roubos, e por aí vai). Como de costume, todos os seguranças estavam fora dos carros, rondando a área, com as mãos nas cinturas, “ready for action”, quando repentinamente entrou no posto uma caminhonete com certa velocidade (qualquer carro um pouco mais rápido já causava suspeita e provocava a reação “mão na cintura”), e ao entrar, passou em cima de uma daquelas enormes chapas de aço usadas para tapar buracos, provocando um forte estrondo (“BLAM!”), e fazendo com que TODAS as armas fossem sacadas ao ar... Foi tudo muito rápido, e logo viram que não se tratava de nenhuma ameaça real, mas até aí, deu para dar uma aceleradinha nos BPM... O outro momento foi um pouco mais tenso, e ironicamente, envolveu a polícia. Ao visitar um cliente (loja), cumprimos o protocolo padrão, ou seja, 3 caminhonetes brancas com vidros totalmente escuros chegando em comboio, das quais desceram cerca de 10 homens armados. Apesar da “normalidade”, a movimentação gerou desconfiança no povoado (pois não era necessário muito esforço para perceber que não éramos habitantes locais), e alguém acionou a polícia. Estávamos dentro da loja, conversando com o proprietário (um tiozinho que também exibia sua Glock .40 na cintura, com extensor de pente, que serve para aumentar a capacidade de disparos em 7 a 8 balas a mais, afinal, 14 balas mais 1 na agulha podem não ser suficientes), quando percebo uma movimentação estranha. O senhorzinho parou de falar, e com um semblante sério, olhou fixamente para fora, e ao me virar, vi um caminhão negro da polícia estacionando, e dele descendo cerca de 15 homens, e estes sim, pesadamente armados (fuzis). Houve uma certa agitação por parte dos seguranças, e confesso ter ficado um pouco apreensivo, pois não sabia até que ponto todas aquelas armas estavam dentro da normalidade, e nessas horas, ser um estrangeiro pode complicar ainda mais uma situação já delicada. Todos foram para fora, os policiais checaram os carros, vi que conversavam civilizadamente e fiquei mais tranquilo. Chamaram-me para fora também, para que me apresentasse aos policiais, mostrasse passaporte, enfim, para que vissem que não havia nada de errado...Até que eles foram embora, e o proprietário (amigo do nosso distribuidor) pediu-nos gentilmente que numa próxima visita tentássemos vir em um ou no máximo dois carros para não chamar muito a atenção...Sim, são os CARROS que chamam a atenção, e não as mais de 15 pistolas...Enfim, cultura é cultura...

Como uma espécie de “epílogo” do texto, retorno para aquele formato no qual foi originado o Blog, ou seja, algo mais “cabeça”, deixando um pouco de lado a narrativa irônica para tratar de um tema mais sério sobre o qual refleti durante esta viagem: A banalização da vida humana naquele lugar. Sei que infelizmente não precisamos ir longe para vê-la, pois ao contrário do que muitos pensam (ou acreditam), temos realidades muito semelhantes bem mais próximas a nós (nas periferias das grandes cidades, por exemplo). As histórias envolvendo mortes de pessoas são tão comuns, que soam como qualquer outro tipo de relato... A maioria das pessoas com as quais andei durante estes dias, efetivamente já matou alguém (ou MUITOS “alguéns”, no caso de alguns deles). Histórias de brigas e desavenças que acabaram em mortes são contadas sem a menor variação no tom de seriedade ou gravidade. Fazem parte da “cultura” (se é que este é o termo) deles.

O irmão de nosso distribuidor tem 17 anos, mesma idade de sua esposa (sim, lá eles se casam super cedo. Este casal inclusive já tem um filho). Conheci a ambos..Pablo e Julia. Sua sogra (mãe de Julia), era uma mulher que sempre fora considerada como um pouco “estourada”, ou até meio doida mesmo... Dizem que já fora casada 3 vezes, e os 3 maridos morreram, sabe Deus como, mas isso não vem ao caso. Mais recentemente, ela estava namorando um rapaz mais novo, que é professor de uma faculdade de Direito. Diz-se que supostamente ele estaria tendo um caso com uma aluna, então um belo dia, ao passar em frente à faculdade, a menina (estudante) estava na calçada conversando com colegas em plena luz do dia, e a senhora ordenou a seu segurança que a matasse...Por mais “eficazes” e obedientes que costumam ser estes profissionais, ele se recusou a fazê-lo, por se tratar apenas de uma garota, e estarem diante de todos em plena luz do dia. Após certa insistência em vão, a velha agarrou a pistola do segurança, desceu do carro e descarregou-a na moça. E perguntem se alguma coisa aconteceu com ela... Nada. E é nessas horas (mais uma vez), que digo que devemos reconhecer o patamar de desenvolvimento em que se encontra o nosso Brasil em comparação a muitos outros países de nossa região (eu diria que a maioria deles). Já imaginaram se isso tivesse acontecido aqui? A opinião pública/mídia não daria sossego enquanto alguém não fosse punido... Sei que a causa disso não é 100% nobre, pois muito está relacionado ao fato de que desgraça vende mais jornal..Mas mesmo assim..Impune é que não sairia... Pois bem, digamos que a senhora provou do próprio remédio... Há pouco mais de um ano, ela foi encontrada assassinada dentro de seu carro...Todos dizem que foi o ex-namorado, mas novamente, nada foi provado, e ninguém foi preso....E as pessoas seguem adiante com suas vidas.

Essa foi só uma das histórias que ouvi por lá, e resolvi colocar este parágrafo de forma não planejada (algo que me ocorreu já ao final do texto) para que, dentre muitas outras reflexões, saibamos valorizar o que temos de bom (e também para que busquemos melhorar o que assim se faz necessário).
Obs: Abaixo, uma foto do busão abençoado (ou amaldiçoado), às 5h da manhã, ainda vazio...(não tirei mais fotos depois, porque fiquei com MEDO de sacar minha câmera)...

terça-feira, 27 de julho de 2010

Evo Morales, Frio e Coca

Após algum tempo de recesso, retomo a produção literária deste blog para mais uma vez compartilhar alguns eventos pitorescos e inusitados ocorridos durante minha última experiência além-fronteira.

Tudo aconteceu na Bolívia, para onde fui enviado por nove dias a fim de realizar palestras técnicas na região do estado de Beni, cujas características naturais são equivalentes às do Pantanal brasileiro (já que natureza não conhece fronteiras geográfico-políticas). Ao contrário do que possa parecer, este fato possui sim certa relevância, por se relacionar com alguns dos eventos que serão relatados.

Um dos pontos cruciais de todas as “roubadas” em que entrei foram as condições climáticas. Isso porque estamos falando de um lugar no qual durante 95% do tempo o clima pode ser resumido como uma alternância entre quente, muito quente, e inferno na Terra. Os outros 5% eu tive a “sorte” de presenciar bem de perto, e em sua totalidade. Em outras palavras, dizem os habitantes locais que na referida região ocorrem aproximadamente 10 dias de (muito) frio ao ano...Nove destes, foram justamente aqueles nos quais eu estive lá. Até aí, tudo bem, pois nunca fui um daqueles avessos ao frio, muito pelo contrário, pois até gosto dele, desde que devidamente preparado. E foi justamente este o “X” da questão...Tratou-se de um equívoco muito grande de briefing, já que pouco antes da viagem, fui aconselhado a preparar-me para enfrentar o maior calor de minha vida.

Pois bem, devidamente “preparado” para o que me havia sido alertado (ou seja, munido de uma jaqueta “meia estação” que levo em todas as viagens, e que serve unicamente para proteger-me de eventuais excessos de ar condicionado dos aviões), cheguei a Santa Cruz de La Sierra por volta das 18h, sob uma temperatura de aproximadamente 15º, que associada aos fortes ventos e a uma chuva fina, proporcionava uma sensação térmica consideravelmente inferior. Fui imediatamente até a casa de meu contato local, e ao contrário do que geralmente pede o nosso corpo após uma viagem como esta (ou seja, descanso), iniciamos o processo de carregar a caminhonete para que saíssemos o mais breve possível rumo à “cidade” de Trinidad, que ficava a aproximadamente 8 horas dali.

Carregado o carro, por volta de 21h30 saímos, com previsão de chegada às 6h da manhã do dia seguinte, tendo sido esta a primeira das agradáveis (e muito frias) noites passadas neste belo país. Cabe dizer que o largo tempo de viagem não se deve unicamente à distância, mas principalmente à condição das rodovias, já que por ali o asfalto é um recurso extremamente escasso. Antes de sair, porém, fui agraciado pela solidariedade alheia, e recebi de empréstimo uma jaqueta mais pesada, mediante à clara constatação de que eu não estava apto para enfrentar o frio que enfrentaríamos nos próximos dias, o que por um instante fez-me sentir como um dos beneficiados pela “Campanha do Agasalho”.

Chegando a Trinidad (onde, diga-se de passagem, estava mais frio), mais uma vez vi-me forçado a frustrar todas as expectativas de meu corpo, que após uma noite inteira em viajando em um carro, esperava ser recompensado com um banho quente e uma esticada... Ao contrário disso, porém, após um improvisado café-da-manhã, carregamos a segunda caminhonete (que faria parte de nossa “caravana”), e saímos novamente para a segunda parte da viagem, que duraria aproximadamente mais três horas até o próximo destino.

