Depois de um longo período sem postagens em virtude de uma despriorização temporária do blog, decidi retomar as atividades, mais uma vez com um texto narrativo inspirado em minha última viagem (na qual por sinal ainda me encontro).
Tal como da última vez em que o fiz, o intuito principal deste relato, além é claro o de entreter (??) os leitores, é o de rebater os argumentos daqueles que invejam (no bom e mau sentido) esta rotina de viagens, por enxergarem um “glamour” que definitivamente não existe.
Depois de quase três anos desde a última vez que estive aqui, retornei à Venezuela, onde cheguei há seis dias, restando-me ainda mais cinco até o retorno ao Brasil. Vim para realizar algumas palestras técnicas, cujos detalhes são irrelevantes para este contexto. O fato é que de lá para cá, sendo aproximadamente a quinta vez que visito este país, pude concluir que no geral as coisas deram uma piorada.
Não sei bem o que vem à cabeça de cada pessoa quando falamos em Venezuela. Talvez o “socialismo do século XXI” de Hugo Chávez... Talvez as Misses Universo...Talvez a propaganda da Amanco....Talvez o petróleo....Ou talvez um pouco de tudo isso... O que sei, é que na cabeça de diversos amigos e/ou conhecidos meus que já estiveram aqui, tenho toda certeza de que o que vem é caos, confusão, desordem e adversidades em geral.
“Nem tanto ao céu, nem tanto à Terra”, minha opinião particularmente não é tão radical assim...Embora eu não possa negar que de fato, apesar de se tratar de uma visão ponderada (como sempre), e não radical, a mesma pende claramente para um dos dois extremos. SIM, o país tem suas virtudes, como por exemplo, belas paisagens (lembremo-nos de que sua costa é banhada pelo Mar do Caribe) e uma cultura LOCAL muito rica (desconsiderando a influência norte-americana). Entretanto – e o que vou dizer a partir de agora até o final do parágrafo são generalizações SIM, porém, embasadas em minhas experiências pessoais – trata-se de um país desorganizado, corrupto, com um povo carente de educação e boas maneiras, nas mãos de um governo opressor e cada vez menos democrático (apesar de eleito pelo povo).
Mas introduções à parte, vamos aos relatos dos fatos, pois é disso que trata o texto, certo? Afinal, ao contrário do que alguns possam estar pensando, não me esqueci de que falei a pouco que se trataria de um texto NARRATIVO (o que não foi honrado até o presente momento).
Minha “saga” iniciou-se às 23h55 de uma segunda-feira, quando peguei meu primeiro vôo de Guarulhos com destino à Caracas, onde cheguei sem maiores problemas cerca de 5h30’ depois. Exceto, é claro, pelo fato de que na poltrona imediatamente vizinha à minha (ombro com ombro) sentou-se um venezuelano obeso cheirando a cigarro que apresentava aquele típico ronco de pessoas com sobrepeso que têm apnéia do sono (das quais lhes falta ar ao dormir, especialmente quando o fazem de barriga para cima). Mas tirando isso, tudo bem...Não estressei muito, pois a brincadeira estava apenas começando...
Pois bem, cheguei às 4h30 já no horário local, que corresponde a 1h30’ a menos com relação ao horário de Brasília (afinal, a Venezuela TEM que ser diferente do resto do MUNDO, no qual as diferenças de fusos horários são sempre horas inteiras, como 1,2,3... horas para mais ou para menos), e passada a imigração, já me dirigi ao terminal de vôos domésticos, no qual precisaria pegar um outro vôo até a cidade de Maracaibo, onde me esperaria a pessoa que me acompanha durante esta viagem.
No trajeto entre os dois terminais, composto por um enorme corredor que os intercomunica, equipado com uma daquelas esteiras rolantes inventadas para “evitar a fadiga” de passageiros que carregam suas bagagens, e que obviamente estava desligada, pois o país enfrenta uma grave crise de energia, tal como citarei novamente mais adiante, ocorreu-me algo que eu já previa, porém, não tão cedo assim. Tratava-se da primeira abordagem (das muitas) de um cidadão local, oferecendo-me troca de moeda (ou seja, querendo-me vender bolívares em troca de dólares). Achei incomum, pois geralmente, isto costumava ocorrer a partir do momento em que se deixava a área de embarque, passando-se para a área livre do aeroporto, na qual teoricamente qualquer pessoa pode circular (e não só os passageiros). Mas o cara estava ali, pois era o “guardião” desta passagem entre terminais, o que mercadologicamente, dá-lhe uma enorme vantagem competitiva frente a seus “agentes de câmbio” concorrentes.
