Seguindo a temática dos “contos” de viagens, aproveito para postar um (nem tão) breve relato sobre minha última passagem pela Guatemala, que apesar de ter ocorrido cronologicamente anterior à da Bolívia, ficou para ser “publicada” só agora, antes que a inspiração (e o tempo livre) para escrever se esgotassem novamente.
O texto é mais curto do que o anterior (ufa!), até porque estamos falando de uma viagem de cerca de três dias (curta, mas intensa). Mas como de costume, o grau de “inusitabilidade” de alguns fatos faz com que seja justificável o seu relato.
Chegamos à cidade da Guatemala num sábado à noite (via aérea, depois de uma semana na Costa Rica), sendo que na manhã seguinte deveríamos nos dirigir para outra cidade que fica a cerca de 300 km dali. A idéia inicial era que nosso cliente(distribuidor) enviasse um de seus empregados para nos buscar, porém, a pessoa que me acompanhava (como de praxe, nosso gerente local), em meio a um acesso de amabilidade, declinou a oferta em nome do desgaste que isto causaria a quem quer que fosse nos apanhar, pois estávamos falando de um “bate-volta” de aproximadamente 600 km (contanto ida e volta). Ao invés disso, ele sugeriu que fôssemos por conta própria, já que o mesmo cliente é proprietário da maior empresa de ônibus da região, e poderia nos designar um de seus veículos, sem que sequer precisássemos pagar pela viagem (como se esse fosse o problema...). Afinal, não precisaríamos nos preocupar com nada, já que o ônibus supostamente era “bom”, e iríamos “tranquilos”.GRANDE erro...
Às 5 da manhã do dia seguinte, já estávamos no terminal rodoviário aguardando nosso transporte, e aqui cabe comentar que o grau de “beleza” do lugar e das pessoas ali presentes é proporcionalmente igual ao de qualquer terminal rodoviário do Brasil, de modo que considerando que estávamos na Guatemala, deixo a cargo da imaginação do leitor a visualização da cena. Enquanto eu varria todo o pátio com os olhos em busca de nosso “ônibus bom” e não o encontrava, meu guia, que estava a alguns metros, conversava com um suposto funcionário do lugar, que apontou para um dos veículos que estava estacionado atrás de mim. Voltei-me para o mesmo, e pensei que a única maneira daquilo ser um bom sinal, seria se a pessoa estivesse dizendo algo como:
- “Ah claro, não precisa se preocupar, pois o ônibus de vocês é bom sim..Não é como aquela lata-velha ali atrás, ó...”. Mas infelizmente, o diálogo não foi bem esse...
Montamos no velho coletivo de cor prata, que pelos meus cálculos datava de meados para o fim da década de 70. No dia seguinte, quando me perguntaram se o ônibus “era bom”, eu me vi obrigado a responder que sim, ERA bom...Há uns 30 anos, era... Ao sentar-me, constatei que seria difícil passar as próximas 5 horas ali (duração prevista da viagem), pois eu estava tendo dificuldades em identificar o que me doía mais: as costas, pela dureza do assento, ou o joelho, pela compressão inevitável do encosto da frente.
Montamos no velho coletivo de cor prata, que pelos meus cálculos datava de meados para o fim da década de 70. No dia seguinte, quando me perguntaram se o ônibus “era bom”, eu me vi obrigado a responder que sim, ERA bom...Há uns 30 anos, era... Ao sentar-me, constatei que seria difícil passar as próximas 5 horas ali (duração prevista da viagem), pois eu estava tendo dificuldades em identificar o que me doía mais: as costas, pela dureza do assento, ou o joelho, pela compressão inevitável do encosto da frente.