No “pueblo” seguinte seria realizada a primeira palestra, e os acontecimentos correram dentro de certo patamar de normalidade (relativo, claro) e, portanto, não dignos de maiores comentários. Exceção feita ao hotel onde passamos a primeira noite (segunda, se contarmos a que passamos viajando), no qual dividi o quarto com meu colega de trabalho (boliviano, que além de ser nosso gerente local, era um dos guias daquela “expedição”). Não havia muitas opções de hotel naquele vilarejo (situação constante em todos os demais visitados), e as acomodações eram simples (eufemismo). O banheiro era daqueles cujo layout é caracterizado por um cubículo de alguns poucos metros² , nos quais o chuveiro é instalado quase que imediatamente acima do vaso sanitário, que por sua vez fica a poucos centímetros da pia. Cortina? Nem pensar... Box? Cheguei a pensar em exportar o conceito para a Bolívia e patenteá-lo, pois foi um item não observado durante toda a viagem. Resultado: torna-se impossível não inundar o banheiro inteiro ao se tomar banho. Para piorar, a área de banho (ou seja, imediatamente abaixo do chuveiro) era delimitada por uma depressão quadrangular do piso, na qual havia um ralo, o qual constatei estar entupido, pois após meu banho criou-se ali uma piscina cuja água não descia de forma alguma. Felizmente, fui o primeiro a me banhar (sei que isto soa egoísta, mas descobri da forma mais difícil possível que em situações de extrema adversidade, nosso instinto de sobrevivência nos torna pessoas mais egoístas em nome da auto-preservação), de modo que quando abri a porta do banheiro, e ainda envolto pela névoa de vapor (este foi um dos 3 banhos quentes que tomei durante os 9 dias de estadia), disse a meu “roommate”: “Tenho uma boa notícia para você: Nosso quarto tem jacuzzi”. Na ocasião ainda dispúnhamos de certo bom humor (lembrando que ainda estávamos no segundo dia...).

No dia seguinte, pagamos a bagatela de aproximadamente USD 11 pelo hotel, e seguimos viagem para o próximo pueblo sem grandes contratempos, exceto a viagem em si, repleta de estradas de terra esburacadas e enlameadas, que transpúnhamos sem grandes dificuldades (apenas com pequenas e médias) em função da tração 4 x 4 de nosso veículo. O frio só aumentava, e eu já estava usando tudo o que levara, e mais a jaqueta emprestada...Lembrei-me do filme “Jamaica abaixo de zero” (Cool Runnings, 1993), no qual o personagem Sanka, ao sair do aeroporto e deparar-se com o inverno canadense, começa a vestir todas as roupas que havia levado, e termina por vestir a própria mala.

A palestra seguinte (ainda no mesmo local do parágrafo anterior) ocorreu nas dependências de uma Associação de Criadores, que nos proveu alimentação e estadia. Destaque inicialmente para a primeira, que nos foi fornecida em um “restaurante” do povoado, no qual jantamos na noite do evento, e também tomamos café-da-manhã no dia seguinte. Interessantemente, o restaurante dali (tal como pude observar em outros lugares também) dispunha de algumas mascotes como forma de descontrair e entreter os clientes. A diferença é que ao invés dos usuais cães, gatos ou periquitos, o ambiente era povoado por um casal de porcos do mato (que no Brasil são chamados de Cateto), cuja fêmea rondava a mesa pedindo comida como um cão mal educado, um macaco-prego que saltava do balcão para o ombro da proprietária do estabelecimento que ficava no caixa, e finalmente, o que para mim foi o mais estranho de todos: um Tuiuiú (para quem não conhece, coloquei uma foto ao final do texto), ave típica da região do Pantanal. O bicho era impertinente, pois também “pedia” comida, aproximando-se das mesas, de onde era afugentado pelos funcionários do local para que respeitasse o que me pareceu como uma distância mínima tolerável acordada entre ambas as partes, porém, às vezes desrespeitada. O tamanho do animal, e principalmente de seu bico, impõe respeito, de maneira que tive dificuldade para relaxar totalmente durante a refeição, especialmente diante do que estava por vir. Uma das cozinheiras atirou algo para o bicho, que foi audazmente apanhado no ar, e imediatamente posto no chão por ele... Foi quando constatei que se tratava de um conjunto pescoço+cabeça de frango (cru, evidentemente), que o pobre animal (praticamente um canibal, já que estava alimentando-se de um quase-semelhante) tentava romper e/ou compactar de alguma forma que lhe permitisse engolir com maior segurança. Ele jogava o pescoço para lá e para cá, e aquela estrutura dérmica-cartilaginosa ia lambuzando o chão, até que ele conseguiu uma angulação aparentemente ideal entre seu bico e o alimento, o que lhe permitiu degluti-lo por completo. Na verdade, pela postura que o bicho adotou logo após engolir seu almoço, constatei que ele estava tendo problemas no trânsito esofágico do mesmo, já que ele ficou parado de forma estática, com o pescoço semi-estendido e o bico entreaberto por alguns minutos.

Quem me conhece, sabe que não sou fresco para comer, aliás, considero-me o oposto disso, pois nestas viagens já desafiei meu estômago a níveis extremos, e sempre sem grandes problemas. Entretanto, confesso que voltei desta viagem com um pouco de aversão a frango... De maneira geral, a grande maioria dos países latino americanos que visitei no último semestre consome frango em níveis extraordinário. É frango por toda parte, especialmente nos restaurantes, fast-foods, barraquinhas nas ruas, e por aí vai... Muito mais do que carne bovina, por exemplo. Em alguns países, até no Mc Donald’s tem frango frito em pedaços, estilo KFC. Até aí tudo bem, pois sempre considerei o frango algo relativamente seguro, e até gosto, embora não morra de amores, de modo que seria incapaz de colher uma lágrima caso um dia a espécie entrasse para a lista dos animais em extinção. Porém, nesta viagem especificamente (e não quero generalizar falando no país, pois imagino que tenha sido algo relacionado às regiões que visitei), tive más experiências com esta fonte de proteína animal. Não me refiro unicamente ao episódio do Tuiuiú (apesar de ter sido desagradável), mas sim a questões meramente gastronômicas mesmo...Especialmente o frango desfiado (presente em muitas das iguarias que provei), que dava a impressão de que eles moíam o bicho inteiro (com pés, bico e crina), pois era comum detectar-se corpos de consistência estranha (ou muito duros, como pedaços de ossos, ou moles, como estruturas gelatinosas).... Aconteceu mais de uma vez, em diferentes lugares... Resultado: fiquei sem querer ver frango por algum tempo após meu retorno.

Após o bucólico café-da-manhã com os porcos selvagens e o Tuiuiú, deixamos uma das caminhonetes (felizmente não aquela em que rodávamos) para arrumar em uma oficina que tinha telhado de sapê (como grande parte das edificações naquela região), o que nos tomou umas boas três horas. Neste ínterim, para fazer hora e espantar o frio (pois quanto mais tempo passávamos dentro do carro, melhor, pois ao menos tínhamos ar quente), demos um pulo no “Mercado Municipal” da província de Santa Rosa de Yacuma... Nada mais era do que uma construção similar a uma velha escola (pequena), com uma entrada para um pátio ao ar-livre, ao redor do qual havia pequenas tendas que vendiam toda sorte de bugigangas possível. Numa delas, embrenhou-se meu guia boliviano, que dali saiu com duas pequenas latas redondas nas mãos, tendo uma delas sido entregue a mim, como algo que serviria como “fonte de energia para espantar o frio”... Nada mais era do que uma pequena lata de leite condensado (menor do que estas com as quais estamos acostumados), que seria sorvida através de dois orifícios que ele tratou de fazer com a lâmina de seu canivete (levemente enferrujada, evidentemente). Tentei evitar pensamentos como o de ratos transitando pelas latas, já que não tínhamos onde higienizá-las antes de literalmente “meter a boca”, e até que seu conteúdo não era ruim... Eu teria ficado mais satisfeito com o “presente”, não fosse o fato de que ao virar a lata, já no final, para dar umas batidinhas e tentar aproveitar ao máximo o seu conteúdo, constatei a seguinte gravação (dessas que se faz a laser, com o lote e a data de validade): VAL: FEV/2010 (ou seja, vencida havia 5 meses)... Confesso que não fiquei muito preocupado (só um pouco), pois sempre considerei o tema validade um “tabu”, de modo que não tive grandes complicações com isto.

O conserto ficou pronto, e seguimos viagem, agora com uma das caminhonetes com tração 4 x 2 (o mecânico teve de desativar a 4 x 4 por motivos que confesso não haver entendido, mas foi a única saída para que pudéssemos seguir adiante). Em condições normais, isto não seria um problema, porém, “condições normais” foi o que menos vimos durante toda a viagem, já que junto com o frio, veio também uma chuva não muito forte, porém, constante, que deixou as estradas ainda mais intransitáveis. E assim seguimos, ou seja, de forma quase intransitável, rumo ao próximo povoado... As caminhonetes “dançavam” na estrada, saíam de traseira, e a outra (que estava sem tração dupla), chegou a rodar e sair da estrada três vezes...Mas pelo menos chegamos (atrasadíssimos), demos a palestra, e deixamos o local, rumo novamente a Trinidad, onde encerraríamos nossa turnê... Já eram umas 20h30 quando resolvemos pegar a estrada, e isso não nos preocupou muito, pois Trinidad estava a aproximadamente 2 horas dali....Novamente, “em condições normais”... Foi aí que a coisa complicou. Toda a dificuldade que pegamos para chegar até ali foi intensificada, pois agora estava escuro e a “pista” estava mais molhada.

Este trecho da viagem foi o mais tenso... Os carros “dançavam” ainda mais, só que agora um atolamento poderia significar ter de passar a noite ali mesmo, já que o celular não tinha sinal, estava um breu total, e fazia um frio “n” vezes pior. Documentei tudo por meio de fotos e vídeos para não me passar por exagerado (bom, no quesito “frio” terei de lançar mão da minha credibilidade mesmo). A tração 4 x 2 de nosso companheiro de trilha aguentou até onde podia, mas não teve jeito...Acabaram atolando.Na verdade, o que aconteceu foi que a quantidade de barro acumulado nas rodas dianteiras foi tamanha, que elas não mais viravam para nenhum lado, o que impossibilitou que eles seguissem viagem... A “sorte”(se é que ainda cabia utilizar este termo) foi que nós ainda tínhamos nossa 4 x 4, de modo que antes que nos déssemos por vencidos, lançamos mão do último recurso disponível: tentar rebocá-los. Descemos do carro para avaliar a questão, e neste momento eu estaria mentindo se dissesse que tomei parte do planejamento e execução desta empreitada... Desci do carro pelo tempo suficiente para tirar umas 3 fotos, quase perder o sapato no barro, e pular novamente para dentro, pois o frio estava simplesmente insuportável (no sentido mais simples e literal da palavra, ou seja, não era possível suportá-lo). O reboque aparentemente deu certo, e fomos seguindo viagem, todos muito apreensivos, evidentemente. Entretanto, nem preciso dizer que a viagem que deveria durar aproximadamente 2 horas, durou 4h30 em virtude das adversidades.