Neste momento, julgo apropriada uma breve explicação sobre o sistema cambial venezuelano, para que se entenda o motivo da situação relatada no parágrafo anterior. Atualmente o dólar apresenta duas cotações no câmbio OFICIAL: Bsf 2,6 (bolívares fortes...O termo “forte” entrou em vigor quando Chávez fez uma reforma monetária e cortou três zeros da moeda. Se você tem mais do que 25 anos, esta situação poderá trazer-lhe recordações de algo que ocorria com frequência antes do Plano Real), sendo esta cotação para bens considerados “indispensáveis” (não perguntemos qual é o critério empregado para determinar isto, porque nem os venezuelanos o sabem), ou 4,3 Bsf para bens “supérfluos”. Ok, tudo isso, no câmbio OFICIAL. Porém, há o câmbio paralelo, ou “negro”(tal como há no Brasil), no qual USD 1,00 vale Bsf 6,90. Ou seja, se o “guardião” do terminal consegue comprar USD 1,00 de um turista, pagando-lhe Bsf 6,00, TEORICAMENTE, ambos saem ganhando. Isso porque o turista vendeu a um valor maior do que conseguiria numa casa de câmbio (o que aumenta seu poder de compra), e o venezuelano comprou a um valor menor do que ainda consegue vender no câmbio negro. Na teoria, parece lindo... Porém, não é uma transação que se convém realizar com um estranho, assim, na rua. Isso porque tem muito golpe na praça...Dinheiro falso, por exemplo...E claro, tem sempre o risco de você acabar sem dólares, sem bolívares, sem carteira, sem passaporte, sem relógio, sem um rim, e por aí vai....
Assim sendo, a recomendação é evitar-se fazer negócios desta forma, com esta gente...E sim trocar apenas com gente de confiança, que tire o dinheiro no banco, na sua frente...Ou em casas de câmbio mesmo, ainda que pagando uma taxa menos favorável, mas com toda a segurança... Foi o que eu fiz quando cheguei, só para que tivesse algo no bolso para comprar alguma coisa, tomar um café, etc., sendo que o “grosso” eu troquei depois, com meu contato local. Aliás, o assédio desse pessoal é irritante, e até amedrontador para os que vêem ao país pela primeira vez e não sabem como funcionam as coisas, representando uma recepção traumática aos turistas de primeira viagem. Os caras fazem uma rodinha em volta de você, ficam buzinando na sua orelha..Eu costumo dar logo um “corte”, mas ainda assim, enquanto eu estava falando com a moça da casa de câmbio (que na verdade é uma cabine de vidro no meio do aeroporto), um “hijueputa” de um venezolano pendejo bateu no meu ombro, escondeu-se atrás da cabine, e ficou me fazendo sinais com as mãos, indicando um numero “6”, sugerindo que me pagaria Bsf 6,00 por cada dólar. Olhei feio, fiz sinal negativo com a cabeça, e o cara foi atrás de outro “freguês”.
Mas enfim, vencida esta etapa, dirigi-me à zona de embarque do terminal doméstico, do qual meu próximo vôo sairia às 10h20. Eram aproximadamente 6h45, ou seja, ainda tinha MUITO tempo pela frente, mas achei melhor assim, pois poderia tomar um café tranquilamente, ler um pouco, e aguardar o embarque...Foi aí que me deparei com outro “produto” típico venezuelano: o atraso (para o que quer que seja).
O horário original de embarque era 9h50... Pois deu 9h50, 10h, 10h20 (horário do vôo)...E nada... Estava sentado próximo ao portão indicado, e o monitor só dizia que o vôo estava “confirmado”, e nada mais...E o pior disso tudo, é que tal como na época do “caos aéreo” do Brasil, as atendentes da Cia aérea estavam totalmente perdidas e não sabiam dar-nos informações concretas...Trata-se do pior tipo de espera. Afinal, se nos dissessem de forma clara: “Seu vôo atrasará 3 horas”, tudo bem, pelo menos poderíamos nos programar... Sairia do aeroporto, daria uma volta, ou simplesmente me encostaria num canto e dormiria recostado à mochila... Mas assim, sem saber se nos chamariam naquela hora, ou dali a 2 horas... Foi bastante desgastante. E por falar em “caos aéreo”, outras semelhanças foram observadas. As pessoas começaram a se exaltar, gritar com as atendentes, bradar “palavras de ordem” (termo muito usado pela mídia, que sinceramente eu nunca entendi bem o que significava, mas achei que caberia aqui..rs). Teve até um cara que engrossou feio com um funcionário da companhia, sendo necessária a intervenção de um segurança. E teve também um “milico”, aprendiz de Chávez (de fardinha verde e boina vermelha, parecendo um boneco “Comandos em Ação” versão chicana), que fez com que alguns passageiros firmassem uma espécie de abaixo-assinado, que pelo que entendi, serviria como uma queixa formal à Cia aérea pelo atraso e pela confusão. Mas isso já foi quando a fila estava movendo-se para o embarque, o que ocorreu precisamente às 13h30 (com 3 horas de atraso).
