Após algum tempo de recesso, retomo a produção literária deste blog para mais uma vez compartilhar alguns eventos pitorescos e inusitados ocorridos durante minha última experiência além-fronteira.
Tudo aconteceu na Bolívia, para onde fui enviado por nove dias a fim de realizar palestras técnicas na região do estado de Beni, cujas características naturais são equivalentes às do Pantanal brasileiro (já que natureza não conhece fronteiras geográfico-políticas). Ao contrário do que possa parecer, este fato possui sim certa relevância, por se relacionar com alguns dos eventos que serão relatados.
Um dos pontos cruciais de todas as “roubadas” em que entrei foram as condições climáticas. Isso porque estamos falando de um lugar no qual durante 95% do tempo o clima pode ser resumido como uma alternância entre quente, muito quente, e inferno na Terra. Os outros 5% eu tive a “sorte” de presenciar bem de perto, e em sua totalidade. Em outras palavras, dizem os habitantes locais que na referida região ocorrem aproximadamente 10 dias de (muito) frio ao ano...Nove destes, foram justamente aqueles nos quais eu estive lá. Até aí, tudo bem, pois nunca fui um daqueles avessos ao frio, muito pelo contrário, pois até gosto dele, desde que devidamente preparado. E foi justamente este o “X” da questão...Tratou-se de um equívoco muito grande de briefing, já que pouco antes da viagem, fui aconselhado a preparar-me para enfrentar o maior calor de minha vida.
Pois bem, devidamente “preparado” para o que me havia sido alertado (ou seja, munido de uma jaqueta “meia estação” que levo em todas as viagens, e que serve unicamente para proteger-me de eventuais excessos de ar condicionado dos aviões), cheguei a Santa Cruz de La Sierra por volta das 18h, sob uma temperatura de aproximadamente 15º, que associada aos fortes ventos e a uma chuva fina, proporcionava uma sensação térmica consideravelmente inferior. Fui imediatamente até a casa de meu contato local, e ao contrário do que geralmente pede o nosso corpo após uma viagem como esta (ou seja, descanso), iniciamos o processo de carregar a caminhonete para que saíssemos o mais breve possível rumo à “cidade” de Trinidad, que ficava a aproximadamente 8 horas dali.
Carregado o carro, por volta de 21h30 saímos, com previsão de chegada às 6h da manhã do dia seguinte, tendo sido esta a primeira das agradáveis (e muito frias) noites passadas neste belo país. Cabe dizer que o largo tempo de viagem não se deve unicamente à distância, mas principalmente à condição das rodovias, já que por ali o asfalto é um recurso extremamente escasso. Antes de sair, porém, fui agraciado pela solidariedade alheia, e recebi de empréstimo uma jaqueta mais pesada, mediante à clara constatação de que eu não estava apto para enfrentar o frio que enfrentaríamos nos próximos dias, o que por um instante fez-me sentir como um dos beneficiados pela “Campanha do Agasalho”.
Chegando a Trinidad (onde, diga-se de passagem, estava mais frio), mais uma vez vi-me forçado a frustrar todas as expectativas de meu corpo, que após uma noite inteira em viajando em um carro, esperava ser recompensado com um banho quente e uma esticada... Ao contrário disso, porém, após um improvisado café-da-manhã, carregamos a segunda caminhonete (que faria parte de nossa “caravana”), e saímos novamente para a segunda parte da viagem, que duraria aproximadamente mais três horas até o próximo destino.
Tudo aconteceu na Bolívia, para onde fui enviado por nove dias a fim de realizar palestras técnicas na região do estado de Beni, cujas características naturais são equivalentes às do Pantanal brasileiro (já que natureza não conhece fronteiras geográfico-políticas). Ao contrário do que possa parecer, este fato possui sim certa relevância, por se relacionar com alguns dos eventos que serão relatados.
Um dos pontos cruciais de todas as “roubadas” em que entrei foram as condições climáticas. Isso porque estamos falando de um lugar no qual durante 95% do tempo o clima pode ser resumido como uma alternância entre quente, muito quente, e inferno na Terra. Os outros 5% eu tive a “sorte” de presenciar bem de perto, e em sua totalidade. Em outras palavras, dizem os habitantes locais que na referida região ocorrem aproximadamente 10 dias de (muito) frio ao ano...Nove destes, foram justamente aqueles nos quais eu estive lá. Até aí, tudo bem, pois nunca fui um daqueles avessos ao frio, muito pelo contrário, pois até gosto dele, desde que devidamente preparado. E foi justamente este o “X” da questão...Tratou-se de um equívoco muito grande de briefing, já que pouco antes da viagem, fui aconselhado a preparar-me para enfrentar o maior calor de minha vida.