Quando nos vemos em situações deste tipo, é comum que nos agarremos a pensamentos consoladores, como por exemplo: “mal posso esperar para chegar ao hotel, tomar um banho quente e deitar numa cama”... Mas infelizmente, mais uma vez, expectativas frustradas...O atraso no percurso nos custou caro... Ao chegarmos a um ponto no qual deveríamos cruzar um rio de balsa (e aqui se você está imaginando uma balsa do tipo Santos-Guarujá, pode parar, e imaginar um emaranhado de tábuas que são empurradas por um barquinho a motor, pois nem mobilidade própria elas têm), deparamo-nos com alguns carros parados, e nenhuma movimentação aparente, exceto nas cabanas que circundavam a área (de paredes de barro e telhado de palha), onde vivem os balseiros (“pontoneros”). Por ali se podiam ver alguns pontos de luminescência que indicavam fogo, ao redor do qual se amontoavam pequenos grupos de pessoas. Um dos membros de nossa comitiva dirigiu-se a uma destas cabanas, e ingenuamente sentou-se próximo a uma das fogueiras, sendo então imediatamente questionado: “E você, o que quer aqui?”. Ele, assustado, tratou logo de explicar que só estava se aquecendo um pouco, e então lhe exigiram 10 pesos (menos de R$ 3) como taxa de contribuição para o álcool (combustível das fogueiras). Um belo sinal de solidariedade e hospitalidade.
Estranhei a falta de movimentação nas balsas, e confesso que acreditei até o final que iríamos atravessar o rio, negando a realidade que já era aceita pela maioria: teríamos de passar a noite ali...No carro, à beira do rio. O fato é que era uma sexta-feira, e como demoramos muito para chegar até ali (em função dos atoleiros, reboque, etc), chegamos depois da meia-noite, e os caras já se haviam decretado “off-duty”, e pior, estavam todos bêbados, celebrando ao redor do fogo... Ok, hoje eu concordo que talvez tenha sido melhor eles não terem nos atravessado mesmo...Pois aquelas balsas já são suficientemente perigosas durante o dia e com seus “pilotos” sóbrios. Mas que na hora eu queria ter atravessado a qualquer custo, ah isso eu queria... Literalmente “a qualquer custo”, porque chegamos a oferecer o dobro do valor para que abrissem uma exceção, mas foi em vão...A propósito, o valor por carro é de aproximadamente USD 7,00.

A noite à beira do rio foi acima de tudo, e como não poderia deixar de ser, muito fria. Dormimos três pessoas por carro, alternando períodos de sono com momentos de vigília, causadas ora pelo frio extremo que nos despertava e fazia com que ligássemos a calefação do veículo (que não poderíamos deixar ligada 100% do tempo), ora pelo simples desconforto físico mesmo. Isso sem falar na fome e sede, pois não tínhamos provisões, exceto por algumas latas de cerveja que não sei como, alguns de nossos companheiros conseguiram comprar dos habitantes locais, e que tinham odor de peixe (as latas), provavelmente por estarem jogadas em alguma caixa de isopor sabe Deus com o que mais... Esta questão da fome não foi um problema muito grande para os demais, haja vista que eu era o único brasileiro a bordo da expedição, sendo por isso, o único que não cultivava o hábito de mascar folhas de coca (“bolear” ou “coquear” como eles dizem), hábito que apesar de repugnante, tem lá suas vantagens, já que supostamente tira a fome e o sono. Mas ainda assim, preferi não aderir a ele, e continuar a ser o único a não protagonizar a cena de ter uma das bochechas cheia, e ficar cuspindo a cada cinco minutos. Enfim, amanheceu, e por volta das 6h30 – 7h eu decidi que não ia mais tentar dormir, e iria sustentar-me pela esperança de que a qualquer momento iríamos sair dali, e aí sim, seguir viagem até Trinidad (faltava só mais meia-hora) e então, QUEM SABE (a esta altura eu já estava bem mais realista), tomar um banho quente e deitar numa cama... Mas antes de atravessar o rio, tínhamos de esperar a boa vontade dos pontoneros em acordar, curar um pouco da ressaca e começarem a trabalhar...O que só aconteceu por volta de 9h30, quando finalmente estávamos do outro lado. A travessia também tem lá suas emoções... A balsa é muito precária, e aparentemente não preparada para carregar duas caminhonetes cabine dupla...Tal como já mencionei anteriormente, é impressionante como nestas situações nossa mente trabalha em função de nossa sobrevivência...A primeira coisa que fiz quando embarcamos, foi desatar o cinto de segurança e abrir o vidro do carro...O raciocínio era simples: “Bom, se essa merda virar, pelo menos eu tenho uma chance de sair pelo vidro, se não morrer de hipotermia...”.

Chegando a Trinidad, tomamos mais um “rico” café-da-manhã a base de duas salteñas e uma coca-cola, sendo estas primeiras nada mais do que uma variedade de empanada, porém, com recheio líquido (como uma sopa, tanto é que são servidas acompanhadas de uma colherzinha) e muito picante (opção minha), indo posteriormente para o hotel... A essa altura eu já estava acostumado (com o “couro” insensibilizado), e quase não me queixei de mais um banho gelado (sendo que neste momento o frio estava mais insuportável do que nunca). Na verdade, cabe um comentário sobre os banhos frios, para que não pensem que estou exagerando. Nem sempre o problema eram chuveiros que não funcionavam... Na maioria das vezes, o mesmo dava sinais de que estava se esforçando para aquecer a água, mas o frio era tamanho, e tão pouco frequente, que o aparelho simplesmente não dava conta...Imaginem um chuveiro que convive durante mais de 355 dias ao ano com extremo calor, vendo-se agora diante de uma situação totalmente atípica...Ele mudava sim, a temperatura da água, transformando-a de gelada-cortante para fria (o que constatei após realizar um teste desligando o chuveiro e avaliando a diferença que faria...Doeu, mas pelo menos provei minha teoria).

Finalmente, nos últimos 3 dias de viagem, consegui encontrar uma pequena “tienda” para comprar algumas roupas...Algo interessante sobre o frio, é que a necessidade de combatê-lo é soberana aos conceitos de moda, e até mesmo de vergonha, de modo que muitas vezes as pessoas saem na rua como se houvessem mergulhado dentro de seus guarda-roupas e saído imediatamente com o que conseguiram pegar, e não são julgadas por isso, em nome da compreensão alheia. Com base nesta premissa, comprei algumas coisas que jamais usaria em situações ordinárias... Além do gorro e luvas de lã pretos (minha única chance de fazer uma combinação) que eu já havia comprado, a agradável vendedora (que falava português, pois trazia roupas do Brás, em SP), conseguiu empurrar-me um colete de lã quadriculado de marrom e creme, que talvez algum dia eu possa voltar a usar caso vá a algum baile à fantasia como “tabuleiro de damas”, um casaco de moletom (até que razoável), e uma calça jeans (ok, esta foi por impulso, pois era Levis original e estava baratinha). TUDO isso o que citei (exceto a calça) fazia parte de meu uniforme diário de trabalho, somado a minha jaqueta (aquela “meia estação”). Ou seja, a partir deste ponto, todos os dias eu saí do hotel vestindo: camiseta por baixo, camisa de manga longa, agasalho de moletom, colete de lã, jaqueta, gorro e luvas. Sendo que em duas das noites, eu dormi praticamente do mesmo jeito...Apenas tirando cinto, sapatos e jaqueta...

Já nos aproximando do final da epopéia, voltamos de Trinidad para Santa Cruz de la Sierra, que para quem não lembra, é aquele trecho de oito horas de viagem (primeira noite), só que agora realizada durante o dia... Neste percurso, dois fatos merecem destaque...O primeiro deles, foi que depois de tudo o que passamos, a caminhonete (agora a nossa mesmo, já que a outra nau e seus tripulantes pararam em Trinidad) começou a apresentar sinais de mal funcionamento...Engasgava, falhava e quase parava...Até que por duas vezes chegou mesmo a parar... Era irônico...Depois de tanto barro, parece que quando fomos para o asfalto ela pediu arrego...Saudades da lama? Ou aguentou até onde pôde para então desabar..? Nem uma coisa nem outra...O problema foi combustível de má qualidade...Gasolina “batizada”....Um dos muitos produtos brasileiros exportados para a Bolívia (ok, nem toda gasolina ruim da Bolívia é brasileira, mas sim parte dela). Depois de alguns instantes parados, o motor aparentemente se recompôs e seguimos viagem (ainda dando alguns trancos, mas conseguimos chegar). O outro evento inusitado deste trecho final da viagem foi mais triste... Estávamos em uma reta, desenvolvendo certa velocidade, e eis que a alguns metros a frente surge um tatu com a intenção de atravessar a pista... Ingenuamente bem intencionado, e em prol da integridade de tão carismático animal, alertei meu piloto (eu era o navegador), que no mesmo momento adotou uma medida que achei no mínimo, inesperada: afundou o pé no acelerador, e ao contrário do que seria plausível, ou seja, com a intenção de evitar a colisão, direcionou a frente do veículo em um ângulo que, se não me enganaram nas aulas de física, resultaria em uma trajetória que dentro de poucos segundos coincidiria com a da vítima. Dito e feito. Um pequeno solavanco associado a um som abafado indicavam que havíamos atropelado a criatura... Imediatamente, o rapaz encostou o carro no acostamento, e então pensei que talvez por preocupação (ou quem sabe até arrependimento), ele verificaria qual teria sido o dano real causado, mas diferentemente disso, ele correu até o local, tratou de apanhar sua presa pelo rabo (que ou ainda não estava morta, ou estava sofrendo espasmos musculares post mortem, já que ainda havia certo movimento em seus membros inferiores), inspecionou-o, perguntando-me se eu tinha algum saco plástico para que ele pudesse levar o bicho para casa, a fim de utilizá-lo para presentear um amigo que era um grande apreciador de suas propriedades gastronômicas. Pois bem, tendo atirado o cadáver na caçamba da caminhonete, seguimos viagem... Ao chegar a Santa Cruz já durante a noite, e mais uma vez, estando eu louco para chegar ao hotel, tive ainda que presenciar a cena da entrega do tão esperado presente, realizada na rua, em frente à casa do sortudo contemplado. Este por sua vez, agarrou (também pela cauda) o futuro banquete, inspecionou-o atentamente, e concluiu: Aquilo não era um tatu...Era o que eles chamam de “Peji”...Outro animal muito semelhante (porém de outra espécie), e que portanto, não se prestava como iguaria...Muito pelo contrário...Era incomível, pois segundo o inspetor da carcaça, ele se alimenta de bichos mortos...Resultado: imediatamente, sem sequer ser retirado de sua mortalha (sacolinha de supermercado), o defunto foi atirado na lixeira da casa, ali na calçada mesmo....Pobre animal...Mal sabe o quão em vão foi sua morte...