Pois bem, depois de tudo isso, cheguei a Maracaibo, fiquei MUITO feliz ao constatar que minha mala viera junto (o que não ocorreu numa viagem anterior ao mesmo Bat-país, mas esta é uma outra história), e encontrei-me com a pessoa que me esperava (desde às 11h, sendo agora, 14h40). Almoçamos, e seguimos viagem (mais aproximadamente 2h de carro nos aguardavam) até o pueblo (povoado) no qual eu realizaria a primeira palestra às 19h daquele mesmo dia (dia este que para mim havia começado 15 horas antes e ainda estava longe de acabar). E antes que alguém se pergunte porque carajo escolheram este local para uma palestra, devo informar que se trata de um ponto central em uma região importante para a produção de leite, portanto, com muitos pecuaristas vivendo em seu entorno.
Ufa, chegamos a “Villa del Rosario"...Um povoado cujo número de habitantes eu não arriscaria estimar, mas que certamente, cabe em sua totalidade, dentro setor azul coberto do estádio do Morumbi (ou seja, só as cadeiras numeradas, nem contando a arquibancada). Mas como eu poderia haver desconfiado, o “ufa” foi perigosamente precipitado...Afinal, tal como dizia o “mote” da viagem que também relatei neste blog há alguns meses, “o dia ainda não acabou”...
Chegamos ao hotel aproximadamente às 16h40, e então pensei: “Que bom...Assim terei um tempinho para descansar, já que a palestra é só às 19h”...Que ingenuidade a minha. Enquanto ainda preenchíamos a ficha de cadastro no hotel, fomos informados de que os cortes de energia, DIÁRIOS naquela região (dada à crise energética que já relatei acima), ocorriam entre 17h e 19h. Isto não seria um grande problema, não fosse o fato de que deveria estar uns 32 graus ou mais, sem vento, e a sensação térmica dentro do quarto era próxima do que deve ser a sauna do inferno. Quem me conhece, sabe que não sou de exagerar, pois tenho um certo senso analítico, e sempre me embaso em aspectos os mais palpáveis e mensuráveis possível. Pois bem, pensem num quarto de “hotel” (era uma espelunca que, tal como 90% dos hotéis daqui, não tem sequer um frigobar, mas sim uma jarra de água de origem duvidosa junto à cabeceira da cama, que definitivamente não se recomenda beber, a não ser em caso severo de prisão de ventre), que está “acostumado” a permanecer todo fechado (pois em condições normais, ou seja, sem crise de energia, está sempre com o ar-condicionado ligado), tendo que de repente, ficar sem refrigeração...Pois bem, abri a janela, a porta, e até a janela do banheiro, tentando estabelecer um fluxo de ar, mas foi em vão...Meu descanso (importante para a qualidade da palestra) estava seriamente comprometido pelo fato de eu estar suando mais do que tampa de chaleira... Foi quando coloquei em prática um recurso que aprendi com os cães...Neste momento eu até poderia valorizar minha profissão, dizendo que foi algo que veio através da Medicina Veterinária, mas estaria mentindo...Foi fruto da mais pura observação mesmo... Ao constatar que o quarto dispunha de um piso “frio” (ou seja, algum tipo de azulejo ou lajota, ao invés de carpete ou madeira, considerados pisos “quentes”), não hesitei em deitar-me diretamente contra o chão (em trajes menores, claro). Evidentemente, não consegui aprofundar muito o descanso, porém, ao menos estabilizei um pouco minhaa temperatura até que chegasse a hora de sair...