Iniciada a viagem, pensei em tentar dormir, com a esperança de que as 4 horas de sono da noite anterior superassem quaisquer limitações de conforto físico...Pois quando eu finalmente encontrara uma posição semi-confortável, ou seja, uma angulação mais adequada entre cabeça, costas e pernas (algo que me deixava numa espécie de posição em “Z”), e estava fechando os olhos, pronto para entrar no chamado sono REM (rapid eyes movement, fase mais profunda do sono), eis que cerca de meia poltrona a minha frente (nem sequer uma), no corredor surge (literalmente, pois não vi de onde ele se levantou), um CRENTE daqueles com bíblia em baixo do braço, e começa a berrar sua pregação... É impressionante como independentemente do país e do idioma, a entonação e a oratória desses caras é idêntica. Ele poderia estar pregando em mandarim, e seria possível saber do que se tratava... O interessante é que no meio do sermão, ele começou a bendizer o ônibus e seus componentes...Era algo assim (as letras maiúsculas servem para evidenciar o aumento de intensidade que era dado em algumas sílabas tônicas):
- “Que Deus abençoe este veÍculo para que tenhamos uma viagem tranquila... Que abençoe os pnEUs; Que abençoe o FREio; Que abençoe a embreAgem; Que abençoe o motoRIsta”...
- “Que Deus abençoe este veÍculo para que tenhamos uma viagem tranquila... Que abençoe os pnEUs; Que abençoe o FREio; Que abençoe a embreAgem; Que abençoe o motoRIsta”...
E assim sucessivamente. Confesso que algumas das partes (ou peças) abençoadas eu desconhecia. Mas enfim, pelo menos eu tinha a certeza de que nossa viagem seria segura...Afinal, nosso transporte estava bento dos pneus ao escapamento...Bom, este foi o pensamento otimista, né...Há quem pudesse pensar o contrário, ou seja, que já estávamos purificados e prontinhos para adentrar ao céu de busão e tudo... Mas não foi o caso...
Enfim, tendo terminado sua pregação e coletado seus dízimos, o “irmão” desceu na próxima parada (e aqui cabe ressaltar que foram MUITAS, pois estávamos em sistema “pinga-pinga”, e por isso a viagem demorava tanto), seguimos adiante, e por algum tempo, sem maiores contratempos. Falando nas paradas, estas eram um show à parte, pois a cada vez que encostávamos em algum “pueblo” para pegar gente, éramos cercados por uma infinidade de vendedores de todos os tipos de artigos, desde jornais até os mais variados alimentos, como empanadas (cujos sabores eu não conseguia identificar, pois eram termos novos para mim, como por exemplo, “loroco”, que posteriormente eu descobri tratar-se de um vegetal), frutas PPU (prontas para o uso), ou seja, já picadas em saquinhos plástico, bolos, churrasquinhos de sabe Deus que bicho, e por aí vai... Alguns deles até conseguiam subir no ônibus (não entendi bem o critério desta permissão...Talvez alguns tivessem a sorte de pegar um motorista que fosse fã de loroco e lhe davam um “agrado”), mas a maioria ficava do lado de fora, levantando seus produtos na altura das janelas e ofertando-os aos gritos.
Mais adiante, a nova tentativa de pregar os olhos foi frustrada por uma nova intervenção... Mas desta vez não religiosa, mas sim “científica”. Um homem relativamente bem vestido, de óculos, com uma bolsa a tira-colo similar a estas usadas por propagandistas médicos, só que bem “surrada”, sacou dela um pequeno frasco plástico vermelho que continha pílulas brancas, começou a falar:
- “Talvez isto já tenha acontecido com vocês...Se você se abaixa para fazer algo, levanta-se rápido demais e surgem alguns pontinhos luminosos em sua visão...Isto é falta de vitaminas no cérebro!!”
- “Se você manda seu filho até a venda buscar um saco de farinha e ele volta com um saco de feijão, não bata nele...Isso é falta de vitaminas!!!”
- “ Se você chega em casa, sua esposa tira as suas calças e você adormece...Isso é falta de vitaminas!!!”
E após desferir mais algumas revelações da medicina moderna, começou a oferecer sua solução para todos estes males...Um complexo “vitamínico”, feito a base de compostos “naturais”, com resultados “comprovados”. O mais interessante é que suas técnicas de vendas não eram das piores...Enquanto ele falava, ia distribuindo frascos para que as pessoas os pegassem, manipulassem, vissem de perto...Isso é comprovadamente eficaz (aguçar os sentidos do potencial comprador)...E não é que ao final ele vendeu seus 6 ou 7 frasquinhos?? Até comentei com nosso gerente local, que deveríamos tirar uma lição deste caso, já que ele vendeu mais do que vendem alguns dos membros da equipe do nosso distribuidor... Quem sabe não seria uma boa idéia propormos um ciclo de palestras técnicas dentro do busão durante minha próxima visita...? Aparentemente ele gostou da idéia...A moça que estava do meu lado (do outro lado do corredor) comprou um frasco e depois ficou lá, lendo o rótulo... Fiquei imaginando qual seria o seu problema...Um filho burro, ou um marido brocha...?