Pois bem, devidamente “preparado” para o que me havia sido alertado (ou seja, munido de uma jaqueta “meia estação” que levo em todas as viagens, e que serve unicamente para proteger-me de eventuais excessos de ar condicionado dos aviões), cheguei a Santa Cruz de La Sierra por volta das 18h, sob uma temperatura de aproximadamente 15º, que associada aos fortes ventos e a uma chuva fina, proporcionava uma sensação térmica consideravelmente inferior. Fui imediatamente até a casa de meu contato local, e ao contrário do que geralmente pede o nosso corpo após uma viagem como esta (ou seja, descanso), iniciamos o processo de carregar a caminhonete para que saíssemos o mais breve possível rumo à “cidade” de Trinidad, que ficava a aproximadamente 8 horas dali.
Carregado o carro, por volta de 21h30 saímos, com previsão de chegada às 6h da manhã do dia seguinte, tendo sido esta a primeira das agradáveis (e muito frias) noites passadas neste belo país. Cabe dizer que o largo tempo de viagem não se deve unicamente à distância, mas principalmente à condição das rodovias, já que por ali o asfalto é um recurso extremamente escasso. Antes de sair, porém, fui agraciado pela solidariedade alheia, e recebi de empréstimo uma jaqueta mais pesada, mediante à clara constatação de que eu não estava apto para enfrentar o frio que enfrentaríamos nos próximos dias, o que por um instante fez-me sentir como um dos beneficiados pela “Campanha do Agasalho”.
Chegando a Trinidad (onde, diga-se de passagem, estava mais frio), mais uma vez vi-me forçado a frustrar todas as expectativas de meu corpo, que após uma noite inteira em viajando em um carro, esperava ser recompensado com um banho quente e uma esticada... Ao contrário disso, porém, após um improvisado café-da-manhã, carregamos a segunda caminhonete (que faria parte de nossa “caravana”), e saímos novamente para a segunda parte da viagem, que duraria aproximadamente mais três horas até o próximo destino.
No “pueblo” seguinte seria realizada a primeira palestra, e os acontecimentos correram dentro de certo patamar de normalidade (relativo, claro) e, portanto, não dignos de maiores comentários. Exceção feita ao hotel onde passamos a primeira noite (segunda, se contarmos a que passamos viajando), no qual dividi o quarto com meu colega de trabalho (boliviano, que além de ser nosso gerente local, era um dos guias daquela “expedição”). Não havia muitas opções de hotel naquele vilarejo (situação constante em todos os demais visitados), e as acomodações eram simples (eufemismo). O banheiro era daqueles cujo layout é caracterizado por um cubículo de alguns poucos metros² , nos quais o chuveiro é instalado quase que imediatamente acima do vaso sanitário, que por sua vez fica a poucos centímetros da pia. Cortina? Nem pensar... Box? Cheguei a pensar em exportar o conceito para a Bolívia e patenteá-lo, pois foi um item não observado durante toda a viagem. Resultado: torna-se impossível não inundar o banheiro inteiro ao se tomar banho. Para piorar, a área de banho (ou seja, imediatamente abaixo do chuveiro) era delimitada por uma depressão quadrangular do piso, na qual havia um ralo, o qual constatei estar entupido, pois após meu banho criou-se ali uma piscina cuja água não descia de forma alguma. Felizmente, fui o primeiro a me banhar (sei que isto soa egoísta, mas descobri da forma mais difícil possível que em situações de extrema adversidade, nosso instinto de sobrevivência nos torna pessoas mais egoístas em nome da auto-preservação), de modo que quando abri a porta do banheiro, e ainda envolto pela névoa de vapor (este foi um dos 3 banhos quentes que tomei durante os 9 dias de estadia), disse a meu “roommate”: “Tenho uma boa notícia para você: Nosso quarto tem jacuzzi”. Na ocasião ainda dispúnhamos de certo bom humor (lembrando que ainda estávamos no segundo dia...).
