quarta-feira, 28 de julho de 2010

Do céu ao inferno na Guatemala

Seguindo a temática dos “contos” de viagens, aproveito para postar um (nem tão) breve relato sobre minha última passagem pela Guatemala, que apesar de ter ocorrido cronologicamente anterior à da Bolívia, ficou para ser “publicada” só agora, antes que a inspiração (e o tempo livre) para escrever se esgotassem novamente.


O texto é mais curto do que o anterior (ufa!), até porque estamos falando de uma viagem de cerca de três dias (curta, mas intensa). Mas como de costume, o grau de “inusitabilidade” de alguns fatos faz com que seja justificável o seu relato.


Chegamos à cidade da Guatemala num sábado à noite (via aérea, depois de uma semana na Costa Rica), sendo que na manhã seguinte deveríamos nos dirigir para outra cidade que fica a cerca de 300 km dali. A idéia inicial era que nosso cliente(distribuidor) enviasse um de seus empregados para nos buscar, porém, a pessoa que me acompanhava (como de praxe, nosso gerente local), em meio a um acesso de amabilidade, declinou a oferta em nome do desgaste que isto causaria a quem quer que fosse nos apanhar, pois estávamos falando de um “bate-volta” de aproximadamente 600 km (contanto ida e volta). Ao invés disso, ele sugeriu que fôssemos por conta própria, já que o mesmo cliente é proprietário da maior empresa de ônibus da região, e poderia nos designar um de seus veículos, sem que sequer precisássemos pagar pela viagem (como se esse fosse o problema...). Afinal, não precisaríamos nos preocupar com nada, já que o ônibus supostamente era “bom”, e iríamos “tranquilos”.GRANDE erro...

Às 5 da manhã do dia seguinte, já estávamos no terminal rodoviário aguardando nosso transporte, e aqui cabe comentar que o grau de “beleza” do lugar e das pessoas ali presentes é proporcionalmente igual ao de qualquer terminal rodoviário do Brasil, de modo que considerando que estávamos na Guatemala, deixo a cargo da imaginação do leitor a visualização da cena. Enquanto eu varria todo o pátio com os olhos em busca de nosso “ônibus bom” e não o encontrava, meu guia, que estava a alguns metros, conversava com um suposto funcionário do lugar, que apontou para um dos veículos que estava estacionado atrás de mim. Voltei-me para o mesmo, e pensei que a única maneira daquilo ser um bom sinal, seria se a pessoa estivesse dizendo algo como:

- “Ah claro, não precisa se preocupar, pois o ônibus de vocês é bom sim..Não é como aquela lata-velha ali atrás, ó...”. Mas infelizmente, o diálogo não foi bem esse...
Montamos no velho coletivo de cor prata, que pelos meus cálculos datava de meados para o fim da década de 70. No dia seguinte, quando me perguntaram se o ônibus “era bom”, eu me vi obrigado a responder que sim, ERA bom...Há uns 30 anos, era... Ao sentar-me, constatei que seria difícil passar as próximas 5 horas ali (duração prevista da viagem), pois eu estava tendo dificuldades em identificar o que me doía mais: as costas, pela dureza do assento, ou o joelho, pela compressão inevitável do encosto da frente.

Iniciada a viagem, pensei em tentar dormir, com a esperança de que as 4 horas de sono da noite anterior superassem quaisquer limitações de conforto físico...Pois quando eu finalmente encontrara uma posição semi-confortável, ou seja, uma angulação mais adequada entre cabeça, costas e pernas (algo que me deixava numa espécie de posição em “Z”), e estava fechando os olhos, pronto para entrar no chamado sono REM (rapid eyes movement, fase mais profunda do sono), eis que cerca de meia poltrona a minha frente (nem sequer uma), no corredor surge (literalmente, pois não vi de onde ele se levantou), um CRENTE daqueles com bíblia em baixo do braço, e começa a berrar sua pregação... É impressionante como independentemente do país e do idioma, a entonação e a oratória desses caras é idêntica. Ele poderia estar pregando em mandarim, e seria possível saber do que se tratava... O interessante é que no meio do sermão, ele começou a bendizer o ônibus e seus componentes...Era algo assim (as letras maiúsculas servem para evidenciar o aumento de intensidade que era dado em algumas sílabas tônicas):

- “Que Deus abençoe este veÍculo para que tenhamos uma viagem tranquila... Que abençoe os pnEUs; Que abençoe o FREio; Que abençoe a embreAgem; Que abençoe o motoRIsta”...

E assim sucessivamente. Confesso que algumas das partes (ou peças) abençoadas eu desconhecia. Mas enfim, pelo menos eu tinha a certeza de que nossa viagem seria segura...Afinal, nosso transporte estava bento dos pneus ao escapamento...Bom, este foi o pensamento otimista, né...Há quem pudesse pensar o contrário, ou seja, que já estávamos purificados e prontinhos para adentrar ao céu de busão e tudo... Mas não foi o caso...

Enfim, tendo terminado sua pregação e coletado seus dízimos, o “irmão” desceu na próxima parada (e aqui cabe ressaltar que foram MUITAS, pois estávamos em sistema “pinga-pinga”, e por isso a viagem demorava tanto), seguimos adiante, e por algum tempo, sem maiores contratempos. Falando nas paradas, estas eram um show à parte, pois a cada vez que encostávamos em algum “pueblo” para pegar gente, éramos cercados por uma infinidade de vendedores de todos os tipos de artigos, desde jornais até os mais variados alimentos, como empanadas (cujos sabores eu não conseguia identificar, pois eram termos novos para mim, como por exemplo, “loroco”, que posteriormente eu descobri tratar-se de um vegetal), frutas PPU (prontas para o uso), ou seja, já picadas em saquinhos plástico, bolos, churrasquinhos de sabe Deus que bicho, e por aí vai... Alguns deles até conseguiam subir no ônibus (não entendi bem o critério desta permissão...Talvez alguns tivessem a sorte de pegar um motorista que fosse fã de loroco e lhe davam um “agrado”), mas a maioria ficava do lado de fora, levantando seus produtos na altura das janelas e ofertando-os aos gritos.