Já no trecho final da viagem, resolvi fazer mais uma tentativa de relaxamento, afinal, teríamos um dia cheio pela frente, no qual constava dentre uma das muitas atividades, assistir ao jogo da Argentina x México (pois estávamos em plena Copa do Mundo). Na última parada, eu havia notado que subira uma mocinha que devia ter lá seus 19 anos, e que até era jeitosinha..Magrinha, com uma cara nem tão de índio...Falar que era “bonita” seria forçar demais a barra...Mas em termos relativos, até que não era má....Pois bem...Eis que no exato mesmo ponto em que fizera o anterior, ela se posiciona com sua bíblia na mão, e começa a disparar seu sermão...Eu desacreditei...Aquele ponto, bem ao lado (um pouco à frente) de MINHA poltrona, devia ser o altar do ônibus...De novo ali?? Ela era uma daquelas crentes agressivas, e fazia uma cara de brava que dava medo, sem contar que seu script soava muito mais repreensivo do que o do anterior...Enquanto o outro nos abençoava, o discurso desta era mais do tipo “os pecadores vão para a fogueira” (teria ela lido meus pensamentos quando entrou no ônibus?). E para piorar, o sermão dela era daqueles transmitidos em estéreo... Ou seja, enquanto ela gritava na frente, havia uma espécie de “coadjuvante”, ou “elenco de apoio” lá no fundão, que repetia algumas palavras-chave, ou então falava outras que corroboravam ou reforçavam a idéia principal do texto. Algo como:
-“Aqueles que não seguirem a palavra, sofrerão as consequências!” “(Consequências!!!)”
- “Venham e sigam a palavra!” “(Ainda há tempo!!)”
Que paradoxal, não? Inicialmente abençoados, e no final amaldiçoados...Literalmente, do céu ao inferno em poucos quilômetros.
Cerca de cinco horas após termos saído, chegamos ao ponto final...Um complexo formado por posto de gasolina, restaurante, hotel e loja agropecuária que também pertencem a nosso cliente. Fomos tomar café-da-manhã (típico da América Central: arroz, feijão preto, ovos, carne moída e café-com-leite), enquanto aguardávamos nosso comitê de recepção chegar para nos apanhar.
Antes de descrever sua chegada, convém uma breve introdução sobre alguns aspectos sócio-culturais da Guatemala. Trata-se de um país que sofre muito com a falta de segurança pública. A receita é simples e desastrosa: riqueza polarizada (ou seja, uma maioria MUITO pobre e uma minoria MUITO rica)+ falta de segurança (polícia despreparada e corrupta)+desemprego+acesso ridiculamente fácil a armas de fogo. Resultado: Terra de ninguém. E a minoria muito rica “sofre” com os altos índices de sequestros (principalmente) e assaltos.
Posto isso, eis que chega a nossa “caravana”... Um comboio de três caminhonetes Toyota Hilux brancas, em alta velocidade cruzaram o posto de gasolina até o restaurante onde estávamos. Delas desceram cerca de 8 pessoas, dentre as quais, duas eram nossos clientes (o distribuidor e seu irmão, sendo suas idades 26 e 17 respectivamente), e os demais, seguranças armados com pistolas, que rapidamente se espalham pelo perímetro do lugar, e muito simpáticos e prestativos, já pegaram nossas malas e trataram de carregá-las até os carros, enquanto cumpríamos os usuais rituais de saudação. E se você está imaginando “seguranças” mais ou menos como o Kevin Costner em “O Guarda-Costas”, pode desencanar, ,e imaginar uns caras mau encarados, com camisas xadrez, botina e chapéu. Ao entrar no carro para seguir viagem, já notei algo diferente...O peso e a espessura das portas indicavam que estávamos envoltos por uma blindagem Nível 5, ou seja, uma das mais fortes do mercado, daquelas que seguram até granadas e minas terrestres. Íamos meu guia e eu no banco traseiro, e no dianteiro, nossos clientes. Entre eles, próximo de onde se engatam os cintos de segurança, havia duas pistolas Glock calibre .40 (uma de cada um deles), alocadas em uma espécie de suporte próprio para este fim. Éramos o carro do meio no comboio, indo sempre um na frente e outro atrás. Inicialmente, toda esta movimentação pode parecer estranha, mas depois nos acostumamos...