No dia seguinte, pagamos a bagatela de aproximadamente USD 11 pelo hotel, e seguimos viagem para o próximo pueblo sem grandes contratempos, exceto a viagem em si, repleta de estradas de terra esburacadas e enlameadas, que transpúnhamos sem grandes dificuldades (apenas com pequenas e médias) em função da tração 4 x 4 de nosso veículo. O frio só aumentava, e eu já estava usando tudo o que levara, e mais a jaqueta emprestada...Lembrei-me do filme “Jamaica abaixo de zero” (Cool Runnings, 1993), no qual o personagem Sanka, ao sair do aeroporto e deparar-se com o inverno canadense, começa a vestir todas as roupas que havia levado, e termina por vestir a própria mala.
No dia seguinte, pagamos a bagatela de aproximadamente USD 11 pelo hotel, e seguimos viagem para o próximo pueblo sem grandes contratempos, exceto a viagem em si, repleta de estradas de terra esburacadas e enlameadas, que transpúnhamos sem grandes dificuldades (apenas com pequenas e médias) em função da tração 4 x 4 de nosso veículo. O frio só aumentava, e eu já estava usando tudo o que levara, e mais a jaqueta emprestada...Lembrei-me do filme “Jamaica abaixo de zero” (Cool Runnings, 1993), no qual o personagem Sanka, ao sair do aeroporto e deparar-se com o inverno canadense, começa a vestir todas as roupas que havia levado, e termina por vestir a própria mala.
A palestra seguinte (ainda no mesmo local do parágrafo anterior) ocorreu nas dependências de uma Associação de Criadores, que nos proveu alimentação e estadia. Destaque inicialmente para a primeira, que nos foi fornecida em um “restaurante” do povoado, no qual jantamos na noite do evento, e também tomamos café-da-manhã no dia seguinte. Interessantemente, o restaurante dali (tal como pude observar em outros lugares também) dispunha de algumas mascotes como forma de descontrair e entreter os clientes. A diferença é que ao invés dos usuais cães, gatos ou periquitos, o ambiente era povoado por um casal de porcos do mato (que no Brasil são chamados de Cateto), cuja fêmea rondava a mesa pedindo comida como um cão mal educado, um macaco-prego que saltava do balcão para o ombro da proprietária do estabelecimento que ficava no caixa, e finalmente, o que para mim foi o mais estranho de todos: um Tuiuiú (para quem não conhece, coloquei uma foto ao final do texto), ave típica da região do Pantanal. O bicho era impertinente, pois também “pedia” comida, aproximando-se das mesas, de onde era afugentado pelos funcionários do local para que respeitasse o que me pareceu como uma distância mínima tolerável acordada entre ambas as partes, porém, às vezes desrespeitada. O tamanho do animal, e principalmente de seu bico, impõe respeito, de maneira que tive dificuldade para relaxar totalmente durante a refeição, especialmente diante do que estava por vir. Uma das cozinheiras atirou algo para o bicho, que foi audazmente apanhado no ar, e imediatamente posto no chão por ele... Foi quando constatei que se tratava de um conjunto pescoço+cabeça de frango (cru, evidentemente), que o pobre animal (praticamente um canibal, já que estava alimentando-se de um quase-semelhante) tentava romper e/ou compactar de alguma forma que lhe permitisse engolir com maior segurança. Ele jogava o pescoço para lá e para cá, e aquela estrutura dérmica-cartilaginosa ia lambuzando o chão, até que ele conseguiu uma angulação aparentemente ideal entre seu bico e o alimento, o que lhe permitiu degluti-lo por completo. Na verdade, pela postura que o bicho adotou logo após engolir seu almoço, constatei que ele estava tendo problemas no trânsito esofágico do mesmo, já que ele ficou parado de forma estática, com o pescoço semi-estendido e o bico entreaberto por alguns minutos.