Pois chegada a hora, tomei um banho quente (água à temperatura ambiente), e ao fechar o último botão da camisa, já estava literalmente pingando...Sentia minhas costas escorrendo, a ponto de ter passado FRIO ao entrar no carro, devido à combinação camisa encharcada + ar-condicionado. Sinceramente, às vezes surpreendo-me com minha saúde (especialmente levando a vida que eu levo). Mas o que importa é que como SEMPRE, no final, deu tudo certo...A palestra foi boa, havia energia elétrica esperando-me quando voltei, e consegui dormir à noite.
Bom, passada esta recepção literalmente “calorosa”, no dia seguinte seguimos viagem, sem grandes contratempos até o momento. Citarei apenas alguns fatos mais relevantes (para os objetivos do texto, relacionados inicialmente).
A segunda palestra ocorreria em El Vigía, portanto, seguimos viagem logo cedo, pois umas 4 horas de estrada nos aguardavam...E nem preciso dizer que 4 horas de estrada na Venezuela são um pouquinho diferentes de 4h de estrada no Brasil, certo...? Ou melhor, em São Paulo...Afinal, as estradas daqui até me lembraram um pouco das estradas da Bahia...Com a diferença de que aqui, a cada "X" km, há uma barreira do exército, na qual é necessário passar-se a 1 km/h, com vidros abertos e luz interna acesa (caso seja noite), correndo-se o risco de ter que prestar esclarecimentos sobre quem você é, de onde vem, para onde vai, etc. (fomos parados apenas uma vez). E quando eu disse “cedo”, é cedo MESMO, pois às 6h15 tínhamos de estar na rádio local, onde fui entrevistado a respeito do evento que ocorreria naquela noite (foto ao final. Detalhe para o poster do MeatLoaf..hehehe, bizarro). “Mas por que tão cedo?”. Lembrem-se de que pecuaristas acordam “com as galinhas” (ou melhor, com os bois). Do contrário, o Globo Rural não iria ao ar todos os dias às 6h da manhã, e às 8h no domingo...
Tanto o pueblo onde passamos a primeira noite, como a cidade da palestra seguinte, são próximos à fronteira com a Colômbia, e isso implica em alguns fatos no mínimo interessantes. O primeiro deles, diz respeito a uma infeliz ironia...Nesta região, há um racionamento de gasolina...Lembremo-nos de que estamos em um dos países mais ricos em petróleo do mundo, no qual a gasolina é mais barata do que água, estando isto longe de ser uma metáfora. Vamos aos números. Aqui, para encher-se um tanque de 50 L, gasta-se o equivalente a USD 0,83 (sim, você leu corretamente. Oitenta e três centavos de dólar, o TANQUE). Em alguns lugares, menos do que isto. O preço do LITRO da gasolina em moeda local é de Bsf 0,087. Uma garrafa de 1,5L de água mineral custa aproximadamente Bsf 4,00. E aí...Exagero meu?
Pois bem, é justamente este preço irrisório o principal responsável pelo racionamento na região. Isso porque por causa dele, torna-se uma verdadeira tentação contrabandear gasolina para a Colômbia (onde o preço é bem mais alto, semelhante ao nosso). A maneira que as “autoridades” encontraram para controlar isso, e, diga-se de passagem, MUITO questionável, foi limitar a venda. Quem não pode comprar, não pode contrabandear. Assim, eles tentam limitar a venda para o mínimo possível, suficiente apenas para consumo próprio...Só que não é tão simples determinar isso na prática. Vamos aos absurdos...
Nesta região, é proibido andar com o tanque cheio. Afinal, você não precisa disso tudo, e pode estar contrabandeando dentro do próprio carro. Assim, se uma patrulha do exército te pára e constata que você está com o tanque cheio, é simples. Metem a mangueirinha no teu tanque, e retiram metade da gasolina. Simples assim. Nos postos, isso também reflete. As filas são imensas, pois muitos só abrem em alguns horários do dia (por determinação oficial), também para limitar a venda. Tudo isso, mais uma vez, num dos países mais ricos em petróleo do mundo... E como sempre, quem paga o pato, é o povo...Pois o povo não quer contrabandear gasolina...Só quer ter o direito e ir e vir, e nada mais... E adivinhem só quem são os maiores contrabandistas de gasolina da região? Dou-lhes apenas uma chance....................... Os mesmos que a retiram dos carros dos cidadãos de bem...Ou seja, o exército. E que ninguém OUSE em questioná-los, ou a se meter em seus esquemas (eles têm até caminhões-tanque para fazer o transporte).