Mais adiante, a nova tentativa de pregar os olhos foi frustrada por uma nova intervenção... Mas desta vez não religiosa, mas sim “científica”. Um homem relativamente bem vestido, de óculos, com uma bolsa a tira-colo similar a estas usadas por propagandistas médicos, só que bem “surrada”, sacou dela um pequeno frasco plástico vermelho que continha pílulas brancas, começou a falar:

- “Talvez isto já tenha acontecido com vocês...Se você se abaixa para fazer algo, levanta-se rápido demais e surgem alguns pontinhos luminosos em sua visão...Isto é falta de vitaminas no cérebro!!”
- “Se você manda seu filho até a venda buscar um saco de farinha e ele volta com um saco de feijão, não bata nele...Isso é falta de vitaminas!!!”
- “ Se você chega em casa, sua esposa tira as suas calças e você adormece...Isso é falta de vitaminas!!!”

E após desferir mais algumas revelações da medicina moderna, começou a oferecer sua solução para todos estes males...Um complexo “vitamínico”, feito a base de compostos “naturais”, com resultados “comprovados”. O mais interessante é que suas técnicas de vendas não eram das piores...Enquanto ele falava, ia distribuindo frascos para que as pessoas os pegassem, manipulassem, vissem de perto...Isso é comprovadamente eficaz (aguçar os sentidos do potencial comprador)...E não é que ao final ele vendeu seus 6 ou 7 frasquinhos?? Até comentei com nosso gerente local, que deveríamos tirar uma lição deste caso, já que ele vendeu mais do que vendem alguns dos membros da equipe do nosso distribuidor... Quem sabe não seria uma boa idéia propormos um ciclo de palestras técnicas dentro do busão durante minha próxima visita...? Aparentemente ele gostou da idéia...A moça que estava do meu lado (do outro lado do corredor) comprou um frasco e depois ficou lá, lendo o rótulo... Fiquei imaginando qual seria o seu problema...Um filho burro, ou um marido brocha...?

Já no trecho final da viagem, resolvi fazer mais uma tentativa de relaxamento, afinal, teríamos um dia cheio pela frente, no qual constava dentre uma das muitas atividades, assistir ao jogo da Argentina x México (pois estávamos em plena Copa do Mundo). Na última parada, eu havia notado que subira uma mocinha que devia ter lá seus 19 anos, e que até era jeitosinha..Magrinha, com uma cara nem tão de índio...Falar que era “bonita” seria forçar demais a barra...Mas em termos relativos, até que não era má....Pois bem...Eis que no exato mesmo ponto em que fizera o anterior, ela se posiciona com sua bíblia na mão, e começa a disparar seu sermão...Eu desacreditei...Aquele ponto, bem ao lado (um pouco à frente) de MINHA poltrona, devia ser o altar do ônibus...De novo ali?? Ela era uma daquelas crentes agressivas, e fazia uma cara de brava que dava medo, sem contar que seu script soava muito mais repreensivo do que o do anterior...Enquanto o outro nos abençoava, o discurso desta era mais do tipo “os pecadores vão para a fogueira” (teria ela lido meus pensamentos quando entrou no ônibus?). E para piorar, o sermão dela era daqueles transmitidos em estéreo... Ou seja, enquanto ela gritava na frente, havia uma espécie de “coadjuvante”, ou “elenco de apoio” lá no fundão, que repetia algumas palavras-chave, ou então falava outras que corroboravam ou reforçavam a idéia principal do texto. Algo como:

-“Aqueles que não seguirem a palavra, sofrerão as consequências!” “(Consequências!!!)”
- “Venham e sigam a palavra!” “(Ainda há tempo!!)”

Que paradoxal, não? Inicialmente abençoados, e no final amaldiçoados...Literalmente, do céu ao inferno em poucos quilômetros.

Cerca de cinco horas após termos saído, chegamos ao ponto final...Um complexo formado por posto de gasolina, restaurante, hotel e loja agropecuária que também pertencem a nosso cliente. Fomos tomar café-da-manhã (típico da América Central: arroz, feijão preto, ovos, carne moída e café-com-leite), enquanto aguardávamos nosso comitê de recepção chegar para nos apanhar.
Antes de descrever sua chegada, convém uma breve introdução sobre alguns aspectos sócio-culturais da Guatemala. Trata-se de um país que sofre muito com a falta de segurança pública. A receita é simples e desastrosa: riqueza polarizada (ou seja, uma maioria MUITO pobre e uma minoria MUITO rica)+ falta de segurança (polícia despreparada e corrupta)+desemprego+acesso ridiculamente fácil a armas de fogo. Resultado: Terra de ninguém. E a minoria muito rica “sofre” com os altos índices de sequestros (principalmente) e assaltos.

Posto isso, eis que chega a nossa “caravana”... Um comboio de três caminhonetes Toyota Hilux brancas, em alta velocidade cruzaram o posto de gasolina até o restaurante onde estávamos. Delas desceram cerca de 8 pessoas, dentre as quais, duas eram nossos clientes (o distribuidor e seu irmão, sendo suas idades 26 e 17 respectivamente), e os demais, seguranças armados com pistolas, que rapidamente se espalham pelo perímetro do lugar, e muito simpáticos e prestativos, já pegaram nossas malas e trataram de carregá-las até os carros, enquanto cumpríamos os usuais rituais de saudação. E se você está imaginando “seguranças” mais ou menos como o Kevin Costner em “O Guarda-Costas”, pode desencanar, ,e imaginar uns caras mau encarados, com camisas xadrez, botina e chapéu. Ao entrar no carro para seguir viagem, já notei algo diferente...O peso e a espessura das portas indicavam que estávamos envoltos por uma blindagem Nível 5, ou seja, uma das mais fortes do mercado, daquelas que seguram até granadas e minas terrestres. Íamos meu guia e eu no banco traseiro, e no dianteiro, nossos clientes. Entre eles, próximo de onde se engatam os cintos de segurança, havia duas pistolas Glock calibre .40 (uma de cada um deles), alocadas em uma espécie de suporte próprio para este fim. Éramos o carro do meio no comboio, indo sempre um na frente e outro atrás. Inicialmente, toda esta movimentação pode parecer estranha, mas depois nos acostumamos...