Enfim, chegamos ao hotel de Santa Cruz (supostamente a melhor cidade da Bolívia), e fiquei contente em constatar que o mesmo dispunha de uma estrutura até então jamais vista durante o período da viagem (cortina no banheiro, frigobar, internet wireless, etc). Entretanto, isso não foi suficiente para afastar a grande “maldição” da viagem...Ao ligar o chuveiro: frio... Confesso ter chegado a pensar que talvez fosse um problema MEU...Sei lá, de repente os sensores de temperatura de minha pele tivessem sido irreversivelmente afetados pelo frio intenso e eu não mais seria capaz de distinguir água fria de quente... Mas como já me tornara expert em tomar banhos frio no inverno, resolvi fazê-lo mais uma vez ao invés de reclamar, pois isto me tomaria muito tempo e desgaste, sendo que o que eu mais queria era terminar logo aquela noite e enfiar-me em baixo dos três cobertores, sendo que os dois extras foram uma solicitação minha ao hotel. Ok, eu me enfiei sob dois deles, pois um era para forrar a cama por baixo.

No dia seguinte, para a minha plena felicidade, eu voltaria ao Brasil... Acordei, e resolvi arriscar um novo banho, afinal, eu esperava que o sol da manhã ajudaria a minimizar o sofrimento de mais um processo de semi-congelamento. E qual não foi minha surpresa ao encontrar água quente (BEM quente) jorrando da ducha...A ponto de eu ter de “temperar” com a fria para não me escaldar... Neste caso, entendi o que aconteceu...Tratava-se de um hotel antigo, daqueles em que água quente é um recurso findável, ou seja, no caso de haver muitas pessoas tomando banho ao mesmo tempo, ou então se é tarde da noite e muitos já o fizeram, a água quente simplesmente acaba, sendo necessário esperar até que o aquecedor (a gás na maioria das vezes) trabalhe em sua reposição....Por isso a diferença entre os banhos da noite e da manhã seguinte....Foi irônico... O ÚLTIMO banho naquele país TINHA que ser o mais quente e agradável...E eu não poderia sequer aproveitá-lo melhor, já que estava com hora marcada para sair para o aeroporto para não perder o vôo...Senti-me como aquelas pessoas que passam 10 dias num resort maravilhoso debaixo da maior chuva, e no último dia, na hora de ir embora sai o sol (tinha até um comercial de televisão que falava sobre isso).

Este foi o relato de mais uma aventura, dedicado àquelas pessoas que pensam que vida de viagens internacionais é sinônimo de glamour... Pessoas que ao escutarem que eu estaria indo para a Bolívia, chegaram a me dizer: “Que chique”... Sim...MUY Chique...

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Recesso

Este blog encontra-se em recesso por tempo indeterminado... Tudo bem que a periodicidade das postagens talvez faça com que isto sequer seja sentido...Mas de qualquer forma, está avisado.... A inspiração vai demorar a voltar...

“Se uma árvore cai na floresta e não há ninguém por perto, ela faz barulho?”

sábado, 22 de maio de 2010

A futura "Sessão da Tarde"

A vantagem deste blog não contar com leitores assíduos, mas sim com uma “meia dúzia” (daquelas compostas por quatro ou cinco) que o visitam esporadicamente mediante aviso de atualização - só para não fazer desfeita ao amigo-, é que isto me exime da responsabilidade de manter uma periodicidade fixa de postagens. Em outras palavras, sim, faz muito tempo que eu não passo por aqui...Mas o que importa é que cá estou para compensar, ainda que parcialmente, esta ausência.

Um dos fatores que me afastou um pouco das postagens foi o teor de densidade/ complexidade que eu sempre exigi de mim mesmo no que se refere a seu conteúdo...Isto requer inspiração para escrever, que nem sempre vinha, ou então até vinha, mas não suficientemente intensa a ponto de vencer a força que a ela se opõe diretamente: a preguiça...

Dessa forma, uma medida (paliativa) para contornar este impasse, foi baixar um pouco o nível de seriedade, e discorrer sobre um tema um pouco mais “leve” e menos polêmico...Assim, o ponto central deste texto será o entretenimento (cinema, mais precisamente).

Já faz algum tempo que tenho observado que o mercado de filmes tem apostado cada vez mais na ressurreição de “novos clássicos”....Filmes da década de 80 (ou um pouco antes/depois) reinventados...Quer seja por meio de refilmagens (mesmo enredo, com elenco renovado ou não), quer seja por sequências. Exemplos: Indiana Jones, Rocky VI, Rambo IV, dois novos Hulks, King Kong (embora neste caso se trate de uma refilmagem da versão original da década 30, foi também um sucesso do final da década de 70), dentre muitos outros, e ainda muitos mais que estão por vir...

Confesso que sempre que ouço falar de alguma dessas “reinvenções”, fico um pouco ressabiado, e ao mesmo tempo temeroso....E o medo aqui é um só: o de que de alguma forma elas comprometam a imagem de algo que já está muito bem consolidado em minha memória...Quer seja um filme, um personagem, uma história, uma “saga”...Enfim, boas lembranças, de fatores que de alguma forma me divertiram ou até educaram, em uma fase crucial no processo de formação de um caráter...A infância/adolescência.

A primeira vez que ouvi dizer, há alguns anos, que produziriam uma nova sequência da série Indiana Jones, este sentimento veio-me à tona. Na ocasião, lembro-me de ter perguntado: “E que papel terá Harrison Ford? O da relíquia? Será encontrado pelo novo protagonista e então desenterrado e varrido com uma daquelas vassourinhas de arqueólogo para tirar a poeira?” Isso porque sempre fui fã do Indy (Dr. Jones), daqueles que tinham muitas dificuldades em apontar qual de suas três grandes aventuras era a melhor...Bem, agora posso dizer com facilidade qual das quatro é a PIOR (a mais recente evidentemente, embora até que a tenha achado divertida). Mas o intuito aqui não é o de fazer resenhas de filmes, portanto, por hora chega de Dr. Jones.

Outros exemplos que me trouxeram grande preocupação foram os dois que citei do Stallone...Se em Rocky V eu já o achava meio decadente, fiquei tenso ao imaginar o que seria dele agora, mais de 15 anos depois, e quase sexagenário. Iria lutar contra quem? Só se fosse contra um poderoso oponente alemão chamado Alzheimer... E o Rambo então? Se na primeira versão (First Blood) de 1982, ele já era um veterano de guerra atormentado e sozinho no mundo, imaginem agora, em 2008, 26 anos depois, com seu único amigo já falecido (Cel. Trautman). O que seria dele? Viraria um daqueles “vets” loucos e barbudos que pedem esmola na rua? O meu herói de infância (já que ele “nasceu” menos de um ano depois de mim), que foi a inspiração de incontáveis batalhas com fita vermelha na testa e metralhadora .50 imaginária que disparava berros de “rá tá tá” que aterrorizava os vizinhos?

Para terminar a parte dos exemplos, seguem mais dois que ouvi recentemente, que ainda sequer saíram, mas já estão no “forno”, devendo ser concluídos no próximo ano: O terceiro filme da série “Os Caça-Fantasmas” (só espero que não deixem o Geléia de fora), e a produção de um longa de ninguém menos do que Mc Gyver (o agente que era capaz de fabricar uma bomba de nêutrons utilizando uma caixa de fósforos, uma lata de spray de cabelo e seu inseparável canivete suíço).

Analisemos a questão do ponto de vista mercadológico. Embora a refilmagem de clássicos não seja nenhuma “invenção da roda”,ou seja, sempre esteve presente no mundo cinematográfico, a meu ver, toda esta questão está relacionada a um fator talvez mais recentemente descoberto pelos gestores dos grandes estúdios, que é a ciclicidade do comportamento de seus clientes-alvo. As crianças da década de 70-80, que se encantaram e inspiraram por seus heróis hollywoodianos, cresceram, e hoje fazem parte da população economicamente ativa. Trabalham, ganham seu dinheiro, e consomem, sem a necessidade do consentimento de seus pais... E consomem MUITO. E ao se depararem com produtos que de alguma forma tragam à tona todas aquelas lembranças do passado, de seus antigos ídolos, não hesitam em prestigiá-los (o que significa não ter dó de gastar dinheiro com eles). E melhor ainda! Os pais, que consumiam muitos destes produtos “por tabela”, ou seja, no intuito de disponibilizá-los a seus filhos, acabaram também virando fãs de muitos deles, enquadrando-se, portanto, também nesta fatia de novos-velhos clientes....E as crianças ou jovens de hoje? Seriam excluídos deste segmento de mercado? De maneira alguma...A gestão de produtos neste caso costuma ser eficaz o suficiente para adaptá-los a todos os públicos, de maneira que o expectador de um “Rocky VI” não necessariamente precisa saber que ele tinha uma esposa chamada Adrian, que ele levou uma surra de Clubber Lang, de quem só veio a vencer na revanche, ou que Ivan Drago nocauteou até a morte o seu ex-oponente e posterior grande amigo, Apolo Creed, para que possa se entreter...Isso sem contar os filhos da geração de 80 que aí sim, na contra-mão do fluxo descrito acima, acabam sendo os consumidores “por tabela”, perpetuando o ciclo.