Quem me conhece, sabe que não sou fresco para comer, aliás, considero-me o oposto disso, pois nestas viagens já desafiei meu estômago a níveis extremos, e sempre sem grandes problemas. Entretanto, confesso que voltei desta viagem com um pouco de aversão a frango... De maneira geral, a grande maioria dos países latino americanos que visitei no último semestre consome frango em níveis extraordinário. É frango por toda parte, especialmente nos restaurantes, fast-foods, barraquinhas nas ruas, e por aí vai... Muito mais do que carne bovina, por exemplo. Em alguns países, até no Mc Donald’s tem frango frito em pedaços, estilo KFC. Até aí tudo bem, pois sempre considerei o frango algo relativamente seguro, e até gosto, embora não morra de amores, de modo que seria incapaz de colher uma lágrima caso um dia a espécie entrasse para a lista dos animais em extinção. Porém, nesta viagem especificamente (e não quero generalizar falando no país, pois imagino que tenha sido algo relacionado às regiões que visitei), tive más experiências com esta fonte de proteína animal. Não me refiro unicamente ao episódio do Tuiuiú (apesar de ter sido desagradável), mas sim a questões meramente gastronômicas mesmo...Especialmente o frango desfiado (presente em muitas das iguarias que provei), que dava a impressão de que eles moíam o bicho inteiro (com pés, bico e crina), pois era comum detectar-se corpos de consistência estranha (ou muito duros, como pedaços de ossos, ou moles, como estruturas gelatinosas).... Aconteceu mais de uma vez, em diferentes lugares... Resultado: fiquei sem querer ver frango por algum tempo após meu retorno.
Após o bucólico café-da-manhã com os porcos selvagens e o Tuiuiú, deixamos uma das caminhonetes (felizmente não aquela em que rodávamos) para arrumar em uma oficina que tinha telhado de sapê (como grande parte das edificações naquela região), o que nos tomou umas boas três horas. Neste ínterim, para fazer hora e espantar o frio (pois quanto mais tempo passávamos dentro do carro, melhor, pois ao menos tínhamos ar quente), demos um pulo no “Mercado Municipal” da província de Santa Rosa de Yacuma... Nada mais era do que uma construção similar a uma velha escola (pequena), com uma entrada para um pátio ao ar-livre, ao redor do qual havia pequenas tendas que vendiam toda sorte de bugigangas possível. Numa delas, embrenhou-se meu guia boliviano, que dali saiu com duas pequenas latas redondas nas mãos, tendo uma delas sido entregue a mim, como algo que serviria como “fonte de energia para espantar o frio”... Nada mais era do que uma pequena lata de leite condensado (menor do que estas com as quais estamos acostumados), que seria sorvida através de dois orifícios que ele tratou de fazer com a lâmina de seu canivete (levemente enferrujada, evidentemente). Tentei evitar pensamentos como o de ratos transitando pelas latas, já que não tínhamos onde higienizá-las antes de literalmente “meter a boca”, e até que seu conteúdo não era ruim... Eu teria ficado mais satisfeito com o “presente”, não fosse o fato de que ao virar a lata, já no final, para dar umas batidinhas e tentar aproveitar ao máximo o seu conteúdo, constatei a seguinte gravação (dessas que se faz a laser, com o lote e a data de validade): VAL: FEV/2010 (ou seja, vencida havia 5 meses)... Confesso que não fiquei muito preocupado (só um pouco), pois sempre considerei o tema validade um “tabu”, de modo que não tive grandes complicações com isto.
O conserto ficou pronto, e seguimos viagem, agora com uma das caminhonetes com tração 4 x 2 (o mecânico teve de desativar a 4 x 4 por motivos que confesso não haver entendido, mas foi a única saída para que pudéssemos seguir adiante). Em condições normais, isto não seria um problema, porém, “condições normais” foi o que menos vimos durante toda a viagem, já que junto com o frio, veio também uma chuva não muito forte, porém, constante, que deixou as estradas ainda mais intransitáveis. E assim seguimos, ou seja, de forma quase intransitável, rumo ao próximo povoado... As caminhonetes “dançavam” na estrada, saíam de traseira, e a outra (que estava sem tração dupla), chegou a rodar e sair da estrada três vezes...Mas pelo menos chegamos (atrasadíssimos), demos a palestra, e deixamos o local, rumo novamente a Trinidad, onde encerraríamos nossa turnê... Já eram umas 20h30 quando resolvemos pegar a estrada, e isso não nos preocupou muito, pois Trinidad estava a aproximadamente 2 horas dali....Novamente, “em condições normais”... Foi aí que a coisa complicou. Toda a dificuldade que pegamos para chegar até ali foi intensificada, pois agora estava escuro e a “pista” estava mais molhada.
