O presente post foi motivado por um “insight” ocorrido (ou talvez melhor estruturado) durante o último carnaval. Paradoxalmente, o tema aqui está longe de ter algo a ver com a recém-terminada festa pagã, já que se insere em um contexto de caráter profissional.
Como mencionei, embora o tema tenha sido mentalmente melhor elaborado nos últimos dias, alguns acontecimentos menos recentes já haviam contribuído para a concepção das idéias em questão.
O fato é que já há algum tempo, venho observando um padrão de comportamento por parte de pessoas da nossa “geração”, que me tem causado reflexões. Refiro-me ao fato de que cada vez mais, tenho visto pessoas de meu círculo de convivência (direto ou indireto) tomando uma decisão profissional muito semelhante, ou seja, “largando tudo” (em termos de carreira), para buscar a “segurança” de um trabalho suportado pelo âmbito familiar (quer seja na empresa do pai, em um emprego indicado por parentes, ou então através de uma sociedade com familiares, e por aí vai).
Citarei alguns os exemplos que estão mais próximos a mim, unicamente por ter um conhecimento mais concreto sobre eles. Mas sei de muitos outros, embora mais superficialmente.
O primeiro deles diz respeito a uma grande amiga minha, que se formou comigo em veterinária na USP, pós graduou-se em administração de empresas pela FGV, vindo a largar tudo após 5 anos de uma promissora carreira na indústria farmacêutica (na qual já ocupava uma posição gerencial), para entrar como sócia na empresa de arquitetura da irmã.
No segundo, a pessoa em questão tem a mesma formação (veterinária – USP, porém formada alguns anos antes, e pós-graduada stictu sensu, ou seja, com mestrado), e atuava no mesmo segmento (farmacêutico veterinário), também em um patamar condizente a seu tempo de experiência, que acabou abandonando em troca de uma posição no laticínio de seu pai.
O terceiro exemplo é bem semelhante, embora mudem algumas variáveis. Também é amiga minha, veterinária, atuando no mesmo mercado, e também largou tudo para trabalhar na empresa do pai. A diferença é que se formou em outra faculdade, um pouco mais recentemente, ou seja, digamos que “desistiu” mais cedo.
Agora um caso um pouco diferente, pois apesar da mesma formação (veterinária), esta outra pessoa não chegou a atuar no ambiente corporativo, mas sim insistiu até onde pôde na clínica veterinária propriamente dita (desde aqueles plantões em condições precárias, até ter possuído sua própria clínica em sociedade com algumas colegas de faculdade). Porém, a trajetória escolhida após o “chute do balde” foi um emprego obtido por indicação de seu pai numa corretora de valores, área na qual vem atuando até hoje.
Finalmente, cito o caso que motivou a criação do post. Neste carnaval, viajamos com dois casais de amigos, dentre os quais havia uma garota (com menos de 30 anos), que se formou em Biologia pela Unicamp, chegou até o doutorado, embora não o tenha concluído devido ao corte de sua bolsa pela FAPESP, que acabou indo trabalhar na empresa de produtos alimentícios do pai.
Tal como comentei, são casos sobre os quais possuo um pouco mais de embasamento, ou por conhecer bem as pessoas envolvidas, ou no último exemplo, por tê-lo conhecido mais recentemente. Porém, há muitos outros, e certamente o leitor há de concordar comigo, pois certamente também deve conhecer outros tantos. E não quero que pareça que o “X” da questão é que a medicina veterinária é sinônimo de caminho para a frustração profissional...A maioria dos exemplos mais concretos que tenho referem-se a esta área por motivos óbvios.. Mas conheço outros, envolvendo diferentes formações.
A pergunta que me ocorre diante disso tudo é: o que está acontecendo? Onde estamos errando?
A meu ver (como SEMPRE, com consideráveis chances de estar equivocado), nossa geração foi “enganada”... Mas não enganada no mal sentido, ou seja, com má intenção...Mas sim porque os tempos mudaram, talvez numa intensidade e velocidade jamais vistas, e diferente do ritmo com o qual vinham mudando ao longo da sucessão das gerações anteriores. E não fomos devidamente preparados para isso.