Enfim, tendo terminado sua pregação e coletado seus dízimos, o “irmão” desceu na próxima parada (e aqui cabe ressaltar que foram MUITAS, pois estávamos em sistema “pinga-pinga”, e por isso a viagem demorava tanto), seguimos adiante, e por algum tempo, sem maiores contratempos. Falando nas paradas, estas eram um show à parte, pois a cada vez que encostávamos em algum “pueblo” para pegar gente, éramos cercados por uma infinidade de vendedores de todos os tipos de artigos, desde jornais até os mais variados alimentos, como empanadas (cujos sabores eu não conseguia identificar, pois eram termos novos para mim, como por exemplo, “loroco”, que posteriormente eu descobri tratar-se de um vegetal), frutas PPU (prontas para o uso), ou seja, já picadas em saquinhos plástico, bolos, churrasquinhos de sabe Deus que bicho, e por aí vai... Alguns deles até conseguiam subir no ônibus (não entendi bem o critério desta permissão...Talvez alguns tivessem a sorte de pegar um motorista que fosse fã de loroco e lhe davam um “agrado”), mas a maioria ficava do lado de fora, levantando seus produtos na altura das janelas e ofertando-os aos gritos.
Mais adiante, a nova tentativa de pregar os olhos foi frustrada por uma nova intervenção... Mas desta vez não religiosa, mas sim “científica”. Um homem relativamente bem vestido, de óculos, com uma bolsa a tira-colo similar a estas usadas por propagandistas médicos, só que bem “surrada”, sacou dela um pequeno frasco plástico vermelho que continha pílulas brancas, começou a falar:
- “Talvez isto já tenha acontecido com vocês...Se você se abaixa para fazer algo, levanta-se rápido demais e surgem alguns pontinhos luminosos em sua visão...Isto é falta de vitaminas no cérebro!!”
- “Se você manda seu filho até a venda buscar um saco de farinha e ele volta com um saco de feijão, não bata nele...Isso é falta de vitaminas!!!”
- “ Se você chega em casa, sua esposa tira as suas calças e você adormece...Isso é falta de vitaminas!!!”
E após desferir mais algumas revelações da medicina moderna, começou a oferecer sua solução para todos estes males...Um complexo “vitamínico”, feito a base de compostos “naturais”, com resultados “comprovados”. O mais interessante é que suas técnicas de vendas não eram das piores...Enquanto ele falava, ia distribuindo frascos para que as pessoas os pegassem, manipulassem, vissem de perto...Isso é comprovadamente eficaz (aguçar os sentidos do potencial comprador)...E não é que ao final ele vendeu seus 6 ou 7 frasquinhos?? Até comentei com nosso gerente local, que deveríamos tirar uma lição deste caso, já que ele vendeu mais do que vendem alguns dos membros da equipe do nosso distribuidor... Quem sabe não seria uma boa idéia propormos um ciclo de palestras técnicas dentro do busão durante minha próxima visita...? Aparentemente ele gostou da idéia...A moça que estava do meu lado (do outro lado do corredor) comprou um frasco e depois ficou lá, lendo o rótulo... Fiquei imaginando qual seria o seu problema...Um filho burro, ou um marido brocha...?