Este trecho da viagem foi o mais tenso... Os carros “dançavam” ainda mais, só que agora um atolamento poderia significar ter de passar a noite ali mesmo, já que o celular não tinha sinal, estava um breu total, e fazia um frio “n” vezes pior. Documentei tudo por meio de fotos e vídeos para não me passar por exagerado (bom, no quesito “frio” terei de lançar mão da minha credibilidade mesmo). A tração 4 x 2 de nosso companheiro de trilha aguentou até onde podia, mas não teve jeito...Acabaram atolando.Na verdade, o que aconteceu foi que a quantidade de barro acumulado nas rodas dianteiras foi tamanha, que elas não mais viravam para nenhum lado, o que impossibilitou que eles seguissem viagem... A “sorte”(se é que ainda cabia utilizar este termo) foi que nós ainda tínhamos nossa 4 x 4, de modo que antes que nos déssemos por vencidos, lançamos mão do último recurso disponível: tentar rebocá-los. Descemos do carro para avaliar a questão, e neste momento eu estaria mentindo se dissesse que tomei parte do planejamento e execução desta empreitada... Desci do carro pelo tempo suficiente para tirar umas 3 fotos, quase perder o sapato no barro, e pular novamente para dentro, pois o frio estava simplesmente insuportável (no sentido mais simples e literal da palavra, ou seja, não era possível suportá-lo). O reboque aparentemente deu certo, e fomos seguindo viagem, todos muito apreensivos, evidentemente. Entretanto, nem preciso dizer que a viagem que deveria durar aproximadamente 2 horas, durou 4h30 em virtude das adversidades.
Quando nos vemos em situações deste tipo, é comum que nos agarremos a pensamentos consoladores, como por exemplo: “mal posso esperar para chegar ao hotel, tomar um banho quente e deitar numa cama”... Mas infelizmente, mais uma vez, expectativas frustradas...O atraso no percurso nos custou caro... Ao chegarmos a um ponto no qual deveríamos cruzar um rio de balsa (e aqui se você está imaginando uma balsa do tipo Santos-Guarujá, pode parar, e imaginar um emaranhado de tábuas que são empurradas por um barquinho a motor, pois nem mobilidade própria elas têm), deparamo-nos com alguns carros parados, e nenhuma movimentação aparente, exceto nas cabanas que circundavam a área (de paredes de barro e telhado de palha), onde vivem os balseiros (“pontoneros”). Por ali se podiam ver alguns pontos de luminescência que indicavam fogo, ao redor do qual se amontoavam pequenos grupos de pessoas. Um dos membros de nossa comitiva dirigiu-se a uma destas cabanas, e ingenuamente sentou-se próximo a uma das fogueiras, sendo então imediatamente questionado: “E você, o que quer aqui?”. Ele, assustado, tratou logo de explicar que só estava se aquecendo um pouco, e então lhe exigiram 10 pesos (menos de R$ 3) como taxa de contribuição para o álcool (combustível das fogueiras). Um belo sinal de solidariedade e hospitalidade.
Estranhei a falta de movimentação nas balsas, e confesso que acreditei até o final que iríamos atravessar o rio, negando a realidade que já era aceita pela maioria: teríamos de passar a noite ali...No carro, à beira do rio. O fato é que era uma sexta-feira, e como demoramos muito para chegar até ali (em função dos atoleiros, reboque, etc), chegamos depois da meia-noite, e os caras já se haviam decretado “off-duty”, e pior, estavam todos bêbados, celebrando ao redor do fogo... Ok, hoje eu concordo que talvez tenha sido melhor eles não terem nos atravessado mesmo...Pois aquelas balsas já são suficientemente perigosas durante o dia e com seus “pilotos” sóbrios. Mas que na hora eu queria ter atravessado a qualquer custo, ah isso eu queria... Literalmente “a qualquer custo”, porque chegamos a oferecer o dobro do valor para que abrissem uma exceção, mas foi em vão...A propósito, o valor por carro é de aproximadamente USD 7,00.