Outra consequência de estar próximo à fronteira com a Colômbia, é o clima de insegurança. São comuns os sequestros, principalmente dos fazendeiros da região. É normal que os mesmos tenham que pagar taxas de proteção para que nada lhes aconteça (sim, a taxa é paga aos mesmos que lhe fariam algum mal). Na verdade, esta é uma prática aplicada em diversas organizações criminosas ao redor do mundo, desde a Camorra siciliana, até os morros do Rio de Janeiro. Aqui, eles dão a estas taxas, o nome de “vacuna” (vacina). Ah, tem a vacuna dos carros também... Você paga, e te dão um adesivinho que você cola no vidro, como uma espécie de “seguro”, que significa “Este carro, ninguém rouba”. Se alguém roubar (algum bandido desinformado, ou desenturmado), acaba sumindo.
Isto traz consequências também para nossos negócios, já que diante de uma situação como esta, não é fácil fazer com que fazendeiros deixem a segurança de seus lares (ou “esconderijos”) para comparecerem um evento noturno (palestras). Além disso, deixando um pouco de lado a questão da segurança, e entrando na questão política/econcômica, os mesmos fazendeiros (agora em âmbito nacional, e não só na fronteira), vêm sendo cada vez mais “sufocados” pelo governo, que regula os preços da carne e do leite (proibindo aumentos há três anos), além de terem que conviver com invasões e/ou desapropriações de terras constantes (situação familiar?). É um povo lutador, que vem se arrastando em meio a tudo isso, buscando a sobrevivência, não pedindo absolutamente NADA a seus governantes, a não ser o direito de trabalhar....Triste, muito triste.
Outro aspecto que eu gostaria de abordar antes de encerrar o texto (ok, sei que está longo, mas lembremo-nos das “regras” do blog, determinadas no primeiro post, de 02/12...) diz respeito à educação do povo e da qualidade dos serviços (dois fatores intimamente relacionados).
Talvez não devamos “culpar” um povo por não ter educação, e sim seus governantes...Mas não quero entrar nesta discussão. Mais uma vez, o que relato, é fruto da observação e/ou experiência pessoal.
Aqui as pessoas não respeitam muito as regras da boa convivência, e não fazem muita questão de ser simpáticas ou de atender bem. Um destes dias em que estive em El Vigía, acompanhei meu contato local até o banco, no qual ele sacaria dinheiro para trocar por meus dólares, dentre outras operações que precisava fazer. O fato é que no mesmo dia, estavam pagando a aposentadoria dos velinhos, e no dia seguinte seria feriado bancário (nunca vi isso..SÒ os bancos não abrem). Resultado: o banco estava um caos. Chagamos pouco antes de abrir, e havia duas filas...Uma dos velinhos, e outra da galera. Até aí, tudo bem, certo? Errado, pois havia também uma horda de pessoas que ignorava a fila... Furava sem cerimônia...Metia-se no meio da muvuca na maior cara-de-pau, provocando a ira de outras pessoas que estavam na fila sabe Deus desde que horas...Uma gritaria, uma xingação, um empurra-empurra, um tumulto...Senti pena daquela gente. Não que a fila de uma Caixa Econômica Federal em dia de pagamento de pensões seja algo bonito de se ver...Mas definitivamente, estamos a alguns anos-luz à frente deles em organização, e principalmente, respeito ao próximo.
Ah, e ainda dentro do banco, ocorreu um fato inusitado. Deixei o cara lá, e fui fazer outras coisas, pois vimos que a tendência era demorar MUITO. Quando voltamos (a vendedora da região e eu), constatamos que o número da senha de atendimento do nosso colega era algo como 428, e no painel eletrônico constava algo como 354. Enquanto eu ainda executava meu exercício mental anti-desespero, pensando em coisas belas e que “um dia ainda vou rir de tudo isso”, a senhora que estava comigo tratou de embrenhar-se na multidão, e após conversar daqui, conversar dali, voltou e falou para mim de forma afobada “Me dá 15 bolos”(bolos = abreviação de bolívares)...Isso representa algo como R$5,00. “Tornou” a sumir na multidão, e voltou com a senha # 377, o que nos economizou algumas HORAS ali dentro. Depois fui entender o que aconteceu. Existe uma espécie de moto-boys que vivem de fazer serviço de banco para outras pessoas, justamente porque se trata de algo desgastante, que pode levar um dia inteiro. Eles ficam ali o dia todo, pegam várias senhas, saem e voltam só por conta disso. Não foi muito difícil negociar a senha de um deles, pois ele ficaria ali por muito mais tempo, e tudo o que eles fizeram, foi “contratar” o serviço de um destes rapazes. (na visão deles, claro). Confesso que após ter me recuperado da surpresa gerada pela situação, fiquei aliviado por ver que, ao contrário do que eu pensava, conseguimos sair dali em menos de uma hora.