Apesar de não ter lido AINDA (pois está nos meus planos a curto prazo, e talvez eu até devesse escrever este post depois disso, mas agora já foi), o best seller “Pai Rico, Pai Pobre” (Robert Kiyosaki e Sharon Lechter), relata mais ou menos isso (e se alguém que já leu achar que estou viajando, sinta-se à vontade para comentar). Resumidamente, o livro fala de como nossa geração (na verdade, a “geração” neste caso é um pouco mais extensa, abrangendo inclusive a de nossos pais, daí o nome do livro) foi instruída, ou até condicionada, a seguir a mesma “receita” básica rumo ao êxito econômico: estudar, sempre frequentando boas escolas, tirando as melhores notas possíveis, para então ingressar nas melhores universidades, especializando-se ao máximo, para aí sim, conquistar o “lugar ao sol”....Que por sua vez, nada mais é do que um bom emprego, ou uma sequência deles. Só que a história não é tão simples (pelo menos hoje não mais).
No livro, o autor relata que o pai “rico” (que na verdade era o pai de um de seus amigos) não seguiu este caminho, mas sim o de aproveitar as verdadeiras oportunidades do mercado, de forma empreendedora e estratégica, não se preocupando com as “receitas” tradicionais, e galgando seus degraus rumo ao sucesso. Já o pai “pobre” (do próprio autor), fez o oposto, ou seja, seguiu todo o “protocolo”, mas não obteve lá grandes conquistas (ao menos do ponto de vista financeiro).
Não me aterei ao livro, primeiro porque não o li, e quanto mais o menciono, aumenta significativamente a probabilidade de que eu fale alguma bobagem, e segundo, porque não é exatamente a idéia que eu pretendo defender aqui. Só o citei, porque no que se refere à “causa” deste comportamento que relato, ou seja, a migração do nosso próprio caminho (ou da nossa geração) para aquele em que seguimos as pegadas de nossos pais (ou familiares mais velhos), procurando abrigo sob suas asas, é a mesma...Ou seja, esta “enganação bem intencionada” à qual fomos submetidos.
Não podemos culpar nossos pais, pois como sempre, querem o melhor para nós. Porém, o que está em discussão aqui não são intenções, mas sim fatos. Quantos de nós não seguimos esta “receita para o sucesso” até hoje? Ou melhor, quantos NÃO seguimos, e fomos orientados por idéias diferentes? Imagino que pouquíssimos. O “passo a passo” que por ANOS nos foi doutrinado, ainda que às vezes com variações, é um só: estudar muito, escolher uma boa “profissão” (só vale o que se ensina na faculdade...Se não se ensina em faculdade, não é profissão), entrar numa boa Universidade e conseguir um bom emprego. Quem conhece algum jovem (esqueçamo-nos dos sonhos infantis... Estou falando de jovens em fase de planejamento de carreira, às vésperas de um vestibular, por exemplo) que pensa em ser empresário (salvo aqueles já predestinados a ocupar a cadeira do pai), consultor, investidor da bolsa, ou até mesmo vendedor?
É aí que as coisas começam a se complicar... Muitos de nós cumprimos com primazia o percurso, passo a passo, sem tirar sequer um pé da trilha...Só que o pote de ouro, a casinha no campo com cerquinha branca e cachorro, a casa na praia, ou a ampla sala com cadeira de encosto alto e rodinhas, no topo de um arranha-céu da Av. Berrini, não estavam lá... E agora? O que deu errado?
A resposta parece simples e óbvia, e pode ser resumida através do famoso jargão: “Os tempos mudaram...”. Agora, uma das primeiras das diversas indagações que faço ao longo deste texto é: SERÁ que foram mesmo “os tempos”....? Ou teríamos sido NÓS que mudamos? Será que a proporcionalidade entre a mudança da nossa geração com relação à de nossos pais foi TÃO diferente assim da deles com relação à de nossos avôs, por exemplo?? Será que ELES (nossos pais) também não diziam coisas em sua juventude como “os tempos mudaram...” e “na época de nossos pais era tudo tão mais fácil....”? Sinceramente, não sei....E por isso, pergunto.