Independentemente de qualquer coisa, o fato é que este sentimento nostálgico faz com que esta estratégia mercadológica seja eficiente. Isso porque por mais conservador ou crítico que seja o consumidor, ele prestigiará com toda a certeza estas novas produções. Eu nunca vi alguém dizer: “Nossa, não vou nem assistir a este filme para não me desapontar e destruir as boas recordações que eu tenho desta série”...Ouvi sim, e muito, pessoas dizendo: “Decepcionei-me”. Mas aí já tinham visto...Já tinham CONSUMIDO...E exatamente por isso, esta “decepção” não é algo que chega até aqueles que dependem dos números das bilheterias, muito pelo contrário.

Eu mesmo, por mais que fique com um pé atrás diante do anúncio do renascimento de um “novo-clássico”, nunca deixo de conferi-lo. Aliás, alguns deles eu até gostaria mesmo de ver (ou melhor, rever) de maneira que se pudesse, faria algumas sugestões aos estúdios de Hollywood.

Por exemplo, quão legal não seria ver uma sequência de “Curtindo a Vida Adoidado”?? Um CLÁSSICO da Sessão da Tarde, que marcou a vida de tantos de nós...Sugestão de roteiro: Ferris Bueller, agora um homem maduro e sério, ironicamente trabalha como diretor de um colégio, e vive uma vida infeliz, por sentir que seu espírito rebelde foi morrendo gradativamente ao longo dos anos. Agora, um dos alunos aparentemente está aplicando o mesmo “golpe” que lhe consagrou em seu último ano de colegial, e ninguém melhor do que ele próprio para tentar descobrir, com base na investigação de táticas que ele mesmo inventou, até que ponto o aluno está ou não dizendo a verdade...E melhor ainda! O aluno problemático poderia ser filho de ninguém menos do que Cameron Frye, seu antigo (e super caxias) melhor amigo, que destruiu Ferrari 250 GT 1960 de seu pai (uma das 55 fabricadas)...Que de alguma forma, definitivamente deveria aparecer no filme, restaurada e nova em folha....

Ou então, que tal um novo Goonies?! Todos já adultos e com filhos... Talvez eles se lançassem em alguma aventura para tentar reencontrar o velho Sloth, banido da sociedade em função de sua monstruosidade, vivendo isolado em alguma floresta... Ou quem sabe um “Top Gun – A missão”, no qual o Maverick (Tom Cruise) lideraria uma esquadrilha de F-22 (ao invés daqueles velhos e obsoletos F-14) em uma missão no Afeganistão, para resgatar seu ex-rival, “Iceman”(Val Kilmer), que após ter ejetado em território inimigo, foi mantido como prisioneiro? Ou quem sabe um histórico reencontro do filho do pequeno Elliott (agora já grande) com seu amigo extraterrestre, em “E.T. – Generations”? .Enfim, as possibilidades são infindáveis...

Se você, leitor, é contemporâneo meu (geração 80), talvez tenha se sentido um pouco “velho” com toda essa conversa... Pois não se sinta... Porque velho MESMO, eu vou me sentir quando ouvir falar sobre a refilmagem do “clássico” AVATAR... Já posso até imaginar os comentários: “Aquele, que marcou época por utilizar efeitos toscos em 3D, que requeriam aqueles óculos ridículos...”. Aí sim... Até lá, vou curtindo a vida adoidado...

domingo, 21 de março de 2010

Saga Bolivariana

Depois de um longo período sem postagens em virtude de uma despriorização temporária do blog, decidi retomar as atividades, mais uma vez com um texto narrativo inspirado em minha última viagem (na qual por sinal ainda me encontro).


Tal como da última vez em que o fiz, o intuito principal deste relato, além é claro o de entreter (??) os leitores, é o de rebater os argumentos daqueles que invejam (no bom e mau sentido) esta rotina de viagens, por enxergarem um “glamour” que definitivamente não existe.


Depois de quase três anos desde a última vez que estive aqui, retornei à Venezuela, onde cheguei há seis dias, restando-me ainda mais cinco até o retorno ao Brasil. Vim para realizar algumas palestras técnicas, cujos detalhes são irrelevantes para este contexto. O fato é que de lá para cá, sendo aproximadamente a quinta vez que visito este país, pude concluir que no geral as coisas deram uma piorada.


Não sei bem o que vem à cabeça de cada pessoa quando falamos em Venezuela. Talvez o “socialismo do século XXI” de Hugo Chávez... Talvez as Misses Universo...Talvez a propaganda da Amanco....Talvez o petróleo....Ou talvez um pouco de tudo isso... O que sei, é que na cabeça de diversos amigos e/ou conhecidos meus que já estiveram aqui, tenho toda certeza de que o que vem é caos, confusão, desordem e adversidades em geral.


“Nem tanto ao céu, nem tanto à Terra”, minha opinião particularmente não é tão radical assim...Embora eu não possa negar que de fato, apesar de se tratar de uma visão ponderada (como sempre), e não radical, a mesma pende claramente para um dos dois extremos. SIM, o país tem suas virtudes, como por exemplo, belas paisagens (lembremo-nos de que sua costa é banhada pelo Mar do Caribe) e uma cultura LOCAL muito rica (desconsiderando a influência norte-americana). Entretanto – e o que vou dizer a partir de agora até o final do parágrafo são generalizações SIM, porém, embasadas em minhas experiências pessoais – trata-se de um país desorganizado, corrupto, com um povo carente de educação e boas maneiras, nas mãos de um governo opressor e cada vez menos democrático (apesar de eleito pelo povo).


Mas introduções à parte, vamos aos relatos dos fatos, pois é disso que trata o texto, certo? Afinal, ao contrário do que alguns possam estar pensando, não me esqueci de que falei a pouco que se trataria de um texto NARRATIVO (o que não foi honrado até o presente momento).


Minha “saga” iniciou-se às 23h55 de uma segunda-feira, quando peguei meu primeiro vôo de Guarulhos com destino à Caracas, onde cheguei sem maiores problemas cerca de 5h30’ depois. Exceto, é claro, pelo fato de que na poltrona imediatamente vizinha à minha (ombro com ombro) sentou-se um venezuelano obeso cheirando a cigarro que apresentava aquele típico ronco de pessoas com sobrepeso que têm apnéia do sono (das quais lhes falta ar ao dormir, especialmente quando o fazem de barriga para cima). Mas tirando isso, tudo bem...Não estressei muito, pois a brincadeira estava apenas começando...


Pois bem, cheguei às 4h30 já no horário local, que corresponde a 1h30’ a menos com relação ao horário de Brasília (afinal, a Venezuela TEM que ser diferente do resto do MUNDO, no qual as diferenças de fusos horários são sempre horas inteiras, como 1,2,3... horas para mais ou para menos), e passada a imigração, já me dirigi ao terminal de vôos domésticos, no qual precisaria pegar um outro vôo até a cidade de Maracaibo, onde me esperaria a pessoa que me acompanha durante esta viagem.


No trajeto entre os dois terminais, composto por um enorme corredor que os intercomunica, equipado com uma daquelas esteiras rolantes inventadas para “evitar a fadiga” de passageiros que carregam suas bagagens, e que obviamente estava desligada, pois o país enfrenta uma grave crise de energia, tal como citarei novamente mais adiante, ocorreu-me algo que eu já previa, porém, não tão cedo assim. Tratava-se da primeira abordagem (das muitas) de um cidadão local, oferecendo-me troca de moeda (ou seja, querendo-me vender bolívares em troca de dólares). Achei incomum, pois geralmente, isto costumava ocorrer a partir do momento em que se deixava a área de embarque, passando-se para a área livre do aeroporto, na qual teoricamente qualquer pessoa pode circular (e não só os passageiros). Mas o cara estava ali, pois era o “guardião” desta passagem entre terminais, o que mercadologicamente, dá-lhe uma enorme vantagem competitiva frente a seus “agentes de câmbio” concorrentes.


Neste momento, julgo apropriada uma breve explicação sobre o sistema cambial venezuelano, para que se entenda o motivo da situação relatada no parágrafo anterior. Atualmente o dólar apresenta duas cotações no câmbio OFICIAL: Bsf 2,6 (bolívares fortes...O termo “forte” entrou em vigor quando Chávez fez uma reforma monetária e cortou três zeros da moeda. Se você tem mais do que 25 anos, esta situação poderá trazer-lhe recordações de algo que ocorria com frequência antes do Plano Real), sendo esta cotação para bens considerados “indispensáveis” (não perguntemos qual é o critério empregado para determinar isto, porque nem os venezuelanos o sabem), ou 4,3 Bsf para bens “supérfluos”. Ok, tudo isso, no câmbio OFICIAL. Porém, há o câmbio paralelo, ou “negro”(tal como há no Brasil), no qual USD 1,00 vale Bsf 6,90. Ou seja, se o “guardião” do terminal consegue comprar USD 1,00 de um turista, pagando-lhe Bsf 6,00, TEORICAMENTE, ambos saem ganhando. Isso porque o turista vendeu a um valor maior do que conseguiria numa casa de câmbio (o que aumenta seu poder de compra), e o venezuelano comprou a um valor menor do que ainda consegue vender no câmbio negro. Na teoria, parece lindo... Porém, não é uma transação que se convém realizar com um estranho, assim, na rua. Isso porque tem muito golpe na praça...Dinheiro falso, por exemplo...E claro, tem sempre o risco de você acabar sem dólares, sem bolívares, sem carteira, sem passaporte, sem relógio, sem um rim, e por aí vai....


Assim sendo, a recomendação é evitar-se fazer negócios desta forma, com esta gente...E sim trocar apenas com gente de confiança, que tire o dinheiro no banco, na sua frente...Ou em casas de câmbio mesmo, ainda que pagando uma taxa menos favorável, mas com toda a segurança... Foi o que eu fiz quando cheguei, só para que tivesse algo no bolso para comprar alguma coisa, tomar um café, etc., sendo que o “grosso” eu troquei depois, com meu contato local. Aliás, o assédio desse pessoal é irritante, e até amedrontador para os que vêem ao país pela primeira vez e não sabem como funcionam as coisas, representando uma recepção traumática aos turistas de primeira viagem. Os caras fazem uma rodinha em volta de você, ficam buzinando na sua orelha..Eu costumo dar logo um “corte”, mas ainda assim, enquanto eu estava falando com a moça da casa de câmbio (que na verdade é uma cabine de vidro no meio do aeroporto), um “hijueputa” de um venezolano pendejo bateu no meu ombro, escondeu-se atrás da cabine, e ficou me fazendo sinais com as mãos, indicando um numero “6”, sugerindo que me pagaria Bsf 6,00 por cada dólar. Olhei feio, fiz sinal negativo com a cabeça, e o cara foi atrás de outro “freguês”.