Já no trecho final da viagem, resolvi fazer mais uma tentativa de relaxamento, afinal, teríamos um dia cheio pela frente, no qual constava dentre uma das muitas atividades, assistir ao jogo da Argentina x México (pois estávamos em plena Copa do Mundo). Na última parada, eu havia notado que subira uma mocinha que devia ter lá seus 19 anos, e que até era jeitosinha..Magrinha, com uma cara nem tão de índio...Falar que era “bonita” seria forçar demais a barra...Mas em termos relativos, até que não era má....Pois bem...Eis que no exato mesmo ponto em que fizera o anterior, ela se posiciona com sua bíblia na mão, e começa a disparar seu sermão...Eu desacreditei...Aquele ponto, bem ao lado (um pouco à frente) de MINHA poltrona, devia ser o altar do ônibus...De novo ali?? Ela era uma daquelas crentes agressivas, e fazia uma cara de brava que dava medo, sem contar que seu script soava muito mais repreensivo do que o do anterior...Enquanto o outro nos abençoava, o discurso desta era mais do tipo “os pecadores vão para a fogueira” (teria ela lido meus pensamentos quando entrou no ônibus?). E para piorar, o sermão dela era daqueles transmitidos em estéreo... Ou seja, enquanto ela gritava na frente, havia uma espécie de “coadjuvante”, ou “elenco de apoio” lá no fundão, que repetia algumas palavras-chave, ou então falava outras que corroboravam ou reforçavam a idéia principal do texto. Algo como:
-“Aqueles que não seguirem a palavra, sofrerão as consequências!” “(Consequências!!!)”
- “Venham e sigam a palavra!” “(Ainda há tempo!!)”
Que paradoxal, não? Inicialmente abençoados, e no final amaldiçoados...Literalmente, do céu ao inferno em poucos quilômetros.
Cerca de cinco horas após termos saído, chegamos ao ponto final...Um complexo formado por posto de gasolina, restaurante, hotel e loja agropecuária que também pertencem a nosso cliente. Fomos tomar café-da-manhã (típico da América Central: arroz, feijão preto, ovos, carne moída e café-com-leite), enquanto aguardávamos nosso comitê de recepção chegar para nos apanhar.
Antes de descrever sua chegada, convém uma breve introdução sobre alguns aspectos sócio-culturais da Guatemala. Trata-se de um país que sofre muito com a falta de segurança pública. A receita é simples e desastrosa: riqueza polarizada (ou seja, uma maioria MUITO pobre e uma minoria MUITO rica)+ falta de segurança (polícia despreparada e corrupta)+desemprego+acesso ridiculamente fácil a armas de fogo. Resultado: Terra de ninguém. E a minoria muito rica “sofre” com os altos índices de sequestros (principalmente) e assaltos.
Posto isso, eis que chega a nossa “caravana”... Um comboio de três caminhonetes Toyota Hilux brancas, em alta velocidade cruzaram o posto de gasolina até o restaurante onde estávamos. Delas desceram cerca de 8 pessoas, dentre as quais, duas eram nossos clientes (o distribuidor e seu irmão, sendo suas idades 26 e 17 respectivamente), e os demais, seguranças armados com pistolas, que rapidamente se espalham pelo perímetro do lugar, e muito simpáticos e prestativos, já pegaram nossas malas e trataram de carregá-las até os carros, enquanto cumpríamos os usuais rituais de saudação. E se você está imaginando “seguranças” mais ou menos como o Kevin Costner em “O Guarda-Costas”, pode desencanar, ,e imaginar uns caras mau encarados, com camisas xadrez, botina e chapéu. Ao entrar no carro para seguir viagem, já notei algo diferente...O peso e a espessura das portas indicavam que estávamos envoltos por uma blindagem Nível 5, ou seja, uma das mais fortes do mercado, daquelas que seguram até granadas e minas terrestres. Íamos meu guia e eu no banco traseiro, e no dianteiro, nossos clientes. Entre eles, próximo de onde se engatam os cintos de segurança, havia duas pistolas Glock calibre .40 (uma de cada um deles), alocadas em uma espécie de suporte próprio para este fim. Éramos o carro do meio no comboio, indo sempre um na frente e outro atrás. Inicialmente, toda esta movimentação pode parecer estranha, mas depois nos acostumamos...