Todo o restante da viagem ocorreu seguindo a mesma dinâmica, ou seja, em cada lugar onde parávamos, desciam antes os “jagunços” que se distribuíam pelo local, sendo que no mínimo dois deles sempre ficavam próximos a nós... Otimista e bem humorado por natureza, preferi pensar que tudo isso seria um bom treinamento para que eu já fosse me acostumando com uma futura vida no universo dos ricos e famosos...

Como eu disse, com o passar dos dias fomos nos acostumando a esta rotina...Até fiz “amizade” com a maioria dos seguranças, o que era inevitável, pois eles não nos deixavam por um minuto sequer...Foram três dias indo para cima e para baixo com os caras, comendo juntos, ficando nos mesmos hotéis, etc. Como entusiasta das armas que sou, já conversávamos livremente sobre o tema, e eles até me deixavam manusear seus pequenos arsenais (o que me causaria certa preocupação com impressões digitais nas armas e munições no caso de um eventual assassinato, não fosse o fato de estarmos num país sem lei). Foi numa destas conversas que me explicaram algo sobre como funciona a política de armas naquele país. Ao contrário do que eu esperava encontrar (baseado no que me disseram pessoas que já haviam estado lá), eles praticamente só portavam pistolas, sendo 90% delas calibre 40... Isso porque recentemente houve uma mudança na legislação no que se refere ao porte de armas (como eles são civilizados...) de maneira que o porte propriamente dito (ou seja, carregar consigo nas ruas, no carro, etc) só é permitido para armas “de mão”. Ou seja, nada mais de fuzis, escopetas ou submetralhadoras...Estas agora só são permitidas dentro de casa ou de estabelecimentos comerciais (isso explica eu ter visto uma ou outra calibre 12 atrás de portas e embaixo de balcões de lojas). Por isso, nas ruas, carros e cinturões, só pistolas ou revólveres (raros). As armas são vendidas em lojas convencionais mesmo..Nada de grandes estabelecimentos específicos e controlados, mas sim lojinhas de rua...São muito comuns as placas de “Armeria” em toda parte. Nelas, você pode comprar a arma apresentando um documento de identificação (mesmo sendo estrangeiro), e na própria loja já fazer NA HORA, sua licença para portá-la. Mas calma lá que nem tudo é tão bagunçado assim! Existe certa organização...Há um limite. Cada pessoa pode portar até no máximo 3 pistolas, e comprar MENSALMENTE “apenas” 250 cartuchos ou balas. Diferentemente do que acontecia há até uns 2 anos atrás, quando era tudo liberado...Fuzis e armamento pesado nas ruas, sem limite de munições (exceto o limite financeiro de cada um).

Pois bem, em meio a este velho-oeste centro-americano, confesso que tivemos apenas dois momentos de maior tensão (afinal, como eu disse, por mais estranho que possa parecer, em meio a tanta proteção acabávamos por nos sentir “seguros”...A não ser é claro, em caso de um eventual fogo cruzado, no qual uma falta de sorte poderia fazer com que sobrasse algo para nosso lado). Um destes momentos foi até engraçado (depois que passou, claro). Estávamos abastecendo o comboio num posto de gasolina em um povoado considerado “perigoso” (sim, o país todo é, mas para que eles próprios falassem assim já dá para imaginar, né...). Território dos “Zetas”, grupo delinquente de origem mexicana com presença em outros países, que está envolvido em praticamente tudo o que é de ruim na região (sequestros, assaltos, roubos, e por aí vai). Como de costume, todos os seguranças estavam fora dos carros, rondando a área, com as mãos nas cinturas, “ready for action”, quando repentinamente entrou no posto uma caminhonete com certa velocidade (qualquer carro um pouco mais rápido já causava suspeita e provocava a reação “mão na cintura”), e ao entrar, passou em cima de uma daquelas enormes chapas de aço usadas para tapar buracos, provocando um forte estrondo (“BLAM!”), e fazendo com que TODAS as armas fossem sacadas ao ar... Foi tudo muito rápido, e logo viram que não se tratava de nenhuma ameaça real, mas até aí, deu para dar uma aceleradinha nos BPM... O outro momento foi um pouco mais tenso, e ironicamente, envolveu a polícia. Ao visitar um cliente (loja), cumprimos o protocolo padrão, ou seja, 3 caminhonetes brancas com vidros totalmente escuros chegando em comboio, das quais desceram cerca de 10 homens armados. Apesar da “normalidade”, a movimentação gerou desconfiança no povoado (pois não era necessário muito esforço para perceber que não éramos habitantes locais), e alguém acionou a polícia. Estávamos dentro da loja, conversando com o proprietário (um tiozinho que também exibia sua Glock .40 na cintura, com extensor de pente, que serve para aumentar a capacidade de disparos em 7 a 8 balas a mais, afinal, 14 balas mais 1 na agulha podem não ser suficientes), quando percebo uma movimentação estranha. O senhorzinho parou de falar, e com um semblante sério, olhou fixamente para fora, e ao me virar, vi um caminhão negro da polícia estacionando, e dele descendo cerca de 15 homens, e estes sim, pesadamente armados (fuzis). Houve uma certa agitação por parte dos seguranças, e confesso ter ficado um pouco apreensivo, pois não sabia até que ponto todas aquelas armas estavam dentro da normalidade, e nessas horas, ser um estrangeiro pode complicar ainda mais uma situação já delicada. Todos foram para fora, os policiais checaram os carros, vi que conversavam civilizadamente e fiquei mais tranquilo. Chamaram-me para fora também, para que me apresentasse aos policiais, mostrasse passaporte, enfim, para que vissem que não havia nada de errado...Até que eles foram embora, e o proprietário (amigo do nosso distribuidor) pediu-nos gentilmente que numa próxima visita tentássemos vir em um ou no máximo dois carros para não chamar muito a atenção...Sim, são os CARROS que chamam a atenção, e não as mais de 15 pistolas...Enfim, cultura é cultura...

Como uma espécie de “epílogo” do texto, retorno para aquele formato no qual foi originado o Blog, ou seja, algo mais “cabeça”, deixando um pouco de lado a narrativa irônica para tratar de um tema mais sério sobre o qual refleti durante esta viagem: A banalização da vida humana naquele lugar. Sei que infelizmente não precisamos ir longe para vê-la, pois ao contrário do que muitos pensam (ou acreditam), temos realidades muito semelhantes bem mais próximas a nós (nas periferias das grandes cidades, por exemplo). As histórias envolvendo mortes de pessoas são tão comuns, que soam como qualquer outro tipo de relato... A maioria das pessoas com as quais andei durante estes dias, efetivamente já matou alguém (ou MUITOS “alguéns”, no caso de alguns deles). Histórias de brigas e desavenças que acabaram em mortes são contadas sem a menor variação no tom de seriedade ou gravidade. Fazem parte da “cultura” (se é que este é o termo) deles.