Mas enfim, vencida esta etapa, dirigi-me à zona de embarque do terminal doméstico, do qual meu próximo vôo sairia às 10h20. Eram aproximadamente 6h45, ou seja, ainda tinha MUITO tempo pela frente, mas achei melhor assim, pois poderia tomar um café tranquilamente, ler um pouco, e aguardar o embarque...Foi aí que me deparei com outro “produto” típico venezuelano: o atraso (para o que quer que seja).


O horário original de embarque era 9h50... Pois deu 9h50, 10h, 10h20 (horário do vôo)...E nada... Estava sentado próximo ao portão indicado, e o monitor só dizia que o vôo estava “confirmado”, e nada mais...E o pior disso tudo, é que tal como na época do “caos aéreo” do Brasil, as atendentes da Cia aérea estavam totalmente perdidas e não sabiam dar-nos informações concretas...Trata-se do pior tipo de espera. Afinal, se nos dissessem de forma clara: “Seu vôo atrasará 3 horas”, tudo bem, pelo menos poderíamos nos programar... Sairia do aeroporto, daria uma volta, ou simplesmente me encostaria num canto e dormiria recostado à mochila... Mas assim, sem saber se nos chamariam naquela hora, ou dali a 2 horas... Foi bastante desgastante. E por falar em “caos aéreo”, outras semelhanças foram observadas. As pessoas começaram a se exaltar, gritar com as atendentes, bradar “palavras de ordem” (termo muito usado pela mídia, que sinceramente eu nunca entendi bem o que significava, mas achei que caberia aqui..rs). Teve até um cara que engrossou feio com um funcionário da companhia, sendo necessária a intervenção de um segurança. E teve também um “milico”, aprendiz de Chávez (de fardinha verde e boina vermelha, parecendo um boneco “Comandos em Ação” versão chicana), que fez com que alguns passageiros firmassem uma espécie de abaixo-assinado, que pelo que entendi, serviria como uma queixa formal à Cia aérea pelo atraso e pela confusão. Mas isso já foi quando a fila estava movendo-se para o embarque, o que ocorreu precisamente às 13h30 (com 3 horas de atraso).


Pois bem, depois de tudo isso, cheguei a Maracaibo, fiquei MUITO feliz ao constatar que minha mala viera junto (o que não ocorreu numa viagem anterior ao mesmo Bat-país, mas esta é uma outra história), e encontrei-me com a pessoa que me esperava (desde às 11h, sendo agora, 14h40). Almoçamos, e seguimos viagem (mais aproximadamente 2h de carro nos aguardavam) até o pueblo (povoado) no qual eu realizaria a primeira palestra às 19h daquele mesmo dia (dia este que para mim havia começado 15 horas antes e ainda estava longe de acabar). E antes que alguém se pergunte porque carajo escolheram este local para uma palestra, devo informar que se trata de um ponto central em uma região importante para a produção de leite, portanto, com muitos pecuaristas vivendo em seu entorno.


Ufa, chegamos a “Villa del Rosario"...Um povoado cujo número de habitantes eu não arriscaria estimar, mas que certamente, cabe em sua totalidade, dentro setor azul coberto do estádio do Morumbi (ou seja, só as cadeiras numeradas, nem contando a arquibancada). Mas como eu poderia haver desconfiado, o “ufa” foi perigosamente precipitado...Afinal, tal como dizia o “mote” da viagem que também relatei neste blog há alguns meses, “o dia ainda não acabou”...


Chegamos ao hotel aproximadamente às 16h40, e então pensei: “Que bom...Assim terei um tempinho para descansar, já que a palestra é só às 19h”...Que ingenuidade a minha. Enquanto ainda preenchíamos a ficha de cadastro no hotel, fomos informados de que os cortes de energia, DIÁRIOS naquela região (dada à crise energética que já relatei acima), ocorriam entre 17h e 19h. Isto não seria um grande problema, não fosse o fato de que deveria estar uns 32 graus ou mais, sem vento, e a sensação térmica dentro do quarto era próxima do que deve ser a sauna do inferno. Quem me conhece, sabe que não sou de exagerar, pois tenho um certo senso analítico, e sempre me embaso em aspectos os mais palpáveis e mensuráveis possível. Pois bem, pensem num quarto de “hotel” (era uma espelunca que, tal como 90% dos hotéis daqui, não tem sequer um frigobar, mas sim uma jarra de água de origem duvidosa junto à cabeceira da cama, que definitivamente não se recomenda beber, a não ser em caso severo de prisão de ventre), que está “acostumado” a permanecer todo fechado (pois em condições normais, ou seja, sem crise de energia, está sempre com o ar-condicionado ligado), tendo que de repente, ficar sem refrigeração...Pois bem, abri a janela, a porta, e até a janela do banheiro, tentando estabelecer um fluxo de ar, mas foi em vão...Meu descanso (importante para a qualidade da palestra) estava seriamente comprometido pelo fato de eu estar suando mais do que tampa de chaleira... Foi quando coloquei em prática um recurso que aprendi com os cães...Neste momento eu até poderia valorizar minha profissão, dizendo que foi algo que veio através da Medicina Veterinária, mas estaria mentindo...Foi fruto da mais pura observação mesmo... Ao constatar que o quarto dispunha de um piso “frio” (ou seja, algum tipo de azulejo ou lajota, ao invés de carpete ou madeira, considerados pisos “quentes”), não hesitei em deitar-me diretamente contra o chão (em trajes menores, claro). Evidentemente, não consegui aprofundar muito o descanso, porém, ao menos estabilizei um pouco minhaa temperatura até que chegasse a hora de sair...


Pois chegada a hora, tomei um banho quente (água à temperatura ambiente), e ao fechar o último botão da camisa, já estava literalmente pingando...Sentia minhas costas escorrendo, a ponto de ter passado FRIO ao entrar no carro, devido à combinação camisa encharcada + ar-condicionado. Sinceramente, às vezes surpreendo-me com minha saúde (especialmente levando a vida que eu levo). Mas o que importa é que como SEMPRE, no final, deu tudo certo...A palestra foi boa, havia energia elétrica esperando-me quando voltei, e consegui dormir à noite.


Bom, passada esta recepção literalmente “calorosa”, no dia seguinte seguimos viagem, sem grandes contratempos até o momento. Citarei apenas alguns fatos mais relevantes (para os objetivos do texto, relacionados inicialmente).


A segunda palestra ocorreria em El Vigía, portanto, seguimos viagem logo cedo, pois umas 4 horas de estrada nos aguardavam...E nem preciso dizer que 4 horas de estrada na Venezuela são um pouquinho diferentes de 4h de estrada no Brasil, certo...? Ou melhor, em São Paulo...Afinal, as estradas daqui até me lembraram um pouco das estradas da Bahia...Com a diferença de que aqui, a cada "X" km, há uma barreira do exército, na qual é necessário passar-se a 1 km/h, com vidros abertos e luz interna acesa (caso seja noite), correndo-se o risco de ter que prestar esclarecimentos sobre quem você é, de onde vem, para onde vai, etc. (fomos parados apenas uma vez). E quando eu disse “cedo”, é cedo MESMO, pois às 6h15 tínhamos de estar na rádio local, onde fui entrevistado a respeito do evento que ocorreria naquela noite (foto ao final. Detalhe para o poster do MeatLoaf..hehehe, bizarro). “Mas por que tão cedo?”. Lembrem-se de que pecuaristas acordam “com as galinhas” (ou melhor, com os bois). Do contrário, o Globo Rural não iria ao ar todos os dias às 6h da manhã, e às 8h no domingo...


Tanto o pueblo onde passamos a primeira noite, como a cidade da palestra seguinte, são próximos à fronteira com a Colômbia, e isso implica em alguns fatos no mínimo interessantes. O primeiro deles, diz respeito a uma infeliz ironia...Nesta região, há um racionamento de gasolina...Lembremo-nos de que estamos em um dos países mais ricos em petróleo do mundo, no qual a gasolina é mais barata do que água, estando isto longe de ser uma metáfora. Vamos aos números. Aqui, para encher-se um tanque de 50 L, gasta-se o equivalente a USD 0,83 (sim, você leu corretamente. Oitenta e três centavos de dólar, o TANQUE). Em alguns lugares, menos do que isto. O preço do LITRO da gasolina em moeda local é de Bsf 0,087. Uma garrafa de 1,5L de água mineral custa aproximadamente Bsf 4,00. E aí...Exagero meu?


Pois bem, é justamente este preço irrisório o principal responsável pelo racionamento na região. Isso porque por causa dele, torna-se uma verdadeira tentação contrabandear gasolina para a Colômbia (onde o preço é bem mais alto, semelhante ao nosso). A maneira que as “autoridades” encontraram para controlar isso, e, diga-se de passagem, MUITO questionável, foi limitar a venda. Quem não pode comprar, não pode contrabandear. Assim, eles tentam limitar a venda para o mínimo possível, suficiente apenas para consumo próprio...Só que não é tão simples determinar isso na prática. Vamos aos absurdos...


Nesta região, é proibido andar com o tanque cheio. Afinal, você não precisa disso tudo, e pode estar contrabandeando dentro do próprio carro. Assim, se uma patrulha do exército te pára e constata que você está com o tanque cheio, é simples. Metem a mangueirinha no teu tanque, e retiram metade da gasolina. Simples assim. Nos postos, isso também reflete. As filas são imensas, pois muitos só abrem em alguns horários do dia (por determinação oficial), também para limitar a venda. Tudo isso, mais uma vez, num dos países mais ricos em petróleo do mundo... E como sempre, quem paga o pato, é o povo...Pois o povo não quer contrabandear gasolina...Só quer ter o direito e ir e vir, e nada mais... E adivinhem só quem são os maiores contrabandistas de gasolina da região? Dou-lhes apenas uma chance....................... Os mesmos que a retiram dos carros dos cidadãos de bem...Ou seja, o exército. E que ninguém OUSE em questioná-los, ou a se meter em seus esquemas (eles têm até caminhões-tanque para fazer o transporte).