Ok, deixarei o tom propositalmente provocativo de lado, e analisarei mais objetivamente a questão. De fato, eu acredito SIM que esta relação da proporção entre as mudanças inter-gerações provavelmente seja desigual, ou seja, o ritmo e intensidade das mudanças (tal como mencionei anteriormente) parecem ser mais intensos agora, do que foram nas gerações anteriores. PORÉM, eu acredito TAMBÉM que muita gente se apóia nesta “muleta” para desistir muito facilmente de seu próprio caminho... Não sou só eu quem diz, pois se você alguma vez já leu algo sobre a chamada “Geração Y”, ou seja, a geração pós-década de 80, viu que se trata de pessoas bastante impacientes e “infiéis” do ponto de vista profissional, ou seja, se não obtém o resultado esperado e de forma rápida, já tratam logo de mudar de rumo.
Quero deixar claro que não desaprovo ou condeno quaisquer das decisões que relatei em forma de exemplos anteriormente...Não tenho direito algum de julgar o que cada um quer para si. Ninguém tem, a não ser a própria pessoa. Porém, é fato que às vezes fico um pouco frustrado “por tabela”, ao ver pessoas de tanto potencial, capacidade e conhecimento, praticando o que EU chamo de desistência, correndo para baixo das asas dos pais (ou quem os valha), para viver dos frutos de seu suor, trabalho, sofrimento, e às vezes até do investimento de toda uma vida, ao invés de irem atrás de suas próprias conquistas.
Não quero ser mal interpretado, portanto, vou esclarecer ainda mais. Não estou dizendo que estamos “condenados” a lutar para sempre, presos à nossa primeira opção profissional (que, diga-se de passagem, no Brasil é feita assustadoramente cedo, aos 17 anos de idade)...Sou totalmente favorável à quebra dos limites impostos por aquela “receita” (como por exemplo, o da formação, ou “profissão”), visando o máximo aproveitamento de nosso REAL potencial, capacidade e vontade de crescer. Porém, o que não gosto de ver, são pessoas fazendo isso não por vontade própria ou por opção...Mas sim por FALTA dela...Ou seja, “nada deu certo, então vou trabalhar com meu pai”. Isso sim, para mim, é um pouco indigesto...Especialmente quando visto em pessoas que têm TUDO para ir MUITO longe...
Não quero fazer parecer com que todo este relato seja fruto de uma frustração MINHA, por não ter tido uma “asa” sobre a qual me esconder, até porque, como eu disse, da mesma forma que TENTO não julgar os outros, tento não fazê-lo comigo mesmo, ao menos não empiricamente. Ou seja, só EU sei o que eu faria se me deparasse com uma oportunidade dessas, e mais ninguém. E como quem me “acompanha” já sabe, não sou muito adepto da filosofia do “se”.
Finalmente, gostaria de dizer que admiro muito a sucessão familiar nas empresas, desde que devidamente planejada e aspirada, ou seja, tomada (pelo sucessor), como algo desejado, para o qual houve uma preparação...E não algo do tipo “não tem tu, vai tu mesmo”... Até mesmo porque a maioria dos empreendedores que constrói algum tipo de negócio faz isso pensando em deixá-lo a seus descendentes. E com relação aos nossos pais, estes só não nos alertaram de que “os tempos mudaram” antes, porque nem eles mesmos perceberam isso... NÓS é que estamos sentindo o gosto amargo desta mudança em nossas próprias gargantas, e ainda estamos aprendendo a lidar com isso... A minha esperança, é que tenhamos conhecimento e tempo hábil suficiente para prepararmos a cabeça de NOSSOS sucessores de uma forma um pouco mais alinhada a sua realidade. E é aí que mora o grande desafio.