Quanto ao atendimento, deixa-se muito a desejar também. Quem leu o post sobre a viagem ao interior de MG, deve lembrar-se daquela “teoria” sobre a proporcionalidade entre qualidade do serviço e distância de SP...Pois bem, na Venezuela isto se aplica de forma exponencial. Há a necessidade de se chamar várias vezes um garçom, que vai errar seu pedido, fazer cara feia quando você reclamar, demorar anos para trazer a conta, não vai entender seu pedido de nota fiscal, pois em se tratando de estrangeiro, foge-se do padrão com o qual ele está acostumado, e ainda vai errar o troco. E ironicamente, aqui tem-se o costume de dar gorjetas ("propina"). E mais uma vez aludindo ao texto anterior, questiono até que ponto a população acha isso realmente uma falha, ou vê como algo normal...Afinal, nunca vi alguém dando “piti” em restaurante.
Bom, até haveria outras experiências ocorridas nestes primeiros dias de minha empreitada caribenha, que seriam dignas de relato. Porém, isso poderia tornar a coisa toda ainda mais cansativa do que já está...Inclusive para mim, pois gastei uma boa parte do meu domingo de “folga” para escrever este texto...Provavelmente obtenha mais “matéria-prima” para um novo post referente aos próximos 5 dias (o que sinceramente, eu gostaria que não ocorresse... Gostaria que a viagem transcorresse de forma previsível, desinteressante e sem contratempos até o final, mas algo me diz que isso não será possível..rs).
E finalmente, a idéia que eu gostaria de usar como conclusão para isso tudo, além é claro, daquela já mencionada, e que pode ser resumida pelo dito popular: “Nego só vê as pinga que a gente toma, mas ninguém vê os tombo que a gente leva”, é a de que temos que dar muito valor ao Brasil. Ok, eu sempre concordei com a idéia de que temos que nos espelhar no que está acima, e não abaixo, para que nos inspiremos a crescer... Mas é um ponto de equilíbrio interessante (e desafiador, pois não o vemos com muita frequencia), almejar algo melhor, e ao mesmo tempo, valorizar o que temos de bom. Vejo sim, muita gente que se queixa demais do “Brasilzão”, sem reconhecer que em MUITOS aspectos, somos o que eu chamo de “Suíça da América Latina”. Não vou desenvolver muito este tema, pois se trata de algo digno de um possível futuro post dedicado apenas a ele. E não culpo também as pessoas, pois muitas não tiveram a oportunidade de vivenciar o que nós, que visitamos estes lugarejos vivenciamos. Ou ainda, muitas delas já estiveram no outro extremo, ou seja, em lugares verdadeiramente mais civilizados e organizados, tendo assim, uma visão comparativa enviesada no sentido oposto. De uma forma ou de outra, voltar pra casa faz-me sempre lembrar daquela imagem em que o finado Papa João Paulo II curvou-se imediatamente ao descer do avião, beijando o solo brasileiro....
EPÍLOGO: Depois de escrever e publicar este post, dando o assunto como encerrado, precisei voltar aqui para compartilhar mais um fato que corrobora com cada linha escrita acima. Tocou o telefone do meu quarto...Era a recepção, avisando que eu tinha "diárias em aberto". Eu disse, claro, pois se eu ainda não saí do hotel, nada de errado, afinal, saio só amanhã cedo, certo? Errado. Mais uma vez, ao contrário do resto do MUNDO, no qual se paga pelas diárias utilizadas no momento do check-out, aqui parece ser diferente.Ok, acertei a primeira noite no check-in, como até se faz em alguns lugares, deixando-se o resto para pagar na saída...Mas não...Aqui não...Tenho que ir lá acertar as "pendências" HOJE...E amanhã, passo lá só para entregar a chave e dar "tchau"... Também...O que eles têm a perder..? Esse muquifo não tem frigobar mesmo...Só se eu quiser levar pra casa essa jarra nojenta de água, pra criar Aedes aegypti de estimação....
Baiano
ResponderExcluirconfesso que eu quase chorei ao ler esse post cara
quer um trampo na farmácia do meu pai?!
Abcs