Outra consequência de estar próximo à fronteira com a Colômbia, é o clima de insegurança. São comuns os sequestros, principalmente dos fazendeiros da região. É normal que os mesmos tenham que pagar taxas de proteção para que nada lhes aconteça (sim, a taxa é paga aos mesmos que lhe fariam algum mal). Na verdade, esta é uma prática aplicada em diversas organizações criminosas ao redor do mundo, desde a Camorra siciliana, até os morros do Rio de Janeiro. Aqui, eles dão a estas taxas, o nome de “vacuna” (vacina). Ah, tem a vacuna dos carros também... Você paga, e te dão um adesivinho que você cola no vidro, como uma espécie de “seguro”, que significa “Este carro, ninguém rouba”. Se alguém roubar (algum bandido desinformado, ou desenturmado), acaba sumindo.


Isto traz consequências também para nossos negócios, já que diante de uma situação como esta, não é fácil fazer com que fazendeiros deixem a segurança de seus lares (ou “esconderijos”) para comparecerem um evento noturno (palestras). Além disso, deixando um pouco de lado a questão da segurança, e entrando na questão política/econcômica, os mesmos fazendeiros (agora em âmbito nacional, e não só na fronteira), vêm sendo cada vez mais “sufocados” pelo governo, que regula os preços da carne e do leite (proibindo aumentos há três anos), além de terem que conviver com invasões e/ou desapropriações de terras constantes (situação familiar?). É um povo lutador, que vem se arrastando em meio a tudo isso, buscando a sobrevivência, não pedindo absolutamente NADA a seus governantes, a não ser o direito de trabalhar....Triste, muito triste.


Outro aspecto que eu gostaria de abordar antes de encerrar o texto (ok, sei que está longo, mas lembremo-nos das “regras” do blog, determinadas no primeiro post, de 02/12...) diz respeito à educação do povo e da qualidade dos serviços (dois fatores intimamente relacionados).


Talvez não devamos “culpar” um povo por não ter educação, e sim seus governantes...Mas não quero entrar nesta discussão. Mais uma vez, o que relato, é fruto da observação e/ou experiência pessoal.


Aqui as pessoas não respeitam muito as regras da boa convivência, e não fazem muita questão de ser simpáticas ou de atender bem. Um destes dias em que estive em El Vigía, acompanhei meu contato local até o banco, no qual ele sacaria dinheiro para trocar por meus dólares, dentre outras operações que precisava fazer. O fato é que no mesmo dia, estavam pagando a aposentadoria dos velinhos, e no dia seguinte seria feriado bancário (nunca vi isso..SÒ os bancos não abrem). Resultado: o banco estava um caos. Chagamos pouco antes de abrir, e havia duas filas...Uma dos velinhos, e outra da galera. Até aí, tudo bem, certo? Errado, pois havia também uma horda de pessoas que ignorava a fila... Furava sem cerimônia...Metia-se no meio da muvuca na maior cara-de-pau, provocando a ira de outras pessoas que estavam na fila sabe Deus desde que horas...Uma gritaria, uma xingação, um empurra-empurra, um tumulto...Senti pena daquela gente. Não que a fila de uma Caixa Econômica Federal em dia de pagamento de pensões seja algo bonito de se ver...Mas definitivamente, estamos a alguns anos-luz à frente deles em organização, e principalmente, respeito ao próximo.


Ah, e ainda dentro do banco, ocorreu um fato inusitado. Deixei o cara lá, e fui fazer outras coisas, pois vimos que a tendência era demorar MUITO. Quando voltamos (a vendedora da região e eu), constatamos que o número da senha de atendimento do nosso colega era algo como 428, e no painel eletrônico constava algo como 354. Enquanto eu ainda executava meu exercício mental anti-desespero, pensando em coisas belas e que “um dia ainda vou rir de tudo isso”, a senhora que estava comigo tratou de embrenhar-se na multidão, e após conversar daqui, conversar dali, voltou e falou para mim de forma afobada “Me dá 15 bolos”(bolos = abreviação de bolívares)...Isso representa algo como R$5,00. “Tornou” a sumir na multidão, e voltou com a senha # 377, o que nos economizou algumas HORAS ali dentro. Depois fui entender o que aconteceu. Existe uma espécie de moto-boys que vivem de fazer serviço de banco para outras pessoas, justamente porque se trata de algo desgastante, que pode levar um dia inteiro. Eles ficam ali o dia todo, pegam várias senhas, saem e voltam só por conta disso. Não foi muito difícil negociar a senha de um deles, pois ele ficaria ali por muito mais tempo, e tudo o que eles fizeram, foi “contratar” o serviço de um destes rapazes. (na visão deles, claro). Confesso que após ter me recuperado da surpresa gerada pela situação, fiquei aliviado por ver que, ao contrário do que eu pensava, conseguimos sair dali em menos de uma hora.


Quanto ao atendimento, deixa-se muito a desejar também. Quem leu o post sobre a viagem ao interior de MG, deve lembrar-se daquela “teoria” sobre a proporcionalidade entre qualidade do serviço e distância de SP...Pois bem, na Venezuela isto se aplica de forma exponencial. Há a necessidade de se chamar várias vezes um garçom, que vai errar seu pedido, fazer cara feia quando você reclamar, demorar anos para trazer a conta, não vai entender seu pedido de nota fiscal, pois em se tratando de estrangeiro, foge-se do padrão com o qual ele está acostumado, e ainda vai errar o troco. E ironicamente, aqui tem-se o costume de dar gorjetas ("propina"). E mais uma vez aludindo ao texto anterior, questiono até que ponto a população acha isso realmente uma falha, ou vê como algo normal...Afinal, nunca vi alguém dando “piti” em restaurante.


Bom, até haveria outras experiências ocorridas nestes primeiros dias de minha empreitada caribenha, que seriam dignas de relato. Porém, isso poderia tornar a coisa toda ainda mais cansativa do que já está...Inclusive para mim, pois gastei uma boa parte do meu domingo de “folga” para escrever este texto...Provavelmente obtenha mais “matéria-prima” para um novo post referente aos próximos 5 dias (o que sinceramente, eu gostaria que não ocorresse... Gostaria que a viagem transcorresse de forma previsível, desinteressante e sem contratempos até o final, mas algo me diz que isso não será possível..rs).


E finalmente, a idéia que eu gostaria de usar como conclusão para isso tudo, além é claro, daquela já mencionada, e que pode ser resumida pelo dito popular: “Nego só vê as pinga que a gente toma, mas ninguém vê os tombo que a gente leva”, é a de que temos que dar muito valor ao Brasil. Ok, eu sempre concordei com a idéia de que temos que nos espelhar no que está acima, e não abaixo, para que nos inspiremos a crescer... Mas é um ponto de equilíbrio interessante (e desafiador, pois não o vemos com muita frequencia), almejar algo melhor, e ao mesmo tempo, valorizar o que temos de bom. Vejo sim, muita gente que se queixa demais do “Brasilzão”, sem reconhecer que em MUITOS aspectos, somos o que eu chamo de “Suíça da América Latina”. Não vou desenvolver muito este tema, pois se trata de algo digno de um possível futuro post dedicado apenas a ele. E não culpo também as pessoas, pois muitas não tiveram a oportunidade de vivenciar o que nós, que visitamos estes lugarejos vivenciamos. Ou ainda, muitas delas já estiveram no outro extremo, ou seja, em lugares verdadeiramente mais civilizados e organizados, tendo assim, uma visão comparativa enviesada no sentido oposto. De uma forma ou de outra, voltar pra casa faz-me sempre lembrar daquela imagem em que o finado Papa João Paulo II curvou-se imediatamente ao descer do avião, beijando o solo brasileiro....
EPÍLOGO: Depois de escrever e publicar este post, dando o assunto como encerrado, precisei voltar aqui para compartilhar mais um fato que corrobora com cada linha escrita acima. Tocou o telefone do meu quarto...Era a recepção, avisando que eu tinha "diárias em aberto". Eu disse, claro, pois se eu ainda não saí do hotel, nada de errado, afinal, saio só amanhã cedo, certo? Errado. Mais uma vez, ao contrário do resto do MUNDO, no qual se paga pelas diárias utilizadas no momento do check-out, aqui parece ser diferente.Ok, acertei a primeira noite no check-in, como até se faz em alguns lugares, deixando-se o resto para pagar na saída...Mas não...Aqui não...Tenho que ir lá acertar as "pendências" HOJE...E amanhã, passo lá só para entregar a chave e dar "tchau"... Também...O que eles têm a perder..? Esse muquifo não tem frigobar mesmo...Só se eu quiser levar pra casa essa jarra nojenta de água, pra criar Aedes aegypti de estimação....

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Onde estamos errando...?

O presente post foi motivado por um “insight” ocorrido (ou talvez melhor estruturado) durante o último carnaval. Paradoxalmente, o tema aqui está longe de ter algo a ver com a recém-terminada festa pagã, já que se insere em um contexto de caráter profissional.
Como mencionei, embora o tema tenha sido mentalmente melhor elaborado nos últimos dias, alguns acontecimentos menos recentes já haviam contribuído para a concepção das idéias em questão.

O fato é que já há algum tempo, venho observando um padrão de comportamento por parte de pessoas da nossa “geração”, que me tem causado reflexões. Refiro-me ao fato de que cada vez mais, tenho visto pessoas de meu círculo de convivência (direto ou indireto) tomando uma decisão profissional muito semelhante, ou seja, “largando tudo” (em termos de carreira), para buscar a “segurança” de um trabalho suportado pelo âmbito familiar (quer seja na empresa do pai, em um emprego indicado por parentes, ou então através de uma sociedade com familiares, e por aí vai).

Citarei alguns os exemplos que estão mais próximos a mim, unicamente por ter um conhecimento mais concreto sobre eles. Mas sei de muitos outros, embora mais superficialmente.
O primeiro deles diz respeito a uma grande amiga minha, que se formou comigo em veterinária na USP, pós graduou-se em administração de empresas pela FGV, vindo a largar tudo após 5 anos de uma promissora carreira na indústria farmacêutica (na qual já ocupava uma posição gerencial), para entrar como sócia na empresa de arquitetura da irmã.