O irmão de nosso distribuidor tem 17 anos, mesma idade de sua esposa (sim, lá eles se casam super cedo. Este casal inclusive já tem um filho). Conheci a ambos..Pablo e Julia. Sua sogra (mãe de Julia), era uma mulher que sempre fora considerada como um pouco “estourada”, ou até meio doida mesmo... Dizem que já fora casada 3 vezes, e os 3 maridos morreram, sabe Deus como, mas isso não vem ao caso. Mais recentemente, ela estava namorando um rapaz mais novo, que é professor de uma faculdade de Direito. Diz-se que supostamente ele estaria tendo um caso com uma aluna, então um belo dia, ao passar em frente à faculdade, a menina (estudante) estava na calçada conversando com colegas em plena luz do dia, e a senhora ordenou a seu segurança que a matasse...Por mais “eficazes” e obedientes que costumam ser estes profissionais, ele se recusou a fazê-lo, por se tratar apenas de uma garota, e estarem diante de todos em plena luz do dia. Após certa insistência em vão, a velha agarrou a pistola do segurança, desceu do carro e descarregou-a na moça. E perguntem se alguma coisa aconteceu com ela... Nada. E é nessas horas (mais uma vez), que digo que devemos reconhecer o patamar de desenvolvimento em que se encontra o nosso Brasil em comparação a muitos outros países de nossa região (eu diria que a maioria deles). Já imaginaram se isso tivesse acontecido aqui? A opinião pública/mídia não daria sossego enquanto alguém não fosse punido... Sei que a causa disso não é 100% nobre, pois muito está relacionado ao fato de que desgraça vende mais jornal..Mas mesmo assim..Impune é que não sairia... Pois bem, digamos que a senhora provou do próprio remédio... Há pouco mais de um ano, ela foi encontrada assassinada dentro de seu carro...Todos dizem que foi o ex-namorado, mas novamente, nada foi provado, e ninguém foi preso....E as pessoas seguem adiante com suas vidas.

Essa foi só uma das histórias que ouvi por lá, e resolvi colocar este parágrafo de forma não planejada (algo que me ocorreu já ao final do texto) para que, dentre muitas outras reflexões, saibamos valorizar o que temos de bom (e também para que busquemos melhorar o que assim se faz necessário).
Obs: Abaixo, uma foto do busão abençoado (ou amaldiçoado), às 5h da manhã, ainda vazio...(não tirei mais fotos depois, porque fiquei com MEDO de sacar minha câmera)...

terça-feira, 27 de julho de 2010

Evo Morales, Frio e Coca

Após algum tempo de recesso, retomo a produção literária deste blog para mais uma vez compartilhar alguns eventos pitorescos e inusitados ocorridos durante minha última experiência além-fronteira.

Tudo aconteceu na Bolívia, para onde fui enviado por nove dias a fim de realizar palestras técnicas na região do estado de Beni, cujas características naturais são equivalentes às do Pantanal brasileiro (já que natureza não conhece fronteiras geográfico-políticas). Ao contrário do que possa parecer, este fato possui sim certa relevância, por se relacionar com alguns dos eventos que serão relatados.

Um dos pontos cruciais de todas as “roubadas” em que entrei foram as condições climáticas. Isso porque estamos falando de um lugar no qual durante 95% do tempo o clima pode ser resumido como uma alternância entre quente, muito quente, e inferno na Terra. Os outros 5% eu tive a “sorte” de presenciar bem de perto, e em sua totalidade. Em outras palavras, dizem os habitantes locais que na referida região ocorrem aproximadamente 10 dias de (muito) frio ao ano...Nove destes, foram justamente aqueles nos quais eu estive lá. Até aí, tudo bem, pois nunca fui um daqueles avessos ao frio, muito pelo contrário, pois até gosto dele, desde que devidamente preparado. E foi justamente este o “X” da questão...Tratou-se de um equívoco muito grande de briefing, já que pouco antes da viagem, fui aconselhado a preparar-me para enfrentar o maior calor de minha vida.

Pois bem, devidamente “preparado” para o que me havia sido alertado (ou seja, munido de uma jaqueta “meia estação” que levo em todas as viagens, e que serve unicamente para proteger-me de eventuais excessos de ar condicionado dos aviões), cheguei a Santa Cruz de La Sierra por volta das 18h, sob uma temperatura de aproximadamente 15º, que associada aos fortes ventos e a uma chuva fina, proporcionava uma sensação térmica consideravelmente inferior. Fui imediatamente até a casa de meu contato local, e ao contrário do que geralmente pede o nosso corpo após uma viagem como esta (ou seja, descanso), iniciamos o processo de carregar a caminhonete para que saíssemos o mais breve possível rumo à “cidade” de Trinidad, que ficava a aproximadamente 8 horas dali.

Carregado o carro, por volta de 21h30 saímos, com previsão de chegada às 6h da manhã do dia seguinte, tendo sido esta a primeira das agradáveis (e muito frias) noites passadas neste belo país. Cabe dizer que o largo tempo de viagem não se deve unicamente à distância, mas principalmente à condição das rodovias, já que por ali o asfalto é um recurso extremamente escasso. Antes de sair, porém, fui agraciado pela solidariedade alheia, e recebi de empréstimo uma jaqueta mais pesada, mediante à clara constatação de que eu não estava apto para enfrentar o frio que enfrentaríamos nos próximos dias, o que por um instante fez-me sentir como um dos beneficiados pela “Campanha do Agasalho”.

Chegando a Trinidad (onde, diga-se de passagem, estava mais frio), mais uma vez vi-me forçado a frustrar todas as expectativas de meu corpo, que após uma noite inteira em viajando em um carro, esperava ser recompensado com um banho quente e uma esticada... Ao contrário disso, porém, após um improvisado café-da-manhã, carregamos a segunda caminhonete (que faria parte de nossa “caravana”), e saímos novamente para a segunda parte da viagem, que duraria aproximadamente mais três horas até o próximo destino.