Estranhei a falta de movimentação nas balsas, e confesso que acreditei até o final que iríamos atravessar o rio, negando a realidade que já era aceita pela maioria: teríamos de passar a noite ali...No carro, à beira do rio. O fato é que era uma sexta-feira, e como demoramos muito para chegar até ali (em função dos atoleiros, reboque, etc), chegamos depois da meia-noite, e os caras já se haviam decretado “off-duty”, e pior, estavam todos bêbados, celebrando ao redor do fogo... Ok, hoje eu concordo que talvez tenha sido melhor eles não terem nos atravessado mesmo...Pois aquelas balsas já são suficientemente perigosas durante o dia e com seus “pilotos” sóbrios. Mas que na hora eu queria ter atravessado a qualquer custo, ah isso eu queria... Literalmente “a qualquer custo”, porque chegamos a oferecer o dobro do valor para que abrissem uma exceção, mas foi em vão...A propósito, o valor por carro é de aproximadamente USD 7,00.
A noite à beira do rio foi acima de tudo, e como não poderia deixar de ser, muito fria. Dormimos três pessoas por carro, alternando períodos de sono com momentos de vigília, causadas ora pelo frio extremo que nos despertava e fazia com que ligássemos a calefação do veículo (que não poderíamos deixar ligada 100% do tempo), ora pelo simples desconforto físico mesmo. Isso sem falar na fome e sede, pois não tínhamos provisões, exceto por algumas latas de cerveja que não sei como, alguns de nossos companheiros conseguiram comprar dos habitantes locais, e que tinham odor de peixe (as latas), provavelmente por estarem jogadas em alguma caixa de isopor sabe Deus com o que mais... Esta questão da fome não foi um problema muito grande para os demais, haja vista que eu era o único brasileiro a bordo da expedição, sendo por isso, o único que não cultivava o hábito de mascar folhas de coca (“bolear” ou “coquear” como eles dizem), hábito que apesar de repugnante, tem lá suas vantagens, já que supostamente tira a fome e o sono. Mas ainda assim, preferi não aderir a ele, e continuar a ser o único a não protagonizar a cena de ter uma das bochechas cheia, e ficar cuspindo a cada cinco minutos. Enfim, amanheceu, e por volta das 6h30 – 7h eu decidi que não ia mais tentar dormir, e iria sustentar-me pela esperança de que a qualquer momento iríamos sair dali, e aí sim, seguir viagem até Trinidad (faltava só mais meia-hora) e então, QUEM SABE (a esta altura eu já estava bem mais realista), tomar um banho quente e deitar numa cama... Mas antes de atravessar o rio, tínhamos de esperar a boa vontade dos pontoneros em acordar, curar um pouco da ressaca e começarem a trabalhar...O que só aconteceu por volta de 9h30, quando finalmente estávamos do outro lado. A travessia também tem lá suas emoções... A balsa é muito precária, e aparentemente não preparada para carregar duas caminhonetes cabine dupla...Tal como já mencionei anteriormente, é impressionante como nestas situações nossa mente trabalha em função de nossa sobrevivência...A primeira coisa que fiz quando embarcamos, foi desatar o cinto de segurança e abrir o vidro do carro...O raciocínio era simples: “Bom, se essa merda virar, pelo menos eu tenho uma chance de sair pelo vidro, se não morrer de hipotermia...”.
Chegando a Trinidad, tomamos mais um “rico” café-da-manhã a base de duas salteñas e uma coca-cola, sendo estas primeiras nada mais do que uma variedade de empanada, porém, com recheio líquido (como uma sopa, tanto é que são servidas acompanhadas de uma colherzinha) e muito picante (opção minha), indo posteriormente para o hotel... A essa altura eu já estava acostumado (com o “couro” insensibilizado), e quase não me queixei de mais um banho gelado (sendo que neste momento o frio estava mais insuportável do que nunca). Na verdade, cabe um comentário sobre os banhos frios, para que não pensem que estou exagerando. Nem sempre o problema eram chuveiros que não funcionavam... Na maioria das vezes, o mesmo dava sinais de que estava se esforçando para aquecer a água, mas o frio era tamanho, e tão pouco frequente, que o aparelho simplesmente não dava conta...Imaginem um chuveiro que convive durante mais de 355 dias ao ano com extremo calor, vendo-se agora diante de uma situação totalmente atípica...Ele mudava sim, a temperatura da água, transformando-a de gelada-cortante para fria (o que constatei após realizar um teste desligando o chuveiro e avaliando a diferença que faria...Doeu, mas pelo menos provei minha teoria).