No segundo, a pessoa em questão tem a mesma formação (veterinária – USP, porém formada alguns anos antes, e pós-graduada stictu sensu, ou seja, com mestrado), e atuava no mesmo segmento (farmacêutico veterinário), também em um patamar condizente a seu tempo de experiência, que acabou abandonando em troca de uma posição no laticínio de seu pai.

O terceiro exemplo é bem semelhante, embora mudem algumas variáveis. Também é amiga minha, veterinária, atuando no mesmo mercado, e também largou tudo para trabalhar na empresa do pai. A diferença é que se formou em outra faculdade, um pouco mais recentemente, ou seja, digamos que “desistiu” mais cedo.

Agora um caso um pouco diferente, pois apesar da mesma formação (veterinária), esta outra pessoa não chegou a atuar no ambiente corporativo, mas sim insistiu até onde pôde na clínica veterinária propriamente dita (desde aqueles plantões em condições precárias, até ter possuído sua própria clínica em sociedade com algumas colegas de faculdade). Porém, a trajetória escolhida após o “chute do balde” foi um emprego obtido por indicação de seu pai numa corretora de valores, área na qual vem atuando até hoje.

Finalmente, cito o caso que motivou a criação do post. Neste carnaval, viajamos com dois casais de amigos, dentre os quais havia uma garota (com menos de 30 anos), que se formou em Biologia pela Unicamp, chegou até o doutorado, embora não o tenha concluído devido ao corte de sua bolsa pela FAPESP, que acabou indo trabalhar na empresa de produtos alimentícios do pai.

Tal como comentei, são casos sobre os quais possuo um pouco mais de embasamento, ou por conhecer bem as pessoas envolvidas, ou no último exemplo, por tê-lo conhecido mais recentemente. Porém, há muitos outros, e certamente o leitor há de concordar comigo, pois certamente também deve conhecer outros tantos. E não quero que pareça que o “X” da questão é que a medicina veterinária é sinônimo de caminho para a frustração profissional...A maioria dos exemplos mais concretos que tenho referem-se a esta área por motivos óbvios.. Mas conheço outros, envolvendo diferentes formações.

A pergunta que me ocorre diante disso tudo é: o que está acontecendo? Onde estamos errando?
A meu ver (como SEMPRE, com consideráveis chances de estar equivocado), nossa geração foi “enganada”... Mas não enganada no mal sentido, ou seja, com má intenção...Mas sim porque os tempos mudaram, talvez numa intensidade e velocidade jamais vistas, e diferente do ritmo com o qual vinham mudando ao longo da sucessão das gerações anteriores. E não fomos devidamente preparados para isso.

Apesar de não ter lido AINDA (pois está nos meus planos a curto prazo, e talvez eu até devesse escrever este post depois disso, mas agora já foi), o best seller “Pai Rico, Pai Pobre” (Robert Kiyosaki e Sharon Lechter), relata mais ou menos isso (e se alguém que já leu achar que estou viajando, sinta-se à vontade para comentar). Resumidamente, o livro fala de como nossa geração (na verdade, a “geração” neste caso é um pouco mais extensa, abrangendo inclusive a de nossos pais, daí o nome do livro) foi instruída, ou até condicionada, a seguir a mesma “receita” básica rumo ao êxito econômico: estudar, sempre frequentando boas escolas, tirando as melhores notas possíveis, para então ingressar nas melhores universidades, especializando-se ao máximo, para aí sim, conquistar o “lugar ao sol”....Que por sua vez, nada mais é do que um bom emprego, ou uma sequência deles. Só que a história não é tão simples (pelo menos hoje não mais).

No livro, o autor relata que o pai “rico” (que na verdade era o pai de um de seus amigos) não seguiu este caminho, mas sim o de aproveitar as verdadeiras oportunidades do mercado, de forma empreendedora e estratégica, não se preocupando com as “receitas” tradicionais, e galgando seus degraus rumo ao sucesso. Já o pai “pobre” (do próprio autor), fez o oposto, ou seja, seguiu todo o “protocolo”, mas não obteve lá grandes conquistas (ao menos do ponto de vista financeiro).

Não me aterei ao livro, primeiro porque não o li, e quanto mais o menciono, aumenta significativamente a probabilidade de que eu fale alguma bobagem, e segundo, porque não é exatamente a idéia que eu pretendo defender aqui. Só o citei, porque no que se refere à “causa” deste comportamento que relato, ou seja, a migração do nosso próprio caminho (ou da nossa geração) para aquele em que seguimos as pegadas de nossos pais (ou familiares mais velhos), procurando abrigo sob suas asas, é a mesma...Ou seja, esta “enganação bem intencionada” à qual fomos submetidos.

Não podemos culpar nossos pais, pois como sempre, querem o melhor para nós. Porém, o que está em discussão aqui não são intenções, mas sim fatos. Quantos de nós não seguimos esta “receita para o sucesso” até hoje? Ou melhor, quantos NÃO seguimos, e fomos orientados por idéias diferentes? Imagino que pouquíssimos. O “passo a passo” que por ANOS nos foi doutrinado, ainda que às vezes com variações, é um só: estudar muito, escolher uma boa “profissão” (só vale o que se ensina na faculdade...Se não se ensina em faculdade, não é profissão), entrar numa boa Universidade e conseguir um bom emprego. Quem conhece algum jovem (esqueçamo-nos dos sonhos infantis... Estou falando de jovens em fase de planejamento de carreira, às vésperas de um vestibular, por exemplo) que pensa em ser empresário (salvo aqueles já predestinados a ocupar a cadeira do pai), consultor, investidor da bolsa, ou até mesmo vendedor?

É aí que as coisas começam a se complicar... Muitos de nós cumprimos com primazia o percurso, passo a passo, sem tirar sequer um pé da trilha...Só que o pote de ouro, a casinha no campo com cerquinha branca e cachorro, a casa na praia, ou a ampla sala com cadeira de encosto alto e rodinhas, no topo de um arranha-céu da Av. Berrini, não estavam lá... E agora? O que deu errado?

A resposta parece simples e óbvia, e pode ser resumida através do famoso jargão: “Os tempos mudaram...”. Agora, uma das primeiras das diversas indagações que faço ao longo deste texto é: SERÁ que foram mesmo “os tempos”....? Ou teríamos sido NÓS que mudamos? Será que a proporcionalidade entre a mudança da nossa geração com relação à de nossos pais foi TÃO diferente assim da deles com relação à de nossos avôs, por exemplo?? Será que ELES (nossos pais) também não diziam coisas em sua juventude como “os tempos mudaram...” e “na época de nossos pais era tudo tão mais fácil....”? Sinceramente, não sei....E por isso, pergunto.

Ok, deixarei o tom propositalmente provocativo de lado, e analisarei mais objetivamente a questão. De fato, eu acredito SIM que esta relação da proporção entre as mudanças inter-gerações provavelmente seja desigual, ou seja, o ritmo e intensidade das mudanças (tal como mencionei anteriormente) parecem ser mais intensos agora, do que foram nas gerações anteriores. PORÉM, eu acredito TAMBÉM que muita gente se apóia nesta “muleta” para desistir muito facilmente de seu próprio caminho... Não sou só eu quem diz, pois se você alguma vez já leu algo sobre a chamada “Geração Y”, ou seja, a geração pós-década de 80, viu que se trata de pessoas bastante impacientes e “infiéis” do ponto de vista profissional, ou seja, se não obtém o resultado esperado e de forma rápida, já tratam logo de mudar de rumo.

Quero deixar claro que não desaprovo ou condeno quaisquer das decisões que relatei em forma de exemplos anteriormente...Não tenho direito algum de julgar o que cada um quer para si. Ninguém tem, a não ser a própria pessoa. Porém, é fato que às vezes fico um pouco frustrado “por tabela”, ao ver pessoas de tanto potencial, capacidade e conhecimento, praticando o que EU chamo de desistência, correndo para baixo das asas dos pais (ou quem os valha), para viver dos frutos de seu suor, trabalho, sofrimento, e às vezes até do investimento de toda uma vida, ao invés de irem atrás de suas próprias conquistas.

Não quero ser mal interpretado, portanto, vou esclarecer ainda mais. Não estou dizendo que estamos “condenados” a lutar para sempre, presos à nossa primeira opção profissional (que, diga-se de passagem, no Brasil é feita assustadoramente cedo, aos 17 anos de idade)...Sou totalmente favorável à quebra dos limites impostos por aquela “receita” (como por exemplo, o da formação, ou “profissão”), visando o máximo aproveitamento de nosso REAL potencial, capacidade e vontade de crescer. Porém, o que não gosto de ver, são pessoas fazendo isso não por vontade própria ou por opção...Mas sim por FALTA dela...Ou seja, “nada deu certo, então vou trabalhar com meu pai”. Isso sim, para mim, é um pouco indigesto...Especialmente quando visto em pessoas que têm TUDO para ir MUITO longe...

Não quero fazer parecer com que todo este relato seja fruto de uma frustração MINHA, por não ter tido uma “asa” sobre a qual me esconder, até porque, como eu disse, da mesma forma que TENTO não julgar os outros, tento não fazê-lo comigo mesmo, ao menos não empiricamente. Ou seja, só EU sei o que eu faria se me deparasse com uma oportunidade dessas, e mais ninguém. E como quem me “acompanha” já sabe, não sou muito adepto da filosofia do “se”.

Finalmente, gostaria de dizer que admiro muito a sucessão familiar nas empresas, desde que devidamente planejada e aspirada, ou seja, tomada (pelo sucessor), como algo desejado, para o qual houve uma preparação...E não algo do tipo “não tem tu, vai tu mesmo”... Até mesmo porque a maioria dos empreendedores que constrói algum tipo de negócio faz isso pensando em deixá-lo a seus descendentes. E com relação aos nossos pais, estes só não nos alertaram de que “os tempos mudaram” antes, porque nem eles mesmos perceberam isso... NÓS é que estamos sentindo o gosto amargo desta mudança em nossas próprias gargantas, e ainda estamos aprendendo a lidar com isso... A minha esperança, é que tenhamos conhecimento e tempo hábil suficiente para prepararmos a cabeça de NOSSOS sucessores de uma forma um pouco mais alinhada a sua realidade. E é aí que mora o grande desafio.

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