No “pueblo” seguinte seria realizada a primeira palestra, e os acontecimentos correram dentro de certo patamar de normalidade (relativo, claro) e, portanto, não dignos de maiores comentários. Exceção feita ao hotel onde passamos a primeira noite (segunda, se contarmos a que passamos viajando), no qual dividi o quarto com meu colega de trabalho (boliviano, que além de ser nosso gerente local, era um dos guias daquela “expedição”). Não havia muitas opções de hotel naquele vilarejo (situação constante em todos os demais visitados), e as acomodações eram simples (eufemismo). O banheiro era daqueles cujo layout é caracterizado por um cubículo de alguns poucos metros² , nos quais o chuveiro é instalado quase que imediatamente acima do vaso sanitário, que por sua vez fica a poucos centímetros da pia. Cortina? Nem pensar... Box? Cheguei a pensar em exportar o conceito para a Bolívia e patenteá-lo, pois foi um item não observado durante toda a viagem. Resultado: torna-se impossível não inundar o banheiro inteiro ao se tomar banho. Para piorar, a área de banho (ou seja, imediatamente abaixo do chuveiro) era delimitada por uma depressão quadrangular do piso, na qual havia um ralo, o qual constatei estar entupido, pois após meu banho criou-se ali uma piscina cuja água não descia de forma alguma. Felizmente, fui o primeiro a me banhar (sei que isto soa egoísta, mas descobri da forma mais difícil possível que em situações de extrema adversidade, nosso instinto de sobrevivência nos torna pessoas mais egoístas em nome da auto-preservação), de modo que quando abri a porta do banheiro, e ainda envolto pela névoa de vapor (este foi um dos 3 banhos quentes que tomei durante os 9 dias de estadia), disse a meu “roommate”: “Tenho uma boa notícia para você: Nosso quarto tem jacuzzi”. Na ocasião ainda dispúnhamos de certo bom humor (lembrando que ainda estávamos no segundo dia...).

No dia seguinte, pagamos a bagatela de aproximadamente USD 11 pelo hotel, e seguimos viagem para o próximo pueblo sem grandes contratempos, exceto a viagem em si, repleta de estradas de terra esburacadas e enlameadas, que transpúnhamos sem grandes dificuldades (apenas com pequenas e médias) em função da tração 4 x 4 de nosso veículo. O frio só aumentava, e eu já estava usando tudo o que levara, e mais a jaqueta emprestada...Lembrei-me do filme “Jamaica abaixo de zero” (Cool Runnings, 1993), no qual o personagem Sanka, ao sair do aeroporto e deparar-se com o inverno canadense, começa a vestir todas as roupas que havia levado, e termina por vestir a própria mala.

A palestra seguinte (ainda no mesmo local do parágrafo anterior) ocorreu nas dependências de uma Associação de Criadores, que nos proveu alimentação e estadia. Destaque inicialmente para a primeira, que nos foi fornecida em um “restaurante” do povoado, no qual jantamos na noite do evento, e também tomamos café-da-manhã no dia seguinte. Interessantemente, o restaurante dali (tal como pude observar em outros lugares também) dispunha de algumas mascotes como forma de descontrair e entreter os clientes. A diferença é que ao invés dos usuais cães, gatos ou periquitos, o ambiente era povoado por um casal de porcos do mato (que no Brasil são chamados de Cateto), cuja fêmea rondava a mesa pedindo comida como um cão mal educado, um macaco-prego que saltava do balcão para o ombro da proprietária do estabelecimento que ficava no caixa, e finalmente, o que para mim foi o mais estranho de todos: um Tuiuiú (para quem não conhece, coloquei uma foto ao final do texto), ave típica da região do Pantanal. O bicho era impertinente, pois também “pedia” comida, aproximando-se das mesas, de onde era afugentado pelos funcionários do local para que respeitasse o que me pareceu como uma distância mínima tolerável acordada entre ambas as partes, porém, às vezes desrespeitada. O tamanho do animal, e principalmente de seu bico, impõe respeito, de maneira que tive dificuldade para relaxar totalmente durante a refeição, especialmente diante do que estava por vir. Uma das cozinheiras atirou algo para o bicho, que foi audazmente apanhado no ar, e imediatamente posto no chão por ele... Foi quando constatei que se tratava de um conjunto pescoço+cabeça de frango (cru, evidentemente), que o pobre animal (praticamente um canibal, já que estava alimentando-se de um quase-semelhante) tentava romper e/ou compactar de alguma forma que lhe permitisse engolir com maior segurança. Ele jogava o pescoço para lá e para cá, e aquela estrutura dérmica-cartilaginosa ia lambuzando o chão, até que ele conseguiu uma angulação aparentemente ideal entre seu bico e o alimento, o que lhe permitiu degluti-lo por completo. Na verdade, pela postura que o bicho adotou logo após engolir seu almoço, constatei que ele estava tendo problemas no trânsito esofágico do mesmo, já que ele ficou parado de forma estática, com o pescoço semi-estendido e o bico entreaberto por alguns minutos.

Quem me conhece, sabe que não sou fresco para comer, aliás, considero-me o oposto disso, pois nestas viagens já desafiei meu estômago a níveis extremos, e sempre sem grandes problemas. Entretanto, confesso que voltei desta viagem com um pouco de aversão a frango... De maneira geral, a grande maioria dos países latino americanos que visitei no último semestre consome frango em níveis extraordinário. É frango por toda parte, especialmente nos restaurantes, fast-foods, barraquinhas nas ruas, e por aí vai... Muito mais do que carne bovina, por exemplo. Em alguns países, até no Mc Donald’s tem frango frito em pedaços, estilo KFC. Até aí tudo bem, pois sempre considerei o frango algo relativamente seguro, e até gosto, embora não morra de amores, de modo que seria incapaz de colher uma lágrima caso um dia a espécie entrasse para a lista dos animais em extinção. Porém, nesta viagem especificamente (e não quero generalizar falando no país, pois imagino que tenha sido algo relacionado às regiões que visitei), tive más experiências com esta fonte de proteína animal. Não me refiro unicamente ao episódio do Tuiuiú (apesar de ter sido desagradável), mas sim a questões meramente gastronômicas mesmo...Especialmente o frango desfiado (presente em muitas das iguarias que provei), que dava a impressão de que eles moíam o bicho inteiro (com pés, bico e crina), pois era comum detectar-se corpos de consistência estranha (ou muito duros, como pedaços de ossos, ou moles, como estruturas gelatinosas).... Aconteceu mais de uma vez, em diferentes lugares... Resultado: fiquei sem querer ver frango por algum tempo após meu retorno.