Todo o restante da viagem ocorreu seguindo a mesma dinâmica, ou seja, em cada lugar onde parávamos, desciam antes os “jagunços” que se distribuíam pelo local, sendo que no mínimo dois deles sempre ficavam próximos a nós... Otimista e bem humorado por natureza, preferi pensar que tudo isso seria um bom treinamento para que eu já fosse me acostumando com uma futura vida no universo dos ricos e famosos...
Como eu disse, com o passar dos dias fomos nos acostumando a esta rotina...Até fiz “amizade” com a maioria dos seguranças, o que era inevitável, pois eles não nos deixavam por um minuto sequer...Foram três dias indo para cima e para baixo com os caras, comendo juntos, ficando nos mesmos hotéis, etc. Como entusiasta das armas que sou, já conversávamos livremente sobre o tema, e eles até me deixavam manusear seus pequenos arsenais (o que me causaria certa preocupação com impressões digitais nas armas e munições no caso de um eventual assassinato, não fosse o fato de estarmos num país sem lei). Foi numa destas conversas que me explicaram algo sobre como funciona a política de armas naquele país. Ao contrário do que eu esperava encontrar (baseado no que me disseram pessoas que já haviam estado lá), eles praticamente só portavam pistolas, sendo 90% delas calibre 40... Isso porque recentemente houve uma mudança na legislação no que se refere ao porte de armas (como eles são civilizados...) de maneira que o porte propriamente dito (ou seja, carregar consigo nas ruas, no carro, etc) só é permitido para armas “de mão”. Ou seja, nada mais de fuzis, escopetas ou submetralhadoras...Estas agora só são permitidas dentro de casa ou de estabelecimentos comerciais (isso explica eu ter visto uma ou outra calibre 12 atrás de portas e embaixo de balcões de lojas). Por isso, nas ruas, carros e cinturões, só pistolas ou revólveres (raros). As armas são vendidas em lojas convencionais mesmo..Nada de grandes estabelecimentos específicos e controlados, mas sim lojinhas de rua...São muito comuns as placas de “Armeria” em toda parte. Nelas, você pode comprar a arma apresentando um documento de identificação (mesmo sendo estrangeiro), e na própria loja já fazer NA HORA, sua licença para portá-la. Mas calma lá que nem tudo é tão bagunçado assim! Existe certa organização...Há um limite. Cada pessoa pode portar até no máximo 3 pistolas, e comprar MENSALMENTE “apenas” 250 cartuchos ou balas. Diferentemente do que acontecia há até uns 2 anos atrás, quando era tudo liberado...Fuzis e armamento pesado nas ruas, sem limite de munições (exceto o limite financeiro de cada um).
Como eu disse, com o passar dos dias fomos nos acostumando a esta rotina...Até fiz “amizade” com a maioria dos seguranças, o que era inevitável, pois eles não nos deixavam por um minuto sequer...Foram três dias indo para cima e para baixo com os caras, comendo juntos, ficando nos mesmos hotéis, etc. Como entusiasta das armas que sou, já conversávamos livremente sobre o tema, e eles até me deixavam manusear seus pequenos arsenais (o que me causaria certa preocupação com impressões digitais nas armas e munições no caso de um eventual assassinato, não fosse o fato de estarmos num país sem lei). Foi numa destas conversas que me explicaram algo sobre como funciona a política de armas naquele país. Ao contrário do que eu esperava encontrar (baseado no que me disseram pessoas que já haviam estado lá), eles praticamente só portavam pistolas, sendo 90% delas calibre 40... Isso porque recentemente houve uma mudança na legislação no que se refere ao porte de armas (como eles são civilizados...) de maneira que o porte propriamente dito (ou seja, carregar consigo nas ruas, no carro, etc) só é permitido para armas “de mão”. Ou seja, nada mais de fuzis, escopetas ou submetralhadoras...Estas agora só são permitidas dentro de casa ou de estabelecimentos comerciais (isso explica eu ter visto uma ou outra calibre 12 atrás de portas e embaixo de balcões de lojas). Por isso, nas ruas, carros e cinturões, só pistolas ou revólveres (raros). As armas são vendidas em lojas convencionais mesmo..Nada de grandes estabelecimentos específicos e controlados, mas sim lojinhas de rua...São muito comuns as placas de “Armeria” em toda parte. Nelas, você pode comprar a arma apresentando um documento de identificação (mesmo sendo estrangeiro), e na própria loja já fazer NA HORA, sua licença para portá-la. Mas calma lá que nem tudo é tão bagunçado assim! Existe certa organização...Há um limite. Cada pessoa pode portar até no máximo 3 pistolas, e comprar MENSALMENTE “apenas” 250 cartuchos ou balas. Diferentemente do que acontecia há até uns 2 anos atrás, quando era tudo liberado...Fuzis e armamento pesado nas ruas, sem limite de munições (exceto o limite financeiro de cada um).