Finalmente, nos últimos 3 dias de viagem, consegui encontrar uma pequena “tienda” para comprar algumas roupas...Algo interessante sobre o frio, é que a necessidade de combatê-lo é soberana aos conceitos de moda, e até mesmo de vergonha, de modo que muitas vezes as pessoas saem na rua como se houvessem mergulhado dentro de seus guarda-roupas e saído imediatamente com o que conseguiram pegar, e não são julgadas por isso, em nome da compreensão alheia. Com base nesta premissa, comprei algumas coisas que jamais usaria em situações ordinárias... Além do gorro e luvas de lã pretos (minha única chance de fazer uma combinação) que eu já havia comprado, a agradável vendedora (que falava português, pois trazia roupas do Brás, em SP), conseguiu empurrar-me um colete de lã quadriculado de marrom e creme, que talvez algum dia eu possa voltar a usar caso vá a algum baile à fantasia como “tabuleiro de damas”, um casaco de moletom (até que razoável), e uma calça jeans (ok, esta foi por impulso, pois era Levis original e estava baratinha). TUDO isso o que citei (exceto a calça) fazia parte de meu uniforme diário de trabalho, somado a minha jaqueta (aquela “meia estação”). Ou seja, a partir deste ponto, todos os dias eu saí do hotel vestindo: camiseta por baixo, camisa de manga longa, agasalho de moletom, colete de lã, jaqueta, gorro e luvas. Sendo que em duas das noites, eu dormi praticamente do mesmo jeito...Apenas tirando cinto, sapatos e jaqueta...
Já nos aproximando do final da epopéia, voltamos de Trinidad para Santa Cruz de la Sierra, que para quem não lembra, é aquele trecho de oito horas de viagem (primeira noite), só que agora realizada durante o dia... Neste percurso, dois fatos merecem destaque...O primeiro deles, foi que depois de tudo o que passamos, a caminhonete (agora a nossa mesmo, já que a outra nau e seus tripulantes pararam em Trinidad) começou a apresentar sinais de mal funcionamento...Engasgava, falhava e quase parava...Até que por duas vezes chegou mesmo a parar... Era irônico...Depois de tanto barro, parece que quando fomos para o asfalto ela pediu arrego...Saudades da lama? Ou aguentou até onde pôde para então desabar..? Nem uma coisa nem outra...O problema foi combustível de má qualidade...Gasolina “batizada”....Um dos muitos produtos brasileiros exportados para a Bolívia (ok, nem toda gasolina ruim da Bolívia é brasileira, mas sim parte dela). Depois de alguns instantes parados, o motor aparentemente se recompôs e seguimos viagem (ainda dando alguns trancos, mas conseguimos chegar). O outro evento inusitado deste trecho final da viagem foi mais triste... Estávamos em uma reta, desenvolvendo certa velocidade, e eis que a alguns metros a frente surge um tatu com a intenção de atravessar a pista... Ingenuamente bem intencionado, e em prol da integridade de tão carismático animal, alertei meu piloto (eu era o navegador), que no mesmo momento adotou uma medida que achei no mínimo, inesperada: afundou o pé no acelerador, e ao contrário do que seria plausível, ou seja, com a intenção de evitar a colisão, direcionou a frente do veículo em um ângulo que, se não me enganaram nas aulas de física, resultaria em uma trajetória que dentro de poucos segundos coincidiria com a da vítima. Dito e feito. Um pequeno solavanco associado a um som abafado indicavam que havíamos atropelado a criatura... Imediatamente, o rapaz encostou o carro no acostamento, e então pensei que talvez por preocupação (ou quem sabe até arrependimento), ele verificaria qual teria sido o dano real causado, mas diferentemente disso, ele correu até o local, tratou de apanhar sua presa pelo rabo (que ou ainda não estava morta, ou estava sofrendo espasmos musculares post mortem, já que ainda havia certo movimento em seus membros inferiores), inspecionou-o, perguntando-me se eu tinha algum saco plástico para que ele pudesse levar o bicho para casa, a fim de utilizá-lo para presentear um amigo que era um grande apreciador de suas propriedades gastronômicas. Pois bem, tendo atirado o cadáver na caçamba da caminhonete, seguimos viagem... Ao chegar a Santa Cruz já durante a noite, e mais uma vez, estando eu louco para chegar ao hotel, tive ainda que presenciar a cena da entrega do tão esperado presente, realizada na rua, em frente à casa do sortudo contemplado. Este por sua vez, agarrou (também pela cauda) o futuro banquete, inspecionou-o atentamente, e concluiu: Aquilo não era um tatu...Era o que eles chamam de “Peji”...Outro animal muito semelhante (porém de outra espécie), e que portanto, não se prestava como iguaria...Muito pelo contrário...Era incomível, pois segundo o inspetor da carcaça, ele se alimenta de bichos mortos...Resultado: imediatamente, sem sequer ser retirado de sua mortalha (sacolinha de supermercado), o defunto foi atirado na lixeira da casa, ali na calçada mesmo....Pobre animal...Mal sabe o quão em vão foi sua morte...