Após o bucólico café-da-manhã com os porcos selvagens e o Tuiuiú, deixamos uma das caminhonetes (felizmente não aquela em que rodávamos) para arrumar em uma oficina que tinha telhado de sapê (como grande parte das edificações naquela região), o que nos tomou umas boas três horas. Neste ínterim, para fazer hora e espantar o frio (pois quanto mais tempo passávamos dentro do carro, melhor, pois ao menos tínhamos ar quente), demos um pulo no “Mercado Municipal” da província de Santa Rosa de Yacuma... Nada mais era do que uma construção similar a uma velha escola (pequena), com uma entrada para um pátio ao ar-livre, ao redor do qual havia pequenas tendas que vendiam toda sorte de bugigangas possível. Numa delas, embrenhou-se meu guia boliviano, que dali saiu com duas pequenas latas redondas nas mãos, tendo uma delas sido entregue a mim, como algo que serviria como “fonte de energia para espantar o frio”... Nada mais era do que uma pequena lata de leite condensado (menor do que estas com as quais estamos acostumados), que seria sorvida através de dois orifícios que ele tratou de fazer com a lâmina de seu canivete (levemente enferrujada, evidentemente). Tentei evitar pensamentos como o de ratos transitando pelas latas, já que não tínhamos onde higienizá-las antes de literalmente “meter a boca”, e até que seu conteúdo não era ruim... Eu teria ficado mais satisfeito com o “presente”, não fosse o fato de que ao virar a lata, já no final, para dar umas batidinhas e tentar aproveitar ao máximo o seu conteúdo, constatei a seguinte gravação (dessas que se faz a laser, com o lote e a data de validade): VAL: FEV/2010 (ou seja, vencida havia 5 meses)... Confesso que não fiquei muito preocupado (só um pouco), pois sempre considerei o tema validade um “tabu”, de modo que não tive grandes complicações com isto.

O conserto ficou pronto, e seguimos viagem, agora com uma das caminhonetes com tração 4 x 2 (o mecânico teve de desativar a 4 x 4 por motivos que confesso não haver entendido, mas foi a única saída para que pudéssemos seguir adiante). Em condições normais, isto não seria um problema, porém, “condições normais” foi o que menos vimos durante toda a viagem, já que junto com o frio, veio também uma chuva não muito forte, porém, constante, que deixou as estradas ainda mais intransitáveis. E assim seguimos, ou seja, de forma quase intransitável, rumo ao próximo povoado... As caminhonetes “dançavam” na estrada, saíam de traseira, e a outra (que estava sem tração dupla), chegou a rodar e sair da estrada três vezes...Mas pelo menos chegamos (atrasadíssimos), demos a palestra, e deixamos o local, rumo novamente a Trinidad, onde encerraríamos nossa turnê... Já eram umas 20h30 quando resolvemos pegar a estrada, e isso não nos preocupou muito, pois Trinidad estava a aproximadamente 2 horas dali....Novamente, “em condições normais”... Foi aí que a coisa complicou. Toda a dificuldade que pegamos para chegar até ali foi intensificada, pois agora estava escuro e a “pista” estava mais molhada.

Este trecho da viagem foi o mais tenso... Os carros “dançavam” ainda mais, só que agora um atolamento poderia significar ter de passar a noite ali mesmo, já que o celular não tinha sinal, estava um breu total, e fazia um frio “n” vezes pior. Documentei tudo por meio de fotos e vídeos para não me passar por exagerado (bom, no quesito “frio” terei de lançar mão da minha credibilidade mesmo). A tração 4 x 2 de nosso companheiro de trilha aguentou até onde podia, mas não teve jeito...Acabaram atolando.Na verdade, o que aconteceu foi que a quantidade de barro acumulado nas rodas dianteiras foi tamanha, que elas não mais viravam para nenhum lado, o que impossibilitou que eles seguissem viagem... A “sorte”(se é que ainda cabia utilizar este termo) foi que nós ainda tínhamos nossa 4 x 4, de modo que antes que nos déssemos por vencidos, lançamos mão do último recurso disponível: tentar rebocá-los. Descemos do carro para avaliar a questão, e neste momento eu estaria mentindo se dissesse que tomei parte do planejamento e execução desta empreitada... Desci do carro pelo tempo suficiente para tirar umas 3 fotos, quase perder o sapato no barro, e pular novamente para dentro, pois o frio estava simplesmente insuportável (no sentido mais simples e literal da palavra, ou seja, não era possível suportá-lo). O reboque aparentemente deu certo, e fomos seguindo viagem, todos muito apreensivos, evidentemente. Entretanto, nem preciso dizer que a viagem que deveria durar aproximadamente 2 horas, durou 4h30 em virtude das adversidades.