Pois bem, em meio a este velho-oeste centro-americano, confesso que tivemos apenas dois momentos de maior tensão (afinal, como eu disse, por mais estranho que possa parecer, em meio a tanta proteção acabávamos por nos sentir “seguros”...A não ser é claro, em caso de um eventual fogo cruzado, no qual uma falta de sorte poderia fazer com que sobrasse algo para nosso lado). Um destes momentos foi até engraçado (depois que passou, claro). Estávamos abastecendo o comboio num posto de gasolina em um povoado considerado “perigoso” (sim, o país todo é, mas para que eles próprios falassem assim já dá para imaginar, né...). Território dos “Zetas”, grupo delinquente de origem mexicana com presença em outros países, que está envolvido em praticamente tudo o que é de ruim na região (sequestros, assaltos, roubos, e por aí vai). Como de costume, todos os seguranças estavam fora dos carros, rondando a área, com as mãos nas cinturas, “ready for action”, quando repentinamente entrou no posto uma caminhonete com certa velocidade (qualquer carro um pouco mais rápido já causava suspeita e provocava a reação “mão na cintura”), e ao entrar, passou em cima de uma daquelas enormes chapas de aço usadas para tapar buracos, provocando um forte estrondo (“BLAM!”), e fazendo com que TODAS as armas fossem sacadas ao ar... Foi tudo muito rápido, e logo viram que não se tratava de nenhuma ameaça real, mas até aí, deu para dar uma aceleradinha nos BPM... O outro momento foi um pouco mais tenso, e ironicamente, envolveu a polícia. Ao visitar um cliente (loja), cumprimos o protocolo padrão, ou seja, 3 caminhonetes brancas com vidros totalmente escuros chegando em comboio, das quais desceram cerca de 10 homens armados. Apesar da “normalidade”, a movimentação gerou desconfiança no povoado (pois não era necessário muito esforço para perceber que não éramos habitantes locais), e alguém acionou a polícia. Estávamos dentro da loja, conversando com o proprietário (um tiozinho que também exibia sua Glock .40 na cintura, com extensor de pente, que serve para aumentar a capacidade de disparos em 7 a 8 balas a mais, afinal, 14 balas mais 1 na agulha podem não ser suficientes), quando percebo uma movimentação estranha. O senhorzinho parou de falar, e com um semblante sério, olhou fixamente para fora, e ao me virar, vi um caminhão negro da polícia estacionando, e dele descendo cerca de 15 homens, e estes sim, pesadamente armados (fuzis). Houve uma certa agitação por parte dos seguranças, e confesso ter ficado um pouco apreensivo, pois não sabia até que ponto todas aquelas armas estavam dentro da normalidade, e nessas horas, ser um estrangeiro pode complicar ainda mais uma situação já delicada. Todos foram para fora, os policiais checaram os carros, vi que conversavam civilizadamente e fiquei mais tranquilo. Chamaram-me para fora também, para que me apresentasse aos policiais, mostrasse passaporte, enfim, para que vissem que não havia nada de errado...Até que eles foram embora, e o proprietário (amigo do nosso distribuidor) pediu-nos gentilmente que numa próxima visita tentássemos vir em um ou no máximo dois carros para não chamar muito a atenção...Sim, são os CARROS que chamam a atenção, e não as mais de 15 pistolas...Enfim, cultura é cultura...