Enfim, chegamos ao hotel de Santa Cruz (supostamente a melhor cidade da Bolívia), e fiquei contente em constatar que o mesmo dispunha de uma estrutura até então jamais vista durante o período da viagem (cortina no banheiro, frigobar, internet wireless, etc). Entretanto, isso não foi suficiente para afastar a grande “maldição” da viagem...Ao ligar o chuveiro: frio... Confesso ter chegado a pensar que talvez fosse um problema MEU...Sei lá, de repente os sensores de temperatura de minha pele tivessem sido irreversivelmente afetados pelo frio intenso e eu não mais seria capaz de distinguir água fria de quente... Mas como já me tornara expert em tomar banhos frio no inverno, resolvi fazê-lo mais uma vez ao invés de reclamar, pois isto me tomaria muito tempo e desgaste, sendo que o que eu mais queria era terminar logo aquela noite e enfiar-me em baixo dos três cobertores, sendo que os dois extras foram uma solicitação minha ao hotel. Ok, eu me enfiei sob dois deles, pois um era para forrar a cama por baixo.
Enfim, chegamos ao hotel de Santa Cruz (supostamente a melhor cidade da Bolívia), e fiquei contente em constatar que o mesmo dispunha de uma estrutura até então jamais vista durante o período da viagem (cortina no banheiro, frigobar, internet wireless, etc). Entretanto, isso não foi suficiente para afastar a grande “maldição” da viagem...Ao ligar o chuveiro: frio... Confesso ter chegado a pensar que talvez fosse um problema MEU...Sei lá, de repente os sensores de temperatura de minha pele tivessem sido irreversivelmente afetados pelo frio intenso e eu não mais seria capaz de distinguir água fria de quente... Mas como já me tornara expert em tomar banhos frio no inverno, resolvi fazê-lo mais uma vez ao invés de reclamar, pois isto me tomaria muito tempo e desgaste, sendo que o que eu mais queria era terminar logo aquela noite e enfiar-me em baixo dos três cobertores, sendo que os dois extras foram uma solicitação minha ao hotel. Ok, eu me enfiei sob dois deles, pois um era para forrar a cama por baixo.
No dia seguinte, para a minha plena felicidade, eu voltaria ao Brasil... Acordei, e resolvi arriscar um novo banho, afinal, eu esperava que o sol da manhã ajudaria a minimizar o sofrimento de mais um processo de semi-congelamento. E qual não foi minha surpresa ao encontrar água quente (BEM quente) jorrando da ducha...A ponto de eu ter de “temperar” com a fria para não me escaldar... Neste caso, entendi o que aconteceu...Tratava-se de um hotel antigo, daqueles em que água quente é um recurso findável, ou seja, no caso de haver muitas pessoas tomando banho ao mesmo tempo, ou então se é tarde da noite e muitos já o fizeram, a água quente simplesmente acaba, sendo necessário esperar até que o aquecedor (a gás na maioria das vezes) trabalhe em sua reposição....Por isso a diferença entre os banhos da noite e da manhã seguinte....Foi irônico... O ÚLTIMO banho naquele país TINHA que ser o mais quente e agradável...E eu não poderia sequer aproveitá-lo melhor, já que estava com hora marcada para sair para o aeroporto para não perder o vôo...Senti-me como aquelas pessoas que passam 10 dias num resort maravilhoso debaixo da maior chuva, e no último dia, na hora de ir embora sai o sol (tinha até um comercial de televisão que falava sobre isso).
Este foi o relato de mais uma aventura, dedicado àquelas pessoas que pensam que vida de viagens internacionais é sinônimo de glamour... Pessoas que ao escutarem que eu estaria indo para a Bolívia, chegaram a me dizer: “Que chique”... Sim...MUY Chique...
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