Quando nos vemos em situações deste tipo, é comum que nos agarremos a pensamentos consoladores, como por exemplo: “mal posso esperar para chegar ao hotel, tomar um banho quente e deitar numa cama”... Mas infelizmente, mais uma vez, expectativas frustradas...O atraso no percurso nos custou caro... Ao chegarmos a um ponto no qual deveríamos cruzar um rio de balsa (e aqui se você está imaginando uma balsa do tipo Santos-Guarujá, pode parar, e imaginar um emaranhado de tábuas que são empurradas por um barquinho a motor, pois nem mobilidade própria elas têm), deparamo-nos com alguns carros parados, e nenhuma movimentação aparente, exceto nas cabanas que circundavam a área (de paredes de barro e telhado de palha), onde vivem os balseiros (“pontoneros”). Por ali se podiam ver alguns pontos de luminescência que indicavam fogo, ao redor do qual se amontoavam pequenos grupos de pessoas. Um dos membros de nossa comitiva dirigiu-se a uma destas cabanas, e ingenuamente sentou-se próximo a uma das fogueiras, sendo então imediatamente questionado: “E você, o que quer aqui?”. Ele, assustado, tratou logo de explicar que só estava se aquecendo um pouco, e então lhe exigiram 10 pesos (menos de R$ 3) como taxa de contribuição para o álcool (combustível das fogueiras). Um belo sinal de solidariedade e hospitalidade.
Estranhei a falta de movimentação nas balsas, e confesso que acreditei até o final que iríamos atravessar o rio, negando a realidade que já era aceita pela maioria: teríamos de passar a noite ali...No carro, à beira do rio. O fato é que era uma sexta-feira, e como demoramos muito para chegar até ali (em função dos atoleiros, reboque, etc), chegamos depois da meia-noite, e os caras já se haviam decretado “off-duty”, e pior, estavam todos bêbados, celebrando ao redor do fogo... Ok, hoje eu concordo que talvez tenha sido melhor eles não terem nos atravessado mesmo...Pois aquelas balsas já são suficientemente perigosas durante o dia e com seus “pilotos” sóbrios. Mas que na hora eu queria ter atravessado a qualquer custo, ah isso eu queria... Literalmente “a qualquer custo”, porque chegamos a oferecer o dobro do valor para que abrissem uma exceção, mas foi em vão...A propósito, o valor por carro é de aproximadamente USD 7,00.

A noite à beira do rio foi acima de tudo, e como não poderia deixar de ser, muito fria. Dormimos três pessoas por carro, alternando períodos de sono com momentos de vigília, causadas ora pelo frio extremo que nos despertava e fazia com que ligássemos a calefação do veículo (que não poderíamos deixar ligada 100% do tempo), ora pelo simples desconforto físico mesmo. Isso sem falar na fome e sede, pois não tínhamos provisões, exceto por algumas latas de cerveja que não sei como, alguns de nossos companheiros conseguiram comprar dos habitantes locais, e que tinham odor de peixe (as latas), provavelmente por estarem jogadas em alguma caixa de isopor sabe Deus com o que mais... Esta questão da fome não foi um problema muito grande para os demais, haja vista que eu era o único brasileiro a bordo da expedição, sendo por isso, o único que não cultivava o hábito de mascar folhas de coca (“bolear” ou “coquear” como eles dizem), hábito que apesar de repugnante, tem lá suas vantagens, já que supostamente tira a fome e o sono. Mas ainda assim, preferi não aderir a ele, e continuar a ser o único a não protagonizar a cena de ter uma das bochechas cheia, e ficar cuspindo a cada cinco minutos. Enfim, amanheceu, e por volta das 6h30 – 7h eu decidi que não ia mais tentar dormir, e iria sustentar-me pela esperança de que a qualquer momento iríamos sair dali, e aí sim, seguir viagem até Trinidad (faltava só mais meia-hora) e então, QUEM SABE (a esta altura eu já estava bem mais realista), tomar um banho quente e deitar numa cama... Mas antes de atravessar o rio, tínhamos de esperar a boa vontade dos pontoneros em acordar, curar um pouco da ressaca e começarem a trabalhar...O que só aconteceu por volta de 9h30, quando finalmente estávamos do outro lado. A travessia também tem lá suas emoções... A balsa é muito precária, e aparentemente não preparada para carregar duas caminhonetes cabine dupla...Tal como já mencionei anteriormente, é impressionante como nestas situações nossa mente trabalha em função de nossa sobrevivência...A primeira coisa que fiz quando embarcamos, foi desatar o cinto de segurança e abrir o vidro do carro...O raciocínio era simples: “Bom, se essa merda virar, pelo menos eu tenho uma chance de sair pelo vidro, se não morrer de hipotermia...”.

Chegando a Trinidad, tomamos mais um “rico” café-da-manhã a base de duas salteñas e uma coca-cola, sendo estas primeiras nada mais do que uma variedade de empanada, porém, com recheio líquido (como uma sopa, tanto é que são servidas acompanhadas de uma colherzinha) e muito picante (opção minha), indo posteriormente para o hotel... A essa altura eu já estava acostumado (com o “couro” insensibilizado), e quase não me queixei de mais um banho gelado (sendo que neste momento o frio estava mais insuportável do que nunca). Na verdade, cabe um comentário sobre os banhos frios, para que não pensem que estou exagerando. Nem sempre o problema eram chuveiros que não funcionavam... Na maioria das vezes, o mesmo dava sinais de que estava se esforçando para aquecer a água, mas o frio era tamanho, e tão pouco frequente, que o aparelho simplesmente não dava conta...Imaginem um chuveiro que convive durante mais de 355 dias ao ano com extremo calor, vendo-se agora diante de uma situação totalmente atípica...Ele mudava sim, a temperatura da água, transformando-a de gelada-cortante para fria (o que constatei após realizar um teste desligando o chuveiro e avaliando a diferença que faria...Doeu, mas pelo menos provei minha teoria).

Finalmente, nos últimos 3 dias de viagem, consegui encontrar uma pequena “tienda” para comprar algumas roupas...Algo interessante sobre o frio, é que a necessidade de combatê-lo é soberana aos conceitos de moda, e até mesmo de vergonha, de modo que muitas vezes as pessoas saem na rua como se houvessem mergulhado dentro de seus guarda-roupas e saído imediatamente com o que conseguiram pegar, e não são julgadas por isso, em nome da compreensão alheia. Com base nesta premissa, comprei algumas coisas que jamais usaria em situações ordinárias... Além do gorro e luvas de lã pretos (minha única chance de fazer uma combinação) que eu já havia comprado, a agradável vendedora (que falava português, pois trazia roupas do Brás, em SP), conseguiu empurrar-me um colete de lã quadriculado de marrom e creme, que talvez algum dia eu possa voltar a usar caso vá a algum baile à fantasia como “tabuleiro de damas”, um casaco de moletom (até que razoável), e uma calça jeans (ok, esta foi por impulso, pois era Levis original e estava baratinha). TUDO isso o que citei (exceto a calça) fazia parte de meu uniforme diário de trabalho, somado a minha jaqueta (aquela “meia estação”). Ou seja, a partir deste ponto, todos os dias eu saí do hotel vestindo: camiseta por baixo, camisa de manga longa, agasalho de moletom, colete de lã, jaqueta, gorro e luvas. Sendo que em duas das noites, eu dormi praticamente do mesmo jeito...Apenas tirando cinto, sapatos e jaqueta...

Já nos aproximando do final da epopéia, voltamos de Trinidad para Santa Cruz de la Sierra, que para quem não lembra, é aquele trecho de oito horas de viagem (primeira noite), só que agora realizada durante o dia... Neste percurso, dois fatos merecem destaque...O primeiro deles, foi que depois de tudo o que passamos, a caminhonete (agora a nossa mesmo, já que a outra nau e seus tripulantes pararam em Trinidad) começou a apresentar sinais de mal funcionamento...Engasgava, falhava e quase parava...Até que por duas vezes chegou mesmo a parar... Era irônico...Depois de tanto barro, parece que quando fomos para o asfalto ela pediu arrego...Saudades da lama? Ou aguentou até onde pôde para então desabar..? Nem uma coisa nem outra...O problema foi combustível de má qualidade...Gasolina “batizada”....Um dos muitos produtos brasileiros exportados para a Bolívia (ok, nem toda gasolina ruim da Bolívia é brasileira, mas sim parte dela). Depois de alguns instantes parados, o motor aparentemente se recompôs e seguimos viagem (ainda dando alguns trancos, mas conseguimos chegar). O outro evento inusitado deste trecho final da viagem foi mais triste... Estávamos em uma reta, desenvolvendo certa velocidade, e eis que a alguns metros a frente surge um tatu com a intenção de atravessar a pista... Ingenuamente bem intencionado, e em prol da integridade de tão carismático animal, alertei meu piloto (eu era o navegador), que no mesmo momento adotou uma medida que achei no mínimo, inesperada: afundou o pé no acelerador, e ao contrário do que seria plausível, ou seja, com a intenção de evitar a colisão, direcionou a frente do veículo em um ângulo que, se não me enganaram nas aulas de física, resultaria em uma trajetória que dentro de poucos segundos coincidiria com a da vítima. Dito e feito. Um pequeno solavanco associado a um som abafado indicavam que havíamos atropelado a criatura... Imediatamente, o rapaz encostou o carro no acostamento, e então pensei que talvez por preocupação (ou quem sabe até arrependimento), ele verificaria qual teria sido o dano real causado, mas diferentemente disso, ele correu até o local, tratou de apanhar sua presa pelo rabo (que ou ainda não estava morta, ou estava sofrendo espasmos musculares post mortem, já que ainda havia certo movimento em seus membros inferiores), inspecionou-o, perguntando-me se eu tinha algum saco plástico para que ele pudesse levar o bicho para casa, a fim de utilizá-lo para presentear um amigo que era um grande apreciador de suas propriedades gastronômicas. Pois bem, tendo atirado o cadáver na caçamba da caminhonete, seguimos viagem... Ao chegar a Santa Cruz já durante a noite, e mais uma vez, estando eu louco para chegar ao hotel, tive ainda que presenciar a cena da entrega do tão esperado presente, realizada na rua, em frente à casa do sortudo contemplado. Este por sua vez, agarrou (também pela cauda) o futuro banquete, inspecionou-o atentamente, e concluiu: Aquilo não era um tatu...Era o que eles chamam de “Peji”...Outro animal muito semelhante (porém de outra espécie), e que portanto, não se prestava como iguaria...Muito pelo contrário...Era incomível, pois segundo o inspetor da carcaça, ele se alimenta de bichos mortos...Resultado: imediatamente, sem sequer ser retirado de sua mortalha (sacolinha de supermercado), o defunto foi atirado na lixeira da casa, ali na calçada mesmo....Pobre animal...Mal sabe o quão em vão foi sua morte...

Enfim, chegamos ao hotel de Santa Cruz (supostamente a melhor cidade da Bolívia), e fiquei contente em constatar que o mesmo dispunha de uma estrutura até então jamais vista durante o período da viagem (cortina no banheiro, frigobar, internet wireless, etc). Entretanto, isso não foi suficiente para afastar a grande “maldição” da viagem...Ao ligar o chuveiro: frio... Confesso ter chegado a pensar que talvez fosse um problema MEU...Sei lá, de repente os sensores de temperatura de minha pele tivessem sido irreversivelmente afetados pelo frio intenso e eu não mais seria capaz de distinguir água fria de quente... Mas como já me tornara expert em tomar banhos frio no inverno, resolvi fazê-lo mais uma vez ao invés de reclamar, pois isto me tomaria muito tempo e desgaste, sendo que o que eu mais queria era terminar logo aquela noite e enfiar-me em baixo dos três cobertores, sendo que os dois extras foram uma solicitação minha ao hotel. Ok, eu me enfiei sob dois deles, pois um era para forrar a cama por baixo.

No dia seguinte, para a minha plena felicidade, eu voltaria ao Brasil... Acordei, e resolvi arriscar um novo banho, afinal, eu esperava que o sol da manhã ajudaria a minimizar o sofrimento de mais um processo de semi-congelamento. E qual não foi minha surpresa ao encontrar água quente (BEM quente) jorrando da ducha...A ponto de eu ter de “temperar” com a fria para não me escaldar... Neste caso, entendi o que aconteceu...Tratava-se de um hotel antigo, daqueles em que água quente é um recurso findável, ou seja, no caso de haver muitas pessoas tomando banho ao mesmo tempo, ou então se é tarde da noite e muitos já o fizeram, a água quente simplesmente acaba, sendo necessário esperar até que o aquecedor (a gás na maioria das vezes) trabalhe em sua reposição....Por isso a diferença entre os banhos da noite e da manhã seguinte....Foi irônico... O ÚLTIMO banho naquele país TINHA que ser o mais quente e agradável...E eu não poderia sequer aproveitá-lo melhor, já que estava com hora marcada para sair para o aeroporto para não perder o vôo...Senti-me como aquelas pessoas que passam 10 dias num resort maravilhoso debaixo da maior chuva, e no último dia, na hora de ir embora sai o sol (tinha até um comercial de televisão que falava sobre isso).

Este foi o relato de mais uma aventura, dedicado àquelas pessoas que pensam que vida de viagens internacionais é sinônimo de glamour... Pessoas que ao escutarem que eu estaria indo para a Bolívia, chegaram a me dizer: “Que chique”... Sim...MUY Chique...

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