Como uma espécie de “epílogo” do texto, retorno para aquele formato no qual foi originado o Blog, ou seja, algo mais “cabeça”, deixando um pouco de lado a narrativa irônica para tratar de um tema mais sério sobre o qual refleti durante esta viagem: A banalização da vida humana naquele lugar. Sei que infelizmente não precisamos ir longe para vê-la, pois ao contrário do que muitos pensam (ou acreditam), temos realidades muito semelhantes bem mais próximas a nós (nas periferias das grandes cidades, por exemplo). As histórias envolvendo mortes de pessoas são tão comuns, que soam como qualquer outro tipo de relato... A maioria das pessoas com as quais andei durante estes dias, efetivamente já matou alguém (ou MUITOS “alguéns”, no caso de alguns deles). Histórias de brigas e desavenças que acabaram em mortes são contadas sem a menor variação no tom de seriedade ou gravidade. Fazem parte da “cultura” (se é que este é o termo) deles.
Como uma espécie de “epílogo” do texto, retorno para aquele formato no qual foi originado o Blog, ou seja, algo mais “cabeça”, deixando um pouco de lado a narrativa irônica para tratar de um tema mais sério sobre o qual refleti durante esta viagem: A banalização da vida humana naquele lugar. Sei que infelizmente não precisamos ir longe para vê-la, pois ao contrário do que muitos pensam (ou acreditam), temos realidades muito semelhantes bem mais próximas a nós (nas periferias das grandes cidades, por exemplo). As histórias envolvendo mortes de pessoas são tão comuns, que soam como qualquer outro tipo de relato... A maioria das pessoas com as quais andei durante estes dias, efetivamente já matou alguém (ou MUITOS “alguéns”, no caso de alguns deles). Histórias de brigas e desavenças que acabaram em mortes são contadas sem a menor variação no tom de seriedade ou gravidade. Fazem parte da “cultura” (se é que este é o termo) deles.
O irmão de nosso distribuidor tem 17 anos, mesma idade de sua esposa (sim, lá eles se casam super cedo. Este casal inclusive já tem um filho). Conheci a ambos..Pablo e Julia. Sua sogra (mãe de Julia), era uma mulher que sempre fora considerada como um pouco “estourada”, ou até meio doida mesmo... Dizem que já fora casada 3 vezes, e os 3 maridos morreram, sabe Deus como, mas isso não vem ao caso. Mais recentemente, ela estava namorando um rapaz mais novo, que é professor de uma faculdade de Direito. Diz-se que supostamente ele estaria tendo um caso com uma aluna, então um belo dia, ao passar em frente à faculdade, a menina (estudante) estava na calçada conversando com colegas em plena luz do dia, e a senhora ordenou a seu segurança que a matasse...Por mais “eficazes” e obedientes que costumam ser estes profissionais, ele se recusou a fazê-lo, por se tratar apenas de uma garota, e estarem diante de todos em plena luz do dia. Após certa insistência em vão, a velha agarrou a pistola do segurança, desceu do carro e descarregou-a na moça. E perguntem se alguma coisa aconteceu com ela... Nada. E é nessas horas (mais uma vez), que digo que devemos reconhecer o patamar de desenvolvimento em que se encontra o nosso Brasil em comparação a muitos outros países de nossa região (eu diria que a maioria deles). Já imaginaram se isso tivesse acontecido aqui? A opinião pública/mídia não daria sossego enquanto alguém não fosse punido... Sei que a causa disso não é 100% nobre, pois muito está relacionado ao fato de que desgraça vende mais jornal..Mas mesmo assim..Impune é que não sairia... Pois bem, digamos que a senhora provou do próprio remédio... Há pouco mais de um ano, ela foi encontrada assassinada dentro de seu carro...Todos dizem que foi o ex-namorado, mas novamente, nada foi provado, e ninguém foi preso....E as pessoas seguem adiante com suas vidas.
Essa foi só uma das histórias que ouvi por lá, e resolvi colocar este parágrafo de forma não planejada (algo que me ocorreu já ao final do texto) para que, dentre muitas outras reflexões, saibamos valorizar o que temos de bom (e também para que busquemos melhorar o que assim se faz necessário).
Obs: Abaixo, uma foto do busão abençoado (ou amaldiçoado), às 5h da manhã, ainda vazio...(não tirei mais fotos depois, porque fiquei com MEDO de sacar minha câmera